A solidão sempre foi uma companheira de vida, e os momentos de ausência me deram tempo para pensar.
Não fui o cara de ficar lendo milhões de coisas, estudando, querendo construir uma vida confortável no que se diz em ter um bom emprego, uma vida estável.
Sempre vi a loucura que era não ter ninguém em casa a maior parte do tempo — e, quando tinham tempo, não faziam nada além de ajeitar as coisas para que a casa funcionasse durante a semana de ausência.
Eu não queria fazer parte disso.
Claro que era um pensamento de criança que não entendia que, para você ser minimamente alguém, tem que vender seu tempo, sua felicidade, sua convivência com quem você ama, para, nas férias, quem sabe, fazer alguma viagem legal — e ficar endividado o resto do ano seguinte, até as próximas férias.
Eu tento, durante o tempo que tenho com meu filho, ficar junto com ele.
Não precisa ser aquele "estar fazendo a mesma coisa que ele", mas ser o que, por um lado, eu não tive — aquele adulto do lado ou por perto, para quando eu virasse o rosto, não me sentisse sozinho.
Eu mostro as minhas falhas, eu mostro que dá pra rir das merdas que acontecem, ao mesmo tempo em que também me mostro triste, chateado, cansado, sei lá...
Não teria sentido eu me mostrar como um super-herói, o cara que não chora, o macho alfa — porque isso seria uma canalhice sem tamanho com a pessoa que mais precisa da minha humanidade.
As poses ele vai aprender.
Algumas delas eu ensino, mas sei lá... isso vai ser tacado na cara dele de todo jeito.
Eu só quero mostrar que, comigo, ele pode cair, falhar, vir machucado, triste, com ódio, que eu vou ouvir.
Se ele precisar de algo, eu vou falar.
Se não, a gente liga o videogame e distrai a cabeça.
Eu falo pra ele sobre algumas coisas que me aconteceram quando criança.
Não dá pra se ter muita ideia do que estou fazendo como pai — meio que faço o que bate na hora na minha cabeça.
Óbvio que não o tempo todo, não sou um inconsequente.
Claro que existe uma linha natural, que é meio que pai, mas eu acho que o terror e a diversão de nunca saber direito o que é que você vai fazer é o que torna tudo mais sincero.
Quando ele era pequeno e estava aprendendo a falar, estávamos eu, ele e a mãe dele — minha ex-esposa, com quem fui casado oito anos — naquele ritmo de domingo.
Eu ali jogando, ela vendo o celular, e ele brincando e vendo eu jogar.
Tudo normal.
Até que eu morri no jogo.
Aquela frustração, aquele momento onde você meio que desliga e mandei um “puta que pariu” sincero.
Quando olho pra ele, vejo que estava reparando no jogo, aí ele aponta pra tela e fala:
— Pupa pi paiu.
Eu dei risada porque ele mandou um “puta que pariu”, peguei ele no colo e dei um beijo, rindo — até que olho pro lado e vejo minha ex olhando brava pra mim, como quem diz:
"Você reparou o que você fez?"
Automaticamente, novamente sem pensar, falei alto:
— Caralho, falei palavrão perto da criança!
Ela olhou de novo pra mim, naquele tipo “PARA!”.
Eu com os olhos arregalados, mas querendo rir pra cacete por causa daquela situação, olhei outra vez pro meu filho — e ele começa a rir.
Eu não aguentei, comecei a rir também.
A minha ex também não aguentou, e riu no final das contas.
Anos se passaram, e agora, quando ele vem pra casa, manda vários “puta que pariu” — e rimos juntos.
Mas, fora dali, ele não fica falando palavrão.
Pelo menos, não de forma mal-educada.
Música: "Trash" – The Wip
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