Queria poder sentir o gosto do pão que o diabo amassou, talvez assim eu parasse de cuspir sangue e vidro que a vida me dá pra comer. O que seria um pãozinho amassado pelo próprio tinhoso em vez de pedaços de uma Coca-Cola KS na boca?
Quem sabe, com essa mudança, eu pudesse pagar o pão com o dinheiro escondido na minha cueca, já que os bolsos furados não seguram nada de valor, só me dão a ilusão de que posso carregar algo além da roupa do corpo.
Esse dinheiro iria para o capeta com um pentelho, já que tô pouco me fodendo em depilar o saco — só arranco a cueca na hora de cagar, tomar banho ou abaixo ela na hora de mijar.
“Mas, nossa, como você utiliza palavras imbecis para dizer as coisas.” Pois é. E são justamente elas que mais fazem sentido, já que não existe poesia tão linda quanto se foder e escrever alguma coisa.
E, por mais que pareça, eu não estou escrevendo sobre ódio. Não, ódio não faz bem. Eu estou escrevendo sobre pensar, sobre olhar pro espelho e dizer: “puta que pariu, o que você fez com você mesmo esse tempo todo?”
Olhar para a cara cansada, os olhos desanimados, os cabelos ficando com muitos fios brancos — assim como a barba — ver a barriga crescendo, como um adulto funcional e bastante coeso nesse mundo onde a gente tem que parecer alguma coisa.
Essa encarada para o espelho que é o mais próximo que você vai ter de empatia. Esse espelho frio que só reflete a imagem, a idade. Aliás, ao ver a minha cara, cuspi mais alguns cacos de vidro, já que estavam incomodando, como aquele milho de pipoca que fica colado entre a gengiva e o dente.
Uma autocrítica pesada, um momento onde troco socos comigo mesmo, no silêncio do lar, onde a performance é apenas um convidado indesejado — o crente que bate no seu portão no domingo, às oito da manhã, depois de você trabalhar seis dias e não ter a obrigação de deixar o maldito despertador ligado. Mas você se vê obrigado a acordar cedo, porque a azia da semana bateu, você tem que tomar um Eno e voltar pra cama tentar dormir mais um pouco... mas já foi. Está lá: mais um caco de vidro na boca, pronto para ser cuspido.
Não é sobre ódio. Nunca foi, e nunca será sobre ódio.
É sobre ser.
E o que sou?
Sinceramente, não faço a mínima ideia.
Porque passo tantas vezes na frente do espelho, com roupas diferentes, que quando estou nu já não tenho ideia se aquilo sou eu.
Música: Leave Me Alone – Circle Jerks
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