Quantas vezes eu torci para a noite acabar, porque eu estava em um lugar onde não queria estar. Aquelas noites em que, apesar de ter bebido, estou sóbrio o suficiente para odiar estar ali. Mas, por um protocolo social, você fica, vai empurrando com a barriga, e aí o encontro que você quer que termine em casa, vomitando sozinho no box do banheiro, acaba virando um sexo casual sem vontade, onde a pessoa quer que você durma com ela. E eu, não tendo vontade nenhuma, raramente durmo fora — não gosto de ficar em lugares que eu não conheço, nem que seja uma suíte conhecida de motel.
Talvez por isso hoje eu fique em casa a maior parte do tempo ou, se saio, eu vou sozinho, sem a obrigação de ficar se o clima estiver uma bosta. Sei lá, às vezes sinto falta de ver gente, de conversar com gente — é lógico, eu sou humano. Mas, ao mesmo tempo, a preferência por estar só é gritante. Sei lá, gastar uma grana fodida em um único rolê me ferra também, fico sem dinheiro para fazer nada.
Não sei se é normal acontecer isso, mas essa coisa de ter que ser sociável, de sair, ficar rindo pra tudo, enquanto vai cozinhando a mente com álcool e cigarros, é boa até certo ponto. E nem estou falando contra um sexo casual, um beijo em alguém que eu não sei o nome — porra, isso é legal pra caralho. Mas é legal quando é em um clima leve, aquela coisa do tipo: "Porra, eu curti você, vou te dar um beijo."
Você fala uma vez: "Não danço, não jogo bilhar, eu só fumo, ouço música e bebo". Enquanto faço tudo isso, converso. Mas não: você tem que aproveitar tudo, tem sempre alguém querendo te domesticar, dizer o "deixa de ser chato, vamos lá", e o "não" vira um "sim" chato pra caralho, mas que, pra não ficar sempre como o filho da puta, você faz.
Quando isso acontece, eu me lembro de uma cena na adolescência:
Era época de carnaval, eu ali com meus 16, 17 anos, e meus amigos todos animados para ir ao desfile das escolas de samba da cidade, com aquele papo: "Vai ter muita mulher, vai ser legal, porra, vamos lá". E essa pressão social na adolescência pega muito mais, e na minha cabeça girava o pensamento: "Caralho, eu não gosto de carnaval, só gosto dos dias sem ir pra escola. Lá vai ter mulher, mas eu não vou pegar nenhuma, porque no meio dos carnavalescos, eu sou um cara magrelo, alto, de pé grande, cabeludo, com uma camiseta de banda (geralmente Nirvana) que não tá nem aí pra aquela merda toda". E as minas nem olhavam pra minha cara porque eu era o esquisito. Ali então isso ia ficar amplificado.
Mas, como um adolescente inseguro com as amizades, falei que ia, e segui com o pessoal pra lá. Cheguei no lugar, comprei uma cerveja (não, ninguém vê se é menor de idade, e um cara de 17 de 1,90 passa por maior de idade de boa). Fiquei encostado em um muro, com a perna dobrada e o pé nele, bebendo, e aquela seria a única cerveja. Naquele tempo não tinha trabalho, então eu era um fodido que dependia do dinheiro que a mãe dava, ou de algum amigo playboy que pagasse alguma coisa.
Fiquei ali, olhando o clima total. Não o desfile, não as mulheres, mas tudo. Vendo aquele clima de festa, os meus amigos com as amigas deles que eles tinham chamado para ir ao lugar. E eu ali, aquele ponto fora do universo, o dead pixel na tela, que não faz diferença no total, mas que incomoda quando olha de perto.
Isso foi uma constante em minha vida: ir aos lugares e não querer fazer o que todo mundo fazia. Queria só ir lá, ver o lugar, observar, e ir embora a hora que eu quisesse. Mas era sempre puxado por um amigo para algum lugar maluco depois, onde ninguém, a não ser eu, lembrava da história no dia seguinte. E, no final, não importasse o que eu contava, o principal era sempre o magrelo como aquele ponto estranho ali. Tudo era divertido até eu ser o palhaço da história por não fazer parte do espetáculo de todo mundo.
E isso acontece meio que até hoje, só que hoje eu já jogo na cara que tô achando tudo uma merda, e fico de boa. Não tenho que ficar agradando ninguém, não, e gastando dinheiro com isso.
Música: Beber até morrer – Ratos de Porão
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