Fim de semana. Dia de escolher uma roupa legal, finalmente deixar o uniforme de lado e poder se vestir como quiser — sem travas, sem perigo de ser julgado. Um momento de vida real.
Ele então acorda, escova os dentes empolgado, toma um banho para tirar a nhaca, lava o cabelo. É isso: dia de ser você mesmo. Após se enxugar, coloca a toalha no cesto de roupa suja — fim de semana dá pra colocar ela na máquina, estender no varal e deixar pronta pra semana seguinte. O tempo parece estar bom, o que é um convite a sair, andar, e mostrar para o mundo que está ali.
Após se secar, pega uma cueca limpa em uma das gavetas, veste e abre o guarda-roupa. E, ao abrir a porta, vê ali um cadáver. Meio mumificado. Começa a se perguntar quem é aquele morto ali. O que está fazendo aquele corpo ali? Engraçado que ele parece ter a mesma altura… Fisicamente não dá pra saber, já que está meio ressecado. Mas… como ninguém percebeu o cheiro disso?
Chega perto e tenta sentir o odor da morte — e nada. O corpo não fede. Está ali, colocado ao lado dos cabides com as roupas. Mas o que o deixou espantado é que o cadáver estava vestindo exatamente o que ele tinha planejado enquanto tomava banho. Estava com a mesma calça. A mesma camiseta. Sentiu um leve frio na espinha. “Porra, que merda é essa?”
Ficou ali, encarando com um misto de nojo, espanto e curiosidade. Como essa merda não tá fedendo? Quem é esse cara? Será que eu matei alguém? Mas… eu não lembro?
E, em meio a essas perguntas, como num movimento involuntário, pegou o cadáver — que era incrivelmente leve —, colocou de lado e começou a procurar a roupa que queria vestir. E não encontrou. Era a roupa que estava no cadáver mesmo.
E, só de cuecas, ficou ali olhando aquele corpo sem vida vestindo a roupa que ele queria usar. Pensou que poderia simplesmente pegar a roupa, já que o cadáver não estava fedendo. E já que estava ali naquele guarda-roupa há tanto tempo… se fosse pra pegar alguma doença, já teria tido.
Despiu o cadáver e colocou a roupa. Com um misto de nojo e alívio, porque conseguiu vestir o que queria. Engraçado que, em nenhum momento, sentiu medo. Em nenhum momento sentiu aquela insegurança de ter feito algo horrível e escondido. Não. Ele simplesmente pegou o cadáver, depois de tirar sua roupa, e colocou de volta no guarda-roupa — como se nada tivesse acontecido.
Foi então que, já vestido, calçado o tênis, ao fechar a porta do móvel, olhou mais de perto o braço e as mãos do cadáver. Ele estava ali com o dedo do meio levantado, como se estivesse mandando se foder. Depois de ver o dedo do meio, olhou para a face do cadáver, deu uma risada, mandou um dedo do meio de volta para o morto, fechou a porta e decidiu sair.
Pegou o maço de cigarros, as chaves da casa, calçou o tênis e foi para a cozinha tomar os remédios da manhã. Passou em frente ao espelho grande que tem na sala, verificou se estava bem vestido e, como numa visão, o reflexo no espelho mandou outro dedo do meio pra ele.
Riu novamente, abriu a porta e, quando foi sair, se lembrou que esqueceu de passar desodorante. Ele não queria ficar fedendo como um cadáver.
Depois saiu.
Música: A song for the dead - Queens of the Stone Age
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