segunda-feira, 21 de julho de 2025

Líquido não newtoniano

Eu me sinto denso em meus próprios pensamentos, como se vivesse nesses embates existenciais aos quais me reconheço, mas sobre os quais tenho pouco ou nenhum controle. É como se eu estivesse de frente com um líquido não newtoniano: se dou um soco de raiva, bato em um muro meio esquisito de verdades e regras que não consigo ultrapassar; mas, se fico em cima dele sem fazer nada, afundo e corro o risco de me afogar nessa dualidade horrível.

Ao mesmo tempo, me sinto em paz com isso. Porque sei que, enquanto ando em volta e vejo esse líquido aumentar de volume conforme a minha idade avança — já que as regras de um corpo velho vão colocando cada vez mais limitações físicas e mentais sobre o que sou — percebo que eu não sou só aquele líquido, mas também o cara que dá o soco nele, e o que fica parado em pé ali. Todos ao mesmo tempo.

Chega a ser uma viagem fodida pensar nisso. Até eu me pego surpreso com o que isso quer dizer, afinal, não sou tão inteligente assim pra ficar fazendo esse tipo de constatação filosófica. Eu não li Platão, não gosto do Pondé, acho o Cortella piegas e o Karnal chato. Isso me coloca numa ralé intelectual — daqueles que são censurados quando pensam, mesmo quando pensam certo. E talvez essa minha pirraça seja a essência de tudo.

O pensamento que estou tendo agora, nesse momento, talvez seja o mais abstrato que já tive na vida — ou talvez seja o mais lúcido. Não sei. Mas o que eu realmente quero dizer é que sei que a vida é uma merda por essência. Afinal, nascemos em eventos aleatórios que alguém pode até chamar de milagre, mas é tão aleatório que, se você não acreditar em nada, você enlouquece. Talvez algumas pessoas. Não todas.

Ser maluco é apenas uma visão oposta a ser são: é ser esse líquido não newtoniano que não é líquido, nem sólido, nem normal, nem comum — mas que existe. E serve como experiência legal pra ensinar na escola ou pra algum youtuber usar como conteúdo.

Não adianta. Por mais que as pessoas ignorem, eu existo. Nesse momento. Aqui. Fisicamente, mentalmente. E não há como qualquer um me dizer que eu não sou ninguém. Afinal, eu sou eu. Não preciso ser mais que isso. Os rótulos que colocam durante as fases da vida são apenas checkpoints para poder, de alguma forma, te encaixar num senso comum de existência — onde a destruição é coletiva e a culpa, individual.

Esse pensamento, no final das contas, talvez seja a coisa mais vergonhosa que eu já fiz até hoje. E eu escrever exatamente como sinto é, sim, de uma arrogância absurda — já que parece que penso demais, e que me gabo por isso.


Música: The pretender - Foo Fighters

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