segunda-feira, 14 de julho de 2025

Happy hour

Às vezes o melhor é ir para casa, abrir uma lata de cerveja e torcer pra parar de pensar.

Quem sabe ir a um bar qualquer para ficar ali como coadjuvante de filme de zumbi, onde você é o último humano antes do resto da horda ser adicionada por IA: o zumbi nº 5, aquele que a maquiagem não tem que ser perfeita, o andar não precisa ser cinematográfico — simplesmente aquele morto-vivo que, de tão sem maquiagem, parece natural.

Às vezes é hora de fechar a porta da literatura rebuscada, das palavras bonitas, do teatro cotidiano, e beber até embrulhar o estômago, depois que se dá conta de que não se alimentou o dia todo.
Um momento onde a sombra é vista somente por você mesmo; as falhas viram um gosto azedo depois de tomar a cerveja mais barata do lugar, já que você se deu ao luxo de estourar o orçamento do mês vivendo um pouco.

Onde não precisa falar mais do que “me dá mais uma” para o dono do bar, enquanto observa o happy hour das pessoas, em que o cheiro de perfume barato está nas roupas de marcas famosas falsificadas, os cabelos cortados, em sua maioria, iguais, a barba como manda o figurino — entre as mulheres que estão ali curtindo o momento de diversão, exalando o perfume sensacional que se mistura com a nicotina do cigarro que você está fumando.

Apesar de tudo isso misturado causar uma sensação de vida e nojo ao mesmo tempo — já que cheiros, sons e visão se misturam nessa massa mal digerida de cotidiano.
O bom é que, apesar de algumas pessoas acharem que esse é o momento de se mostrar, é o momento onde eu me escondo: aquela estrela que compõe o céu, mas que ninguém sabe o nome, e não faz parte de nenhuma constelação.

O banheiro insalubre que destoa do ambiente social, onde os perfeitos mijam fora da bacia, outros extraordinários cheiram suas carreiras de pó, e os homens de verdade mandam mensagens para as namoradas traídas falando que ficaram com dor de cabeça e por isso não saíram de casa.

O sujeito que aparece de lado, com um copo já no final, nas selfies dos que se divertem; o que mentalmente manda todo mundo à merda enquanto geral é só sorrisos e risadas altas.

E assim a noite avança, com alguns tirando a sorte grande de levar alguém para um motel; outros, menos afortunados, indo sozinhos para casa; outros que estão na própria espiral de autodestruição, e por isso vão para outro lugar onde tem mais festa — para acordarem amanhã com ressaca alcoólica e moral, além de alguns casos da química.

E eu, em meio a tudo isso, só abri a porta da realidade paralela, da quebra de rotina, da visão turva — não pelo fato de ficar o dia todo no computador, mas sim por embriaguez e enxaqueca, por causa das luzes neon da pista de dança.

Não sei quanto eu bebi, mas no final a conta saiu cara, me fodi, mas pelo menos tenho o recurso do Uber para ir pra casa — Uber esse que eu espero enquanto fumo meu cigarro.

E assim a noite acaba, da mesma maneira que começou: com uma vontade imensa de ir embora porque estou me sentindo mal.

Música: Black Hole Sun — Soundgarden

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