Esses tempos, meu filho tem me perguntado e pedido para eu contar histórias de quando eu era criança, quando tinha mais ou menos a idade dele, contar as merdas, as zoeiras, para dar risada no final.
Eu contei algumas. Não posso contar todas, senão acabo com todas as histórias antes de a curiosidade dele passar. Melhor sobrar alguma e contar quando ele não espera, do que não ter o que falar quando ele perguntar.
Calma, eu não vou contar todas as peripécias e merdas que eu fiz pra ele, pra ele repetir, ou no mínimo se sentir tentado a isso. Não, mil vezes não. São apenas histórias tipo: aquele dia que caí de bike, o dia que fui descer o morro com papelão e acertei um cupinzeiro com a bunda. Coisas assim, inocentes, para rir, para eu me alegrar também enquanto conto, não para ficar remoendo feridas antigas.
Mas, por mais que eu tente lembrar de todas as histórias legais, eu vejo também que eu não fui um moleque de sair muito na rua, de fazer coisas fora de casa. Não, era quase sempre eu sozinho, jogando videogame, porque eu não queria pedir pra ninguém deixar eu sair para brincar, não queria ter que pedir essa permissão. Era chato, era solitário, pensar que poderia ir na casa dos outros e, na minha casa, os amigos não poderiam vir. Então fiquei meio sem amigos.
Obviamente não vou contar essa parte para o meu filho agora. Ele não tem cabeça para pensar nisso, nem vou contar quando comecei a fumar, beber, tudo escondido — mas, incrivelmente, em casa, já que meus pais estavam sempre trabalhando.
Os dias que matei aula? Não. Essas histórias ficam para outros tempos. Dá para dar uma aliviada para ele, mostrar que toda criança faz alguma merda do tipo: cair, se ralar, se foder, voltar todo ralado pra casa e isso ser, na hora, doído, mas, tempos depois, engraçado.
Claro que contei muitas merdas que eu vi também, algumas dores de cabeça que dei para minha mãe e alguns segredos bestas de criança, do tipo: eu comi o pudim que ficou todo mundo procurando por um dia inteiro, como um segredo absoluto, onde nem minha mãe e nem ninguém em casa soube — e isso ser um pacto: não contar sobre o pudim para a vó.
Isso me causa uma preocupação fodida, porque eu tenho total consciência do que fui quando criança, das histórias paralelas que são merda, e não são engraçadas, mas que, entre elas, aconteceu algo engraçado. Então, ao contar uma história, eu fico meio tenso de meu moleque perguntar o porquê do contexto, e aí eu ficar em um beco sem saída, já que o contexto era de algo muito mais fodido: o matar aula ser uma fuga da escola que era uma merda com quem era estranho; o descer o morro em papelão em pé porque não estava muito preocupado com a própria segurança, o importante era sentir alguma coisa, sabe?
Essas coisas realmente me deixam preocupado, porque falar que quebrou um dedo é engraçado: "Porra, tava jogando bola, mas chutei a parede." Mas… e o ódio do chute que fez eu dar um porradão na parede? Entendeu?
Ser pai é meio pular de um avião sem paraquedas e torcer pra cair em um lugar fofo o suficiente para você não acabar ficando todo fodido, e mostrar os detalhes dos seus machucados para quem não tem cabeça suficiente para entender o que aquilo significa.
Algumas das histórias de criança eu contarei. Outras não. Tem coisas que devem ficar nas gavetas depois de adulto, até porque são coisas que eu lembro absolutamente bem, e, por isso, não fazem muito bem — tanto pra mim quanto pra quem eu conto.
Música: We're a Happy Family – Ramones
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