Eu gostaria de ser alguém com algum horizonte, algum ideal a ser conseguido, uma meta real a ser conquistada, mas não tenho, ou acho que não tenho. Sinceramente, não sei, até porque eu vivo o hoje demais. Não que eu vá consumir toda a minha vida em um dia, mas não consigo seguir aquela métrica comum de hoje dos sonhos, de “ah, quero ter muito dinheiro, quero ser foda”. Sei lá, pra mim soa meio que ficar correndo atrás do próprio rabo.
Já sei que minha vida não é exemplo para ninguém, e sinceramente nem quero que seja, pois não compensa querer ser algo maior do que já é. Não é uma questão de não melhorar como pessoa, não é isso — é só não ficar correndo atrás de filosofia barata, coisas motivacionais fantásticas, morais das histórias. Vou um cigarro por vez, vivendo de forma dinâmica, tentando me surpreender com o novo dia que começa, apesar dele parecer uma repetição do dia anterior.
Mas você tem que ficar andando pra frente o tempo todo, mesmo que empurrado por uma manada de pessoas que ficam pregando que “eu sou a minha melhor versão, estou atrás da minha melhor versão”, sempre ansiosos com a mensagem “o objeto saiu para entrega”.
Desde muito novo eu comecei a olhar pra vida com um olhar menos colorido. Não que tudo fosse preto e branco, não é isso — é só que ficar buscando sentido em tanta coisa é meio sem sentido. Eu ia para a igreja e ela nunca respondia à minha pergunta, então ia obrigado. As pessoas falavam que viam Deus e que falavam com ele, e eu não ouvia, não conseguia entender, eu era um analfabeto espiritual — e até continuo sendo, ou estou alfabetizado demais para entender tudo isso.
Eu trabalho para receber no fim do mês, para poder dar uma condição legal para o meu filho poder ser quem ele quiser ser, tirar meu sustento para poder, sei lá, fazer uma tatuagem, comer algo diferente numa sexta-feira, poder ter a opção de sair e tomar uma cerveja, mesmo que não faça isso.
Vou vivendo de longas rotinas e pequenos momentos, e isso nem é tão niilista assim, apesar de parecer pra caralho. Mas sei lá, poder sentar, ver o movimento da rua, como movimento da rua — não como uma poesia urbana cheia de significado metafórico, metafísico — é libertador. Você não precisa ficar procurando palavras bonitas para dizer que está com tédio.
A lente que tenho nos meus olhos hoje é mais crua do que quando era criança, talvez por isso não consiga jogar videogame com tanto entusiasmo de quando eu era mais novo. O caminho para casa é só um caminho. Não consigo ficar lendo um livro atrás do outro. Quando não tenho vontade de fazer alguma coisa, não faço. Claro, isso não se faz verdadeiro quando eu venho ao trabalho, mas aqui é meio que um meio de parecer útil, por mais inútil que seja — aquela sensação que todo mundo tem de ser parte, o que faz com que você comece a pirar se fica muitos dias em casa sem fazer muita coisa. Bate aquela culpa, aquela sensação de inadequação, de não merecimento, mas é só você convivendo mais tempo consigo mesmo.
Gosto de fumar um cigarro de cada vez, e quando estou ansioso eu fumo uns a mais.
Música: I Wanna Be Sedated – Ramones
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