Incrível como a consciência pode ser massacrante e o quanto a lucidez pode ser uma briga de facas consigo mesmo: uma faca sem cabo que corta quem sofre o ataque, mas também quem ataca. Ninguém sai ileso dessa história.
Mas por que estou falando isso?
Simples: porque eu me vejo cada vez tendo menos contato com pessoas, me afundando em uma alienação, em um isolamento voluntário, onde parece que estou sendo tragado para dentro desse buraco negro.
Por exemplo, hoje eu coloquei uma blusa não porque estava com frio, mas porque eu preciso de algum tipo de calor, uma sensação de que você está aquecido, que você não está gelado igual a um cadáver social, mas, ao mesmo tempo, uma maneira de me proteger do resto do mundo ao meu redor, como se fosse uma armadura.
Sinto que estou regredindo na questão da minha depressão, já que ela vai e volta. Eu já aprendi a identificar, mas não sei o que fazer. Alguns momentos são de ansiedade, outros de melancolia, tristeza pura, bruta, isolamento e falta de vontade, um cansaço mental extremo, onde as funções básicas estão ali para que eu não perca meu emprego, para que ninguém invente de vir me perguntar se estou bem e querer, pela ótica dele, me falar que tudo vai ficar bem, que tudo vai passar.
É um momento, eu sei, ele passa, mas é absurdamente desgastante ficar aqui, nessa pele, nesse corpo, só me entorpecendo com nicotina, pensando que uma noite com alguma coisa aleatória na TV e uma comida gostosa podem me dar alegria. É assim que as pessoas se viciam e se destroem, e eu sou quebrado pra caralho, eu sei, fracassado em muitas partes da vida, aliás, na maior parte delas.
Embora eu esteja tendo cada vez menos contato humano real, só o de fachada, eu ainda consigo escrever sobre o que sinto, então, de alguma forma, eu acho que não estou totalmente fodido, já que, nesse espaço, eu posso jogar todo o caos biológico e mental que não vai explodir. Eu já tentei fazer isso, mas nunca deu certo: uma catarse absoluta, um explodir com propriedade, um extravasar de maneira que tudo isso saia.
Sou daquele tipo que, quando chega a uma festa ou a algum local diferente, procura algum lugar para sentar, porque geralmente estou cansado demais para ficar horas em pé e dizer que isso é diversão. Também não mantenho nada alcoólico em minha casa; eu iria provavelmente acabar com tudo em um dia, não porque não controlo as coisas, mas porque tem dias que eu não quero, mas tem dias que eu beberia tudo que pudesse, até esquecer tudo, até não enxergar nada.
Não estou conseguindo ler nada. Sei lá, me parece algo chato no momento, e olha que eu adoro ler, mas não me forço. A mesma coisa é sobre assistir alguma coisa, um filme, uma série; não tenho mais streaming nenhum assinado e nem tenho vontade. Sei lá, jogar também não me entretém, só faz eu passar horas ali olhando para a tela e fazendo objetivos aleatórios até enjoar e não querer mais jogar.
As únicas conversas mais longas que tenho tido é com meu pai, mas nada profundo, só sobre coisas que praticamente sempre conversamos a vida inteira: sobre alguma banda aleatória, algum esporte, nada com algo mais profundo. Não peço socorro para ele. Com a minha mãe também rola isso, mas até menos, porque eu sei que, se falar que estou escrevendo, falar que estou fazendo algo, ela vai vir com o sermão de que precisa ganhar dinheiro, assim como ela falava quando eu era mais novo, a história de sair de casa com um real e voltar com dois.
Vejo cada pedaço de escala de cinza que vai tomando conta da vida aos poucos, e a minha batalha acaba sendo solitária e cheia de palavras no bloco de notas. Apesar de eu achar que, se está doendo de alguma maneira, é porque eu ainda estou vivo, quer dizer que eu sinto alguma coisa, ainda me sinto inquieto o bastante para ficar olhando com certo desespero para tudo isso e pensar o que eu posso fazer para mudar pelo menos um pouco disso.
Esse meu jeito mais isolado, que se agravou nos últimos tempos, sempre foi um problema, porque eu sempre fui aquele que já foi chamado várias vezes para fazer algo, fui recusando até não ser mais chamado para mais nada, nem para receber um oi. Chato pra caralho.
Sempre mastiguei todo o vidro moído sozinho, sem falar a real para ninguém, mas com ciclos de atividade plena, sociabilidade boa, mas que virava um problema quando eu falava que queria ficar sozinho depois.
No final, fica o meu cigarro, as vontades que o corpo não acompanha e meus desabafos em forma de texto.
Música: Suffocate – Green Day
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