domingo, 20 de julho de 2025

Com que roupa eu vou?

Nunca fui um cara que chama a atenção quando vai para os lugares. Sabe, aquele que se veste bem, aquele cara bonito, que faz as pessoas olharem com curiosidade? Não. Eu sempre fui o mais comum possível: calça jeans, tênis e alguma camiseta de banda.

Quando deixei de ser vestido pela minha mãe — que fazia questão de me colocar como aquele “menino bonitinho, bem cuidado, nossa, que criança linda” —, o que, na minha visão, era chato demais, comecei a me vestir de maneira simples. Não por uma questão estilística, mas por pura preguiça mental de ter que ficar mudando de roupa para cada ocasião. Isso era engraçado porque, quando eu era criança, eu odiava calça jeans. Achava incômoda. E, como sempre fui magrelo, tinha a impressão de que eu ficava horrível com elas.

Porém, com uma certa maturidade, vi que as calças não se limitavam aos modelos que a minha mãe queria que eu usasse. E aí veio a liberdade de usar calças baratas, mas que me deixavam confortável. O que era foda por um lado, já que meu irmão era o completo oposto de mim. Quinze anos mais velho, ganhava bem, e sempre estava com roupa de marca, bom sapato e um bom perfume — o que criava basicamente dois extremos: ele sendo o filhinho da mamãe, que mesmo adulto se vestia para agradar a todos, e eu, que na minha inutilidade e identidade, me vestia de forma simples, sendo basicamente o mesmo em todos os lugares.

Nunca levei a roupa como identidade — pelo menos não como uma fantasia social. Sempre me vesti da maneira que me sentisse confortável. O mesmo vale para cabelo e barba: sou do tipo que deixa o cabelo crescer durante anos e, do nada, raspa tudo.

Claro que esse tipo de postura nunca é muito aceita. Fora de casa, você vira o fantasma — a embalagem de alguém não interessante, que não merece ser atendido em uma loja, que não tem o olhar correspondido em uma balada, que na escola está à margem. Porém, dentro de casa, cada parte do meu visual sem intenção era julgado. Por muitas vezes, minhas camisetas de banda sumiram, porque “não eram músicas de Deus”. Ou minha calça rasgada era motivo de censura: “Como você ousa usar uma roupa desgastada, sendo que tem tudo o que quer?”

Sempre segui vendo essas coisas calado. O máximo que eu fazia era comprar outra camiseta, rasgar outra calça ou usar um tênis fodido no lugar de um novo. E, por causa da minha fobia social, esse limbo de não ser interessante me protegia de interações não solicitadas. Cresci assim: nunca quis ser protagonista de situação nenhuma. Quando falavam comigo, eu respondia — como um NPC de videogame.

Hoje, já sei que a roupa é uma forma de expressão, de personalização, e também uma forma de opressão e despersonalização (vide os uniformes). Fatalmente, tudo que você veste — por escolha ou falta dela — é, para o contexto geral, uma embalagem de como o mundo te vê. Ou, ao menos, julga.

Depois de velho, percebi que nada do que eu visto representa de fato o que penso ou sinto. São apenas maneiras de vestir uma armadura confortável para encarar o absurdo de, mesmo querendo ser nada, acabar sendo um monte de coisas — não porque você pensou sobre isso, mas porque pensaram por você.

Então, já que eu vou ser embalado de qualquer forma, que se foda o que eu visto. Estando confortável, já era.

Música: Freak – Silverchair

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