A guitarra hoje já não recebe a fúria do moleque que amplificava a revolta em três acordes, onde o som rasgado era parte da voz silenciada pelos adultos ao redor — era o incômodo aos ouvidos dos vizinhos, o som merda no ouvido daqueles que nunca tiveram coragem de subir em um palco e dar a cara a tapa, se expor aos julgamentos, não sem medo, mas com a fúria maior.
Não. Hoje ela é apenas um instrumento, tocado no silêncio dos fones de ouvido, como uma lembrança de quem fui, do que fiz — já que a vida comum se torna obrigatória, suprimindo os momentos em que você pode ser você, fazendo com que sua essência seja dosada a conta-gotas, enquanto se vê sozinho em um mundo onde todo mundo faz a mesma coisa.
Os versos das músicas punk não são mais entoados, mas sim imaginados ou lidos enquanto se escuta a velha guitarra reformada dizendo que ainda está ali, se precisar — onde o moleque revoltado ainda é alguém que pode usar as lembranças para se sentir parte de algo, para poder quebrar o silêncio do “fazer o que se tem que fazer” com um Ramones mal tocado.
O menino revoltado cresceu.
A sua revolta não ficou menor — apenas foi tendo que ser colocada em uma prateleira cheia de prioridades mais importantes: do tipo comer, pagar as contas e ser, de alguma forma, socialmente aceito. Um sujeito que produza para o bem maior, para fazer com que tudo aquilo que o moleque odiava continue funcionando como um ciclo eterno de absurdos, que, de tempos em tempos, é aumentado pelas facilidades do avanço tecnológico — da comodidade dos produtos que “facilitam a vida”, mas que, no final das contas, só fazem com que você se sinta mais dopado, com uma falsa noção de preenchimento.
Hoje o homem pratica suas pequenas revoltas e sua identidade escondido dos olhos dos chefes, da família — pois que homem maduro gostaria de passar o tempo tocando som alto de três acordes, bebendo cerveja, fumando cigarro e dando risada com os amigos, falando de como estar na merda pode ser engraçado?
A vontade do corpo não é mais de querer mudar o mundo.
O mundo não merece ser mudado.
Ele está aí, servindo de playground para os que, de alguma forma, conseguem dominar o outro.
O físico não quer mais sair e dizer que está tudo uma merda — até porque isso pode queimar o filme e fazer com que se perca o emprego e o sustento.
Daquela época sobraram alguns vícios:
O cigarro — que algumas pessoas adoram dizer que têm nojo, que faz mal para a saúde, que quem fuma é maluco porque vai te matando.
Engraçado que falam isso após beber todas no happy hour e irem para casa dirigindo.
Se não são esses, são os que pegam carona no carro do bêbado só para chegarem em casa mais rápido.
O videogame — que foi refúgio para a solidão, e hoje já não é tão utilizado, porque lembra o filho que só vai vir jogar com você novamente daqui 15 dias.
O punk — que nunca morre, vira tatuagem.
E o pior de todos os vícios: pensar demais.
Aquele vício que é combustível para a própria mediocridade.
O que faz escrever textos como esse.
E o mais cruel não é o vício de pensar certo.
É o vício de pensar demais — que faz com que, no final, as overdoses e a destruição do romantismo do “sonho médio” virem patologias que, ironicamente, só são tratáveis se você tiver dinheiro para poder pagar um psiquiatra ou um psicólogo.
Com sorte, os dois.
Sendo alguém de sucesso, digno de um TED Talk, se puder — além dos dois — comprar os remédios para dormir, acordar, regular o humor, ajeitar a dopamina, tratar a doença que nem o pior dos cigarros pode causar: te tornar incapaz de sair sorrindo todo dia para fazer da sua vida o que quiser, segundo os coaches, e não fazer nada de fato, segundo você mesmo.
O cigarro acabou.
E o texto também.
Música: “Cala a Boca” – Inocentes
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