É como se eu fosse uma paródia de um personagem ruim de algum livro esquecido, que foi lido por meia dúzia de pessoas. Como se eu visse a minha vida de dentro e de fora, em um roteiro mal escrito.
Uma construção completamente sem pé nem cabeça, em um mundo absurdo criado pela cabeça de alguém aleatório, que mistura tantas referências que não se refere a coisa nenhuma.
E, nesse mundo, eu fico quieto a maior parte do tempo, onde não tem fala — só monólogos intermináveis escritos em páginas e mais páginas que deixam quem lê com a pergunta: "Sobre o que esse filho da puta tá falando?"
Entendo que as coisas são complexas, e eu sou complexo. Mas vejo tudo isso de uma forma muito simples, muito tranquila. Eu nunca falo do palco do ódio — da raiva, sim, do ódio, não.
Até porque não há como eu odiar a eterna derrota de não me sentir parte, de não me sentir algo ou alguém. Talvez, quando fosse mais jovem, mais adolescente, eu tivesse ódio.
Mas hoje, vendo as pessoas mais novas e analisando seus comportamentos, eu penso, na verdade, em quanto eu era burro, inocente — em acreditar que, na minha vitalidade de querer, o poder estava nas minhas mãos e eu poderia fazer da minha vida o que eu quisesse.
Nesse sentido, eu vejo que, quando mais novo, o ódio interno nunca foi combustível pra espernear como uma criança, ou pra procurar um sentido a qualquer custo pro caos que é parte de tudo que me cerca.
O chato, o cara de canto, o que não tinha a vibe do rolê, mas que, ao mesmo tempo, as pessoas achavam legal o suficiente porque falava sobre quase tudo com um conhecimento de causa que gerava um certo tipo de espanto — quando, na verdade, era só um teatro meu pra não ser totalmente engolido pela minha lucidez patológica que faz eu me considerar o mais burro dos seres humanos.
Sim, burro. Porque eu nunca me achei mais inteligente que a maioria, porque eu sempre via os sorrisos, as relações das pessoas, e me perguntava: quando vai ser a minha vez?
Quando eu iria me sentir assim? Quando eu iria simplesmente parar de mapear toda e qualquer coisa que acontece ao meu redor?
Parar de ficar como um robô, como uma entidade ali — a qual não julga ninguém, mas que pensa na hora que não é pra pensar, não se diverte na hora que é pra se divertir, e não acha graça em algo que todos deram risada.
Geralmente, meus relacionamentos, sejam eles quais forem, não são marcados pela presença constante, pelo afeto performático — mas sim pela ausência, pela crueza que muitas vezes as pessoas não entendiam e não entendem até hoje.
Fica parecendo sempre que eu sou o cara que sabe demais das coisas, que em algum assunto aleatório eu tenho algo pra falar, mas fico quieto de um lugar de arrogância —
quando, na verdade, é o silêncio de quem já viu aquele assunto sendo tratado milhares de vezes e todas iguais, mudando apenas o personagem que fala sobre aquilo.
Mas o pensamento, a apresentação e a conclusão do que está sendo dito... é padrão. É igual.
É um sentimento de autoexclusão, de se colocar fora de tudo porque simplesmente não consegue se ver minimamente dentro de nada.
Então fica nesse teatro: trabalho duro, responsabilidades da vida — quando, na verdade, queria mesmo era correr pelado na rua, gritando, xingando todo mundo e pedindo pra ser dopado pra que a cabeça pare de escrever, de pensar, de sentir.
As coisas que mais me deixam irritado são as pessoas que tentam colocar tudo em caixinhas:
"Ah, mas você é bipolar, é border, é isso, é aquilo..."
Porque ouviram um podcast falando sobre sentimentos e, como médicos formados pelo ChatGPT, te dão um diagnóstico —
quando, na verdade, não conseguem olhar a complexidade de uma pessoa como simplesmente complexidade.
Não tem que ser um conjunto de fatores esses, que somados são iguais a isso — uma equação simples que te coloca num balaio onde há mais um monte de gente que não faz a mínima ideia do porquê está ali.
E outras que acreditaram que seus sentimentos e formas de pensar formaram padrões que fazem com que tudo tenha sentido.
Tudo isso em um personagem que ninguém faz real questão de ler — só quando você paga por 50 minutos, que nunca são suficientes pra você dizer quem realmente é.
Até porque você não sabe.
A pessoa que te ouve também não sabe quem você é.
E, mais ainda: ela também não sabe quem ela é.
Música: The man who sold the world - Nirvana
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