Interessante como escrever sobre o que sinto, como eu sinto, e dizer que esse é o meu sentimento agride quem espera uma postura universal sobre os sentimentos.
“Ah, mas se alguém morreu, é esperado que chore.”
“Se você está triste, é esperado que demonstre gratidão por quem tenta te oferecer métodos para diminuir a sua tristeza.”
É como se, ao expor meu íntimo, ao dizer sem meias-palavras que dor é dor, alegria é alegria — ou seja lá qual for o sentimento — eu apagasse meu espaço pessoal e desse passe livre para todos entrarem, como turistas emocionais, só para ver o sangue escorrendo do meu corpo judiado pela minha própria autossabotagem.
Em outras ocasiões, pode parecer que estou escrevendo ou falando sobre um terceiro — como se eu apontasse o dedo para alguém específico, dizendo que essa pessoa é responsável pelo que eu sinto, pelo que deixei de sentir, e que a culpasse por não ser aquele alguém extraordinário que mudaria todo meu objetivo de vida, ressignificasse toda a minha existência.
Claro que há feridas abertas por outras pessoas — as quais eu não exponho por terem feridas abertas também. E seria uma covardia absoluta eu simplesmente jogar o sangue delas no papel e determinar a sentença, dizendo que estão condenadas a me destruir todo dia.
Esse manual de como sentir, como expor, com que palavras, de como ser grande dentro de pequenos sentimentos, de como tirar um final feliz de tudo de ruim que te acontece — é o motivo pelo qual eu escrevo sem terminar praticamente nenhum texto.
E também não é por não falar de felicidade que eu não me sinta feliz em alguns momentos. Seria incoerente com a minha condição de animal racional e sentimental deixar de lado as alegrias. Eu só não as escrevo porque elas já estão documentadas em livros práticos e teóricos — de filosofias a romances baratos, de esquetes no YouTube a comédias românticas.
O jeito que cada um sente, na sua individualidade, é o que realmente faz com que sejamos quem somos — não o sentimento coletivo, não as páginas de um livro de autoajuda, nem uma palestra motivacional.
O pessoal, o íntimo, é o que faz com que pessoas se identifiquem com muito mais profundidade. Talvez com menos empatia, já que o espelho reflete, mas o espelho quebrado distorce a imagem — e isso agride quem escolhe polir o feio como bonito. É pesado pensar que somos os carrascos da própria história.
Mas, como antes dito, há situações, há questões que são sim culpa de outras pessoas. Não podemos deixar as culpas individuais apagarem ou redimirem os verdadeiros culpados — os que, por sadismo ou por estarem destruídos, impõem sofrimento real, e fazem questão de arrastar com eles tudo ao redor.
Às vezes, cruzamos com pessoas realmente ruins no nosso caminho — e essas sim merecem ser responsabilizadas pelo sofrimento imposto.
Mas o que eu estou falando não é disso.
É sobre o terno e gravata que faz com que você tenha que mostrar o que sente de determinada maneira. Esse padrão que faz com que programas de TV, algoritmos e fórmulas prontas brinquem com as emoções e sentimentos das pessoas.
Minha solidão, tristeza, apatia, autossabotagem, pequenez — não devem vestir um uniforme onde todos se reconhecem. Devem ser expostas de maneira absolutamente pessoal, para dizer a todos que se assemelham ao que eu sinto que não estão sozinhos.
Música: Love Hurts – Nazareth
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