sexta-feira, 11 de julho de 2025

Ressaca química

Tem momentos em que eu olho ao meu redor e me sinto um fantasma, algo realmente fora do normal. Eu tenho meus problemas, minhas preocupações, meus demônios, e aí fico pensando com quem eu posso falar sobre.
E é foda, porque eu realmente não confio em ninguém pra isso. Parece que as pessoas te perguntam se está tudo bem só por perguntar, não pra querer saber realmente como você está — e aí vira aquele ciclo desastroso de falta de confiança.

Se você fala com a família, vira arma contra você no futuro. Familiares adoram jogar na cara as suas fraquezas, as coisas que você disse num momento em que estava mal.
Se conta pra amigos, você vira fofoca, porque o amigo sempre tem alguém que também é amigo dele, que conta as coisas — e vai aumentando até chegar a um ponto onde, além de saberem quem é você e o que está passando, eles falam coisas a mais, coisas que nem você sabia que tinha de problemas.
E, como essa esponja seca, em momento de fraqueza, você absorve toda a merda dita.

E aí, se você vai fazer terapia — além de isso ser algo estranho — o que você fala vira diagnóstico caro, onde, além de pagar as consultas, vai ter que ir ao psiquiatra, que vai te receitar remédios, e esses remédios vão bater mal. Alguns não vão funcionar, e você vai ter que voltar, e além dos problemas que já tem, vai ter que falar que fica com caganeira e sonolento, mas não menos triste, menos fodido.
Pelo contrário, fica até mais, porque no trabalho parece que você está de porre e, quando está em casa, não sente mais nada.

Eu passei por todos esses processos, estou medicado, faço minha terapia, mas nada disso impede eu de ter vontade de simplesmente não existir, de não tomar mais os remédios, porque parece que não têm efeito, mandar todo mundo se foder e virar realmente um cara que não liga pra nada, e cozinhar meu cérebro com álcool ou alguma droga que faça, por algum momento, eu não saber quem eu sou.

Por mais foda-se que eu possa parecer, eu me importo com muita coisa, mesmo que elas não mereçam importância — e isso não dá pra ser trabalhado em terapia, porque, no final, você vai fazer isso de alguma maneira.
Não há como ser uma pessoa absolutamente lúcida o tempo todo: é saber que você está dentro dessa merda de engrenagem, sentir o peso dela e, ainda assim, girar — mas não sem fazer barulho.

A noite passada foi foda, muito foda. Eu só queria que o dia acabasse logo, pra ver se, na repetição do dia, poderia ter algo diferente, algo que me fizesse me sentir melhor, mais humano, mais eu — e, na verdade, só acordei com uma ressaca química do caralho, por causa dos remédios que eu tomei pra apagar.

Chego aqui e vejo as pessoas interagindo entre si, e eu sento no meu lugar e fico vendo coisas aleatórias enquanto não atendo ninguém, mas sempre ouvindo, de relance, as histórias, e pensando: puta que pariu, por que eu não sou assim? Por que eu não sou tranquilo assim? Ou, pelo menos, por que eu não me sinto parte da humanidade comum?

Não estou nem falando que eu me acho o diferentão, o cara fora da curva. Eu me sinto só fora, e não consigo pensar em como entrar, em como fazer parte, porque, apesar de eu ficar olhando sozinho pra algumas dinâmicas, eu não consigo sentir vontade de participar delas.
A maior parte das coisas não me agrada, e isso me torna um cara chato pra caralho, uma pessoa que não é seletiva nas coisas que faz, mas que já não quer fazer mais.

E assim segue a ressaca: com boca seca, estômago embrulhado e menos cigarros que o comum.

Música: Dumb - Nirvana

Nenhum comentário:

Postar um comentário