Já houve vezes em que me envolvi com pessoas que eram muito legais, muito boas mesmo, e eu acabei virando um dos vilões da história delas. É foda, é pesado.
As coisas vão acontecendo, você vai se abrindo um pouco mais a cada dia, cedendo, pensando: "Acho que vale a pena". Mas esse tipo de coisa vai te fazendo esquecer que basicamente você está descendo uma ladeira com uma bicicleta sem freios. Começa com uma velocidade normal, como quem diz: "Eu posso controlar isso", e a velocidade vai aumentando a cada segundo, a cada momento, a cada metro.
Nas relações eu já me vi assim. É estranho que, quando você está lá, pensa: "Isso eu já conheço, dá para segurar", e começa a dizer "sim" a algumas coisas às quais, momentos antes da paixão, diria "não". Vai, a cada pequeno detalhe, fazendo com que a velocidade aumente — aquele convite para fazer algo, que você está cansado demais no fim do dia para ir, mas marcou com dias de antecedência, então vai meio que a contragosto, mas não fala que não quer mais porque não quer jogar a expectativa do outro no chão.
Outras vezes começa a pensar no porquê está fazendo tudo isso. Sabe aquele começo onde todo mundo parece absolutamente racional e dono de si, onde é falado: "Você pode me dizer qualquer coisa", e aos poucos o "qualquer coisa" vira "algumas coisas", até que vira "coisas sem sentido", e começa a esconder o que realmente sente em prol de uma felicidade que começa a ficar plastificada como um documento novo.
E nisso o tempo vai passando, e as coisas aumentando de tamanho. Olha aí a bicicleta sem freios aumentando mais a velocidade: você começa a não responder na hora, e isso causa um sentimento horrível de espera na outra pessoa. Mas eu estou trabalhando, não quero pensar nisso agora, e a engrenagem da sua rotina começa a apresentar problemas, porque tem uma engrenagem a mais que faz mais uma dinâmica girar, e você já está com todas as demandas cheias, e as ausências começam a ficar mais frequentes — onde um "se eu responder mais tarde não tem problema" aí vira motivo de desculpa: "Ah, me perdoe, eu estava ocupado, não deu pra responder na hora."
E não, você não está olhando outra pessoa, não está desinteressado naquela que você conquistou, só está atolado até o pescoço das merdas do mundo e das próprias merdas, e isso vai obviamente fodendo todo seu entorno, a merda começa a feder, e nisso as perguntas de onde vem o cheiro são inevitáveis.
E aí a bicicleta está bem rápida. Você tenta controlar da melhor maneira possível para não bater em algum carro estacionado, ou bater de frente em algum carro que vem subindo a rua.
A cada "hoje não dá, eu estou cansado", "hoje não quero conversar", é uma tentativa desesperada de apertar o freio da bicicleta, e a constatação depois do "então vamos fazer outra coisa", que esse freio não existe.
E aí começam os maiores desgastes: o "você não quer mais", o "você me enganou", o "você é a pior pessoa do mundo", love bombing, e pronto, as conversas antes esporádicas viram momentos de conflito, pois todos estão magoados pelo que ocorre, ninguém na verdade está entendendo porra nenhuma do que está acontecendo. Você está sem freios em uma ladeira, a toda velocidade, e descobre que tem alguém com você nessa mesma bicicleta. Não adianta, o destino é cair, ou bater em algum muro, algum carro, não conseguir fazer uma curva.
Já era. Você, durante o tempo todo, achou que estava sozinho nessa ladeira, e não estava. Se machucou e machucou quem estava com você, aquela pessoa que pensou que você tinha o controle da situação.
O final é sempre o mesmo: você todo arrebentado, culpado, sabendo que fez merda, que se enganou achando que tinha algum controle, mas no final só sobram os curativos e a dor sozinho em casa.
E com isso, o vício em cigarro permanece, assim como o vício de descer ladeiras com bicicleta sem freio.
Música: Burnout - Green Day
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