Durante muito tempo fiquei pensando se deveria publicar as coisas que escrevo. Fiquei com aquela insegurança na cabeça, aquela coisa de pensar que eu era menos porque via palavras bonitas, que não faziam sentido na minha cabeça, mas eram lindas. Me perguntava: será que eu consigo escrever assim?
Essa dúvida me corroeu durante muito tempo, muito mesmo. Eu já tinha tentado fazer algo em relação à escrita, mas sempre parava no meio, deixava os textos guardados na gaveta. Porque, no meio de tantos artistas, o que um cara como eu iria conseguir falar de relevante? O que eu conseguiria fazer que as pessoas realmente olhassem?
Aí fui envelhecendo, a barriga crescendo, os cabelos ficando brancos, o sonho médio destruído, divórcio, emprego 6x1, seguindo a vida como um verdadeiro vencedor, fazendo da minha jornada fonte de inspiração para o total de 0 pessoas. E o legal é que, tirando as 0 que me acham um exemplo, todas as outras não estão nem aí para o que eu faço ou deixo de fazer. Então pensei: porra, por que não escrever?
Foi aí que comecei a passar pelas notas antigas e, ao mesmo tempo, voltei a escrever sobre o nada, sobre a merda, sobre o que eu senti, como eu senti — um narrador do caos. Mas aquela insegurança, aquele medo de parecer idiota, ainda estava comigo. Na verdade, sempre está. Eu sempre me sinto um idiota na maior parte do tempo. Porra, quem é maluco o suficiente para ficar a maior parte do tempo útil fora de casa, que não almoça direito, que arrebenta o pulmão, que marca o tempo pra repetir o dia seguinte, e chama isso de vida? Isso, eu mesmo. Então, por que vou ficar com medo de alguém que não tem influência nenhuma na minha vida? Alguém que eu nunca vi, alguém que o xingamento ou as palmas não vão fazer diferença? Estamos todos no mesmo mar de merda, então por que eu teria medo de alguém que está no mesmo lugar que eu, passando por muitas coisas que eu já passei, ou que provavelmente vá passar?
As respostas foram aparecendo, mas não como resposta — como novas perguntas, novos embates com a minha mente que não para um segundo. Ela que, sim, é a minha maior crítica, a minha bancada julgadora sem piedade, e aquela que fala: "para de achar que, pra dizer alguma coisa, você tem que saber um milhão de coisas. Você está falando em como se sente, então fale, sinta, coloque no papel o que tá rolando, sem medo. Terão mais pessoas lendo o que você disse do que se você ficar só trancado nesse quarto remoendo a vida", o que também não te leva a lugar nenhum.
Mas os assuntos vão se repetir, você é muito repetitivo... e aí vem a mente outra vez: "Meu amigo, você vive a repetição das coisas todos os dias, todos os dias são iguais, escreve essa merda pra você ver como cada dia bate diferente."
E assim sigo fazendo. No final é isso: um grande foda-se, um "me cansei de querer parecer algo", sou repetitivo, sou chato, sou comum. E, se você chegou até o final desse texto, você também é.
Por isso não te ofereço um cigarro meu porque tenho pouco agora, mas volte aí para sua rotina e escreva — pode ser que alguém leia.
Música: Nicotina - Os Replicantes
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