Existem decisões que, às vezes, já tomei que foram definitivas, romperam com realidades, com a vida cotidiana, mas que, mesmo anos depois de eu ter me afastado — mesmo sabendo que o que viria depois para a outra parte não seria minha culpa — eu ainda sinto responsabilidade sobre o que acontece, sobre as merdas de algumas vidas de pessoas que já ficaram próximas de mim, o que me faz pensar: como eu posso ajudar? O que eu posso fazer para tirar essa sensação de ser responsável, essa culpa disfarçada de senso de responsabilidade?
Tem coisas do passado que é foda deixar no passado, deixar pra lá, pensar que isso não me afeta a ponto de, inconscientemente, eu sentir o impulso de tentar ajudar ou aliviar algo que não tem relação nenhuma comigo.
Ainda sinto aquela culpa que já senti antes, do tipo: ir ao mercado e pensar “vou comprar tudo que as pessoas precisam e gostam”; o fato de eu querer um saco de salgadinho deixo pra depois, qualquer hora eu compro, o que fatalmente vira uma procrastinação da própria vontade, para me sentir feliz em ter colocado não só a necessidade, mas o luxo do outro acima do próprio viver de forma básica, respeitando uma vontade ou outra que eu mesmo tinha para mim.
É como se eu vivesse com culpas desde moleque, desde que me conheço por gente, aquela coisa de não querer dar trabalho para ninguém, então não preciso pedir, nem falar para alguém que desejo alguma coisa, mesmo que essa coisa seja algo absurdamente pequeno.
Sei lá, parece que, muitas vezes, vou suprimindo minhas vontades e sentimentos para ser visto como um humano funcional, que é absolutamente mais importante do que ser só humano, já que um humano real e sem parecer funcional aos olhos da sociedade é alguém descartável. Mas enquanto todas as minhas merdas gerarem consumo de alguma forma, maravilha: pague a terapia, pague o psiquiatra, pague o remédio, não para realmente se livrar de culpas ou desse falso senso de responsabilidade, mas para você poder trabalhar minimamente bem, para que possa pagar as contas no fim do mês, em que a maior parte das contas consiste em pagar a comida, a moradia, o direito de água e luz, e o resto vai nas despesas médicas.
E enquanto eu coloco meus vícios em um lugar seguro para poder, mesmo que seja me matando aos poucos, pensar que posso me dar ao luxo de fumar um cigarro com uma marca minimamente decente, eu vejo todo o resto ser consumido nesse senso de responsabilidade maluco, que qualquer um que entenda esse pensamento sabe que é uma culpa gigantesca, grotesca.
Essas coisas vêm e vão, principalmente quando você recebe uma mensagem de alguém desabafando com você e você se sente parte daquilo em um nível onde você se sente responsável por fazer algo para ajudar, mas esquece que está numa merda, em um limbo absurdo, e que não adianta se jogar na água para tentar salvar alguém que está se afogando sem saber nadar, porque aí a possibilidade é que dois corpos desapareçam em vez de um. Esse desespero, essa urgência de ver alguém se fodendo e acabar caindo ali para se foder junto te impede de ver que do lado tinha uma boia.
No final, eu não faço a mínima ideia do que fazer e de como fazer, sigo sem saber, procurando alguma boia para salvar quem eu me importo, mas percebendo que não estou em terra firme, mas no barro que separa a água da terra firme.
Eu não sei nadar.
Música — Born Broke — Hellacopters
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