quarta-feira, 2 de julho de 2025

Eu escrevo melhor que falo

Eu sempre consegui escrever melhor do que falar. Muitas das palavras que quero dizer ficam presas na garganta, na hesitação da contundência, vagando pelo céu da boca, e, na maioria das vezes, penso mais rápido do que pronuncio as palavras.

Creio que não seja um sentimento isolado, acho que meio que todo mundo consegue se expressar melhor quando para pra escrever. Mas aí é que está o pulo do gato: eu escrevo exatamente como estou pensando, como se eu estivesse conversando com alguém. Então não é muito diferente o que eu falo com o que eu escrevo, é só que, às vezes, eu ouvi tanto a minha voz falando com clientes chatos pra caralho que eu prefiro ficar em silêncio.

O cheiro de nicotina me acompanha, menos quando meu filho está em casa. Aí eu não fumo, pelo menos tento, sem sucesso algumas vezes, mas não fumo dentro de casa. Meu filho não precisa disso, não merece isso.

É especialmente foda quando eu paro pra pensar em quantas vezes eu me calei diante de situações em que eu sabia qual palavra usar, mas fiquei quieto, fiquei sem responder, fiquei ali apenas olhando, e lendo a palavra que talvez desse um basta em algo ruim ou melhorasse algo que já estava bom.

As ausências, os silêncios dizem tanto quanto a presença, o som. É como se, nos segundos de silêncio, tudo fosse colocado na mesa, e é foda, porque eu acabo me vendo muitas vezes pensando sozinho, porque não falo. Na terapia já falei muita coisa, mas ao mesmo tempo já não disse nada. Já fiquei lá os cinquenta minutos sem dizer uma palavra, para no final a psicóloga falar: “Tá tudo bem?”, e eu só responder: “Tá sim.” E não dizer mais nenhuma palavra. E passar praticamente a semana inteira sem dizer uma coisa, somente o funcional, o trivial para manter a aparência do “tá tudo bem”, rir de uma piada que você não ouviu, mas, como está todo mundo rindo, você não quer ser notado como o contraponto, porque naturalmente vai vir a pergunta: “Tá tudo bem?” E você responde só um “sim”. E a pessoa: “Mas tá bem mesmo?” E você só responde: “Tá sim, de boa.”

Esse “de boa” no final é o sinal de que nada está de boa. E é interessante como esse “de boa” é uma linguagem universal pra dizer que não está de boa, mas as pessoas se enganam ao mandar um “então tá bom” e virarem as costas.

Existe uma vontade de ser ouvido, mas uma preguiça de pagar o preço por isso, já que vem com a mania de a pessoa não só ouvir, mas de tentar te fazer bem, tentar ser um super-herói que vai te resgatar dos pensamentos, do looping do cansaço, dizendo alguma palavra mágica.

Aí no final você acaba sendo alguém que consegue se expressar melhor escrevendo do que falando, porque falar com quem só ouve o que quer é uma bosta. E escrever é realmente colocar um pensamento pra fora, jogar um machucado seu ali, e se a pessoa disser alguma merda, você ignora e segue o jogo, mas aquilo já saiu.

Vemos como isso faz sentido pelo tanto de gente que tá fazendo terapia pelo ChatGPT: “Nossa, ele é mais humano e acolhedor do que uma pessoa”, quando, na verdade, ele é um espelho que reflete o que você manda com um algoritmo frio, calculado para te dar a resposta mais confortável e que não coloque a empresa dele em apuros.

No final é isso: eu escrevo melhor do que falo. E o que eu quis dizer com tudo isso?
Não sei.

Música: Screaming At A Wall - Minor Threat

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