Aquele quarto da bagunça. Aquele lugar onde estão um monte de coisas aleatórias, coisas antigas e coisas novas sem utilidade prática no dia a dia. O lugar onde você entra às vezes para procurar alguma coisa que lembra que tinha, mas não sabe exatamente onde está.
Eu sou esse quarto. Não sou uma casa organizada, onde tudo tem um propósito, onde tudo está milimetricamente colocado para o uso ou para decorar a vida. Não. Eu sou a bagunça do tempo. Eu sou o amontoado de coisas que fazem com que esse quarto da bagunça mais me represente do que a casa limpa.
Algumas caixas têm baratas, pois não são abertas há muito tempo — eu sei. Mas é isso que deixa tudo mais interessante, pois eu não lembro o que vou encontrar a cada dia que estou ali. É como se, no meio da rotina da casa arrumada, eu vasculhasse algo nas caixas velhas, já que todas elas me remetem a alguma coisa que eu tenho guardado comigo.
O fedor de mofo misturado com o meu Lucky Strike é o cheiro de casa. É o cheiro da vida. Porque, apesar da bagunça do quarto, eu sei cada caixa que está ali e o que tem dentro de cada uma. Como alguns podem tentar dizer: uma certa lucidez. Consciência de que tudo aquilo que eu não joguei fora não foi por falta de vontade, não foi por falta de coragem, mas por saber que, em algum momento, aquilo seria útil. Aquilo seria um mapa para entender onde eu estou agora.
Os sonhos antigos estão ali, não para mostrar que são possíveis, mas para mostrar como eu me enganei em achar que eles seriam alcançáveis. Que eles seriam linhas de chegada, onde eu — com os braços levantados, todo suado — seria aplaudido pela multidão como um maratonista que venceu a prova.
Algumas das caixas contêm enfeites que eu uso para decorar a casa no Natal — mas não sem antes ter que tirar todos os nós dos cabos das lâmpadas, que, quando ligadas, vemos que uma parte já não acende mais.
Sigo sendo esse quarto, onde além de eu mesmo ficar vendo as caixas, as pessoas vêm para encontrar aquela época em que eu falei isso, que eu fui aquilo, e colocar como decoração na própria fachada. Como quem diz: "Olha que cara filho da puta, olha que incoerente, olha quem é verdadeiramente esse cara" — sendo que só o fato de eu ser um quarto bagunçado já é uma incoerência crônica.
Nos espaços entre uma velharia e outra, eu vivo o hoje, o agora. O amanhã eu não sei — já que, amanhã, as caixas velhas do quarto não estarão no mesmo lugar que hoje pela manhã.
A repetição impede que o quarto fique inabitável. O que é repetido na rotina é realmente descartável. Até porque eu vivo mais fora do quartinho da bagunça do que dentro. Talvez por isso eu não tenha muito tempo para organizar e jogar fora o que não interessa mais.
Música: The Passenger – Iggy Pop
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