sábado, 5 de julho de 2025

Culpado por não querer

Existe uma coisa com as pessoas: elas precisam estar sempre interessadas em alguém, sempre apaixonadas ou semiapaixonadas. E isso não é sobre amor, é sobre paixão, um desejo cego, que coloca como objetivo uma pessoa ideal. E eu, no meio disso tudo, fico vendo as dinâmicas e, meio cansado, chego à constatação de que não estou apaixonado por ninguém, não desejo ninguém. Amo muitas pessoas — muitas delas nem fazem ideia que as amo — mas não é o amor romântico, regado a desejo e sexo. É o amor do respeito, do querer o bem, e isso é algo que está em falta.

Claro que é sempre mais comercial o amor romântico, senão, qual seria o sentido da propaganda de perfume no Dia dos Namorados? A paixão é sempre colocada como algo que move as pessoas: o querer intensamente, o desejo de ter. É foda, porque às vezes eu fico pensando: será que eu estou tão errado assim em não estar nesse pique?

Veja, não é que não estou aberto a nada disso, não é isso. Mas é o fato de que, às vezes, é bom não estar apaixonado — é meio que ver o mundo sem lente. E, ao mesmo tempo, é tentar não ser alguém apaixonável: tratar bem o outro, ter uma conversa legal, aqueles papos que vão até a madrugada, o dia clareando, sem o desejo do beijo, do sexo — que são coisas maravilhosas, sem dúvida — mas que não precisam ser o centro de tudo.

Sei lá, às vezes é meio que um crime falar que não se tem interesse amoroso por ninguém. Fica parecendo que você é arrogante e, pior, às vezes as pessoas acham que você, pelo motivo que já disse — que é tratar bem —, está enganando os outros.

Óbvio que eu sou um filho da puta e já fiz jogo de desinteresse, todo mundo já fez. Aquele ato de ficar falando que não é nada, não sente nada, para ver se a pessoa dá alguma brecha. Mas não é o caso agora. Eu simplesmente estou de boa. É um momento onde poder trocar uma ideia sem travas com alguém é fantástico: mergulhar no outro enquanto a pessoa mergulha em mim. Uma troca justa, cheia de afeto, mas não com paixão romântica.

Essa dúvida que acaba ficando na minha cabeça sobre o que será que eu estou fazendo... joga uma insegurança na minha cabeça que é de foder.
Você fica se achando menos, fica se achando estranho, fica se policiando para não passar a impressão errada, fica se policiando no que posta, no que diz, no que escreve — e até no que pensa. Porque todos temos que ser emocionados, intensos, românticos, apaixonados o tempo todo.

E aí estou eu aqui, nesse momento onde, para alguns, fica parecendo aquela supressão química de pensamentos que você tem depois de começar a tomar o antidepressivo. Mas não é, porra. Uma área de fumantes de um bar qualquer é muito mais sincera que a pista de dança onde todo mundo quer se mostrar. Até nessa dinâmica você precisa sair para respirar, nem que seja um pouco de monóxido de carbono.

Espero sinceramente que ninguém esteja apaixonado por mim, porque eu sou apaixonado por fumar e beber cerveja.

Música: Dive – Nirvana

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