Vejo por aí as pessoas procurando respostas para as perguntas — e se contentando com o que lhes oferecem. Isso faz com que a religião tenha o poder que tem, e que a astrologia seja o "pensar fora da caixa". Sei lá, me dá a impressão de que as pessoas tentam se identificar com as outras pelas certezas, quando na verdade são as perguntas que fazem com que não estejamos sozinhos.
É tipo você sair por aí meio perdido, encontrar alguém também perdido, e ficar feliz por não ser o único maluco que não tem certeza de porra nenhuma — que não é um sujeito de alta performance (termo absurdamente idiotizado hoje, tipo “alta performance dermatológica”), mas sim alguém que veio para esse mundo sem saber o que era pra fazer, sem escolher porra nenhuma, e mesmo assim tem que achar um sentido.
Certezas vendem cursos, criam gurus, salvadores… e justificam toda a bosta que vemos por aí — tipo produzirmos comida pra caralho, mas ter gente que não tem o que comer. A certeza é aquela que faz você repetir, validar, e não dizer nada sobre o absurdo do “a comida está à venda por tal preço, se você não tem o dinheiro, que se foda”.
Parece que você está sozinho procurando algo que ninguém tem como te ajudar a achar. Parece que você é um simples maluco que pensa demais em tudo, quando o melhor seria simplesmente ter a certeza de que alguém disse — e viver feliz para sempre, dopado com as "verdades" ditas por quem se esconde atrás de alguma questão moral. E você, no meio de tudo isso, silenciando todos os pensamentos, todas as dúvidas… porque o que vende, o que é bom, quem é foda, é quem tem certeza de tudo — como se a vida fosse uma planilha editável, e não um caderno de rascunho, cheio de rabiscos e rasuras.
No final, você é visto como arrogante por ficar quieto em vez de falar qualquer merda. Porque geralmente, falar merda é só confirmar algo que alguém já disse — naquele eterno teatro das pessoas que não procuram conversar, mas sim confirmar o que já pensam.
“Ah, mas você tem que pensar fora da caixa.”
Mas que caixa?
Se eu tenho que pensar fora dela, então o que tá dentro?
E se eu pensar algo fora da caixa que todo mundo concorda… então é dentro da caixa?
Pensar fora da caixa é meio que pensar em outra caixa — aquela onde quem pensa te elogia por ter sido “brilhante”. Porque a primeira caixa é o que chamam de normalidade, e o “fora da caixa” é o que chamam de criatividade. Mas o real fora da caixa? Esse é o que chamam de absurdo, irritante, feio, sem sentido… e logo colocam na caixa do erro.
Ou seja: pra humanidade, você nunca vai pensar fora da caixa. Sempre que você pensar algo novo, alguém vai te dizer que tal pessoa já pensou isso antes.
Esse círculo vicioso vai matando a vontade de falar qualquer coisa.
Você começa a guardar pra si tudo que parece não fazer sentido, e isso te coloca em diagnósticos, em rótulos, em mais caixas. A ponto de você preferir o silêncio. Mas esse silêncio também fode, porque às vezes você era o único que podia mostrar pra outro perdido que ele não tava sozinho nessa merda toda.
E assim as pessoas se conectam com as certezas fáceis, deixando o real de lado.
Você acaba sendo aquele que era quieto demais, que não quis ser foda, não quis ser notado, não quis gritar certezas pra ser amado.
E acaba sendo odiado — porque a sua dúvida incomoda a certeza subjetiva do outro.
Ninguém pensa fora da caixa.
Porque, no final, tudo é caixa e nada é caixa.
Música: “All Moving Parts (Stand Still)” – Black Sabbath
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