Quando eu tinha meus 8 anos, eu ia para a escola que era perto do trabalho da minha mãe. Eu estudava à tarde. Lembro bem do ano e de quantos anos eu tinha: era 1994. Ano do tetra, ano da morte do Ayrton Senna e ano da morte de uma tia minha.
Eu ia para o trabalho com a minha mãe, pois ela entrava às 11 da manhã, e ali ficava com ela até chegar a hora de ir para a escola. E depois que saía, por volta das 18h, eu voltava ao trabalho dela e passava essa última hora lá, até podermos voltar juntos para casa. Foi uma época legal, onde eu aprendi a pegar o ônibus. Grande parte das vezes, eu ia para um restaurante simples, o nome era Trivial, e lá, como minha mãe tinha conta, o dono do restaurante marcava a minha comanda do almoço para ela pagar na hora que fosse almoçar. Geralmente tinha batata frita, um arroz e feijão básico, e um bife. Sempre que podia, pegava o molho rosé, e de sobremesa, pegava chantili puro e comia. Eu sempre fui muito magro e não comia muito, então as contas não eram altas nem absurdas. Era uma boa vida.
Sempre fui alto, muito branco, meio pálido e magrelo. Isso, aliado ao meu estilo com cabelão, era meio esquisito, pois eu era aquela criança que usava um tênis vermelho, roupas de uniforme e uma mochila velha em dois tons de azul da Hang Loose que meu irmão havia me dado, já que ele tinha comprado uma nova da Ocean Pacific no lugar.
A escola era normal. A grande questão é que, naquela época, não existia limite de série por turno. Então era do primeiro ano ao terceiro colegial juntos, o que fazia com que sempre os mais novos ficassem com medo.
Como eu almoçava antes de ir, não levava lanche, e também não pegava merenda. Não porque eu não gostasse, nem nada disso — era só o fato de não estar com fome mesmo.
Não havia nada de extraordinário nessa dinâmica. Era meu dia a dia. O único grande porém era que eu ficava sozinho a maior parte do tempo. Sempre fui muito quieto nessa questão e não tinha aquela coisa com os amiguinhos. Eu ficava sentado na aula, ouvindo, tentando aprender, sempre com aquela dúvida sobre a tabuada — que foi resolvida por um tempo, porque meu irmão me deu um lápis que tinha toda a tabuada nele. O problema é que, de tanto apontar, já era: não tinha mais onde consultar caso tivesse dúvidas. E eu tinha esquecido de pedir outro pra ele.
Tudo sempre igual. Eu não me divertia na escola, nunca me diverti. Só estava ali porque tinha que estar. Afinal, era obrigação de toda criança ir pra escola, obedecer os pais, tirar boas notas, ser comportado, e nos tempos vagos, poder jogar um videogame ou ir para o parquinho.
Nesse contexto todo, um dia começa o recreio — sim, recreio, porque eu tinha 8 anos. “Intervalo” é para os mais velhos. Estava eu ali, tranquilo, o sinal tocou e eu desci as escadas de madeira do velho edifício. Uma escadaria que lembra a de Resident Evil, mas em tamanho reduzido. Segui para o pátio, e a quadra ficava aberta. Lá o pessoal ficava jogando bola, e o resto do pessoal, sentado na volta toda da quadra.
Encontrei um lugar para sentar e fiquei de pernas cruzadas, com a mochila em cima das pernas, só observando tudo e esperando o tempo passar para voltar para a aula. Ali, vendo tudo acontecer, aparecem dois alunos mais velhos na minha frente, me olhando com curiosidade. E logo um deles me pergunta:
— Você é menino ou menina?
Eu olhei meio assustado com a pergunta, porque nunca tive que responder isso antes. Eu meio que senti um frio na espinha. Achei que iam me bater, sei lá, muita coisa passou na minha cabeça. E eu só respondi:
— Eu sou menino.
Os dois se olharam, deram risada e saíram. Por um momento, fiquei ali com aquele frio na barriga e, ao mesmo tempo, sentindo que eu fui zoado pra caralho. Afinal, não dava pra saber se eu era menino ou menina. Daquele dia em diante, eu comecei a me esconder mais no recreio. Ficava com medo, só usava o banheiro nos horários de aula, porque comecei a ficar com medo de usar no horário do recreio. Eu não sabia processar aquela pergunta de maneira inteligente, sei lá, fiquei pensando nisso.
Quando saí da escola e falei com a minha mãe, eu falei que estava tudo bem. Eu não queria dar trabalho, nem nada disso. Então, de alguma forma, eu guardei aquilo pra mim.
Cortei o cabelo tempos depois, o que a minha mãe adorou. Mas cada vez que eu cortava o cabelo quando criança e ela falava empolgada “como ficou lindo”, eu dava um sorrisinho sem graça — mas, por um lado, ficava feliz por ter agradado ela.
E quando adolescente, quando cheguei naquela fase em que todos os amigos estão falando de beijar, de sair com alguém, de xavecar, eu olhava como se estivesse de fora. Lembra a cena do filme O Virgem de 40 anos, quando ele fala sobre mulheres, e os caras sabem que ele tá mentindo, desconfortável em falar daquele assunto?
Passei a adolescência me questionando, mas ao mesmo tempo colocando as coisas de lado. Porque eu queria tocar, queria escutar música. Não tinha realmente muitos amigos — nunca tive — então esses momentos em que você se vê preso a uma dinâmica adolescente, só para não ser o cara que ficava sozinho o tempo todo…
A diferença é que, adolescente, eu conseguia ficar mais em paz comigo mesmo em alguns momentos. Porque eu fumava escondido da minha mãe.
Música: Não é Permitido - Inocentes

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