Estava ali alguém caído, embebido em sangue, e a rotina fazia as pessoas passarem por ele. Não queriam manchar seus sapatos com o sangue, não queriam olhar no rosto daquele que podia ser qualquer um — o estranhamento dos que atestam o sucesso da morte fotografando, fazendo vídeos, postando nos stories. Mais um corpo que cai, mais trabalho para o IML, que segue lotado de corpos silenciosos.
Estava ali alguém caído, alguém que tinha nome, sobrenome, tinha documento, tinha família. Mas os que passam de carro freiam para ver até onde a poça de sangue se estende. Não esperam o corpo ser recolhido — estão atrasados demais para o trabalho, mas ver um cadáver com certeza é um bom papo para a hora do café.
“Alguém morreu”, noticiam os jornais. As pessoas não se perguntam quem era — já não importa. Morreu, mas o sangue não deixa saber de quê: foi de tiro? Foi de doença? Atropelado? Não se sabe. Colocam então um lençol branco para cobrir o cadáver — a crueldade de saber que logo estará empapado em sangue, deixando a cena mais grotesca, mas instagramável.
A polícia chega e pede para todos se afastarem. Estavam em uma base próxima, então só demoraram algumas horas para chegar — um mérito para quem, sabe-se lá como, foi parar ali. Aliás, ninguém viu nada. Ninguém nunca vê. Quando percebe algo, é o cadáver no chão, o sangue escorrendo, os olhos sem vida olhando para o céu, enquanto as fotos não param. A calçada está cercada: de fita de isolamento e de curiosos.
Quem morreu? Não se sabe. Seguem as horas e ali está, esperando para ser recolhido. Mais um que se vai. Alguns passos apressados daqueles que têm um medo maior que a curiosidade, e outros que simplesmente não ligam mais. Já está ali tempo suficiente para saber que corpos aparecem, não se sabe de onde, não se sabe por quê, mas já virou rotina — assim como o cigarro, assim como chegar quarta à noite e assistir ao futebol, desfilando seus atletas que fazem propaganda de bets, falando que é saudável brincar um pouco.
O cadáver era alguém, era alguém que tinha dívidas. Alguém levou a carteira? Será que foi antes da morte ou depois? Não tem como saber. As contas estavam limpas, os bolsos vazios. Mas quem era? Ninguém sabia, ninguém queria saber.
Os ônibus tentam passar pela rua, tomada agora até a metade. O motorista tem horário para cumprir, assim como os passageiros que estão indo para o trabalho ou para casa. Meio-dia, hora do almoço, o corpo ainda está ali. Hora de comer rápido, quinze minutos para os próximos quarenta e cinco ficar olhando a cena.
Estava ali alguém caído, com um lençol vermelho sobre o corpo. O rosto não era mais visto. Ao fim do dia chegou o carro do IML, lotado como o transporte público. Quem era? Ainda não se sabe. Ninguém viu nada. A polícia se revezou para ficar guardando o local.
E assim o cadáver ficou exposto — mas com escolta. Pois, enquanto vivo, ninguém o viu, mas depois de morto, a polícia o protegeu.
Estava ali alguém caído.
Música: The Death & Resurrection Show – Killing Joke
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