terça-feira, 29 de julho de 2025

Escrevo por escrever

Escrevo por escrever, porque se não escrevesse, eu não escreveria.

Isso pode até soar maluco — e, sinceramente, acho que é muito maluco. Mas a grande questão é que simplesmente escrever por que sim virou algo absurdamente subversivo.
Porque todas as escritas precisam ter alguma intenção grandiosa por trás, um sentido único e inalterável de querer dizer alguma coisa para alguém — e que esse alguém seja atingido de uma maneira que valide o porquê de você escrever.

Mas, a partir desse pensamento, você não parte mais do princípio de que quer escrever por escrever. Sua escrita passa a ser controlada por quem vai ler o que você escreve.
E não — isso não quer dizer que eu tenha que escrever qualquer coisa, por mais imoral que seja, apenas para chocar. Porque aí você já cai na intencionalidade de chocar, o que também não é, no final, o escrever "porque sim".

Agora eu me vejo nisso tudo, e vai parecer absolutamente pedante eu dizer que escrevo completamente sem sentido.
O que não é verdade.

Porque, se não tem sentido eu escrever, então não precisaria escrever.
Mas o pulo do gato está aí:
eu escrevo para dizer o que penso.
Se eu — ou alguém — vai ler, pouco importa.
Estou registrando a minha existência e meu pensamento cru, sem métrica, sem algoritmo, sem a regra de querer ser mais do que sou — que é: eu mesmo.

E o que eu sou?

Não faço a mínima ideia.
Já que o fato de eu pensar porque existo não é por si só um sentido — mas sim, só uma dúvida. Simples e complexa.
O que me leva a escrever sobre isso.

Mas se eu não sei pra que existo, por que continuo a existir?

Porque somente existindo sem saber me faz escrever sem sentido.
Porque a possibilidade de tudo fazer sentido amanhã não me atrai — mas o fato de eu pensar amanhã o que não pensei hoje me deixa curioso.
E para lembrar o que pensei ontem, eu escrevo.
Para que as perguntas fiquem empilhadas no caos que é existir.

Eu sei, é uma maluquice gigantesca.
E, no final, estamos todos mais perdidos do que no começo dessa escrita.
E a graça está justamente nisso.

Ninguém precisa ter um monte de sentido para sentir o que sente.
Estamos todos errados de acordo com o ponto de vista de alguém.
E vamos continuar estando errados.

O que me faz mais feliz do que se eu encontrasse um monte de pessoas dizendo que estou certo.

No final, os pontos de vista mudam. As opiniões também.
E, a não ser que eu interrompa minha vida, vou continuar existindo enquanto me for permitido, biologicamente.

Estou preso a um mundo onde certezas mentirosas vendem muito mais do que dúvidas sinceras.
E, dentro do que isso me permite ser livre, eu sou.

Não na arrogância de me bastar, mas na humildade de saber que não sei quem eu sou. 

segunda-feira, 28 de julho de 2025

Não uso marcadores de livro

O meu ritmo de leitura é tão aleatório quanto qualquer coisa que eu faça que não seja vir trabalhar todo dia. Não fico naquela de “ah, quantos livros eu li na vida”, “ah, quantos livros eu li esse mês”. Acho muito mais honesto ler quando tenho vontade, e quando não tenho, não ler. Simples.

Ando com vários livros na mochila. Não sei quando vai me bater a vontade de ler algum deles. É como jogar videogame: uma hora você quer e joga a noite toda, e quando vê, o dia tá amanhecendo. No outro dia, você nem lembra que o videogame existe.

“Nossa, vá ler livros! Tudo fará sentido, você ficará mais inteligente.” Mas esquecem que os idiotas também sabem escrever — basta ver isso que você está lendo agora, o que eu estou escrevendo. Até porque, com o tanto de gente que lê pra caralho, que diz que é inteligente, e o mundo continua a mesma merda... E isso nem é pra dizer que ler é ruim, não é. Mas tentar entender o que está escrito é algo que não dá pra ficar monetizando. Aliás, dá — é só ver o tanto de canal de resenha de livro, gente escrevendo e pedindo pra youtuber reagir, comentar, ler — e não dizer o que acha realmente, mas falar pros outros comprarem.

Peguei um ódio por livros na adolescência. Era muito ruim ficar ouvindo que, se eu não lesse Machado de Assis, eu não passaria no vestibular. Não, eu não passei no vestibular — mas não foi por causa do Machado de Assis. Ele nem sabe o que eu fiz. Sempre achei essa imposição de ter que ler esse ou aquele cara obrigatória uma bosta.

Hoje você tem um CEO de qualquer coisa que ganha uma grana violenta e nunca leu porra nenhuma — e geralmente é o cara que lança um livro (ghostwriter) com a fórmula para o sucesso.

Os livros que eu leio não uso marcadores de página. Pelo menos, não os comprados ou brindes — eu os perco todas as vezes. Então uso um pedaço de papel qualquer, geralmente um pedaço do maço de cigarros. Não fico tratando livro como algo sagrado — já tem maluco demais fazendo isso com a Bíblia, e olha o que tá acontecendo.

Não sou adepto da canalhice intelectual de querer dizer que sou inteligente e profundo porque leio tal autor, porque entendi outro. No final, eu li Machado de Assis, mas só quando mais velho. E penso: ainda bem que me dei esse tempo. Porque é uma leitura chata pra caralho. O cara é genial? Óbvio. Mas é chato pra caralho de ler. É realmente o tipo de leitura que aquele acadêmico que exibe todos os seus cursos gosta. Mas um adolescente realmente vai preferir Harry Potter e Jogos Vorazes.

Eu até ia ler alguma coisa hoje, mas perdi a vontade.

Música: O Equivocado — Ratos de Porão

domingo, 27 de julho de 2025

Pensando dentro da caixa

Vejo por aí as pessoas procurando respostas para as perguntas — e se contentando com o que lhes oferecem. Isso faz com que a religião tenha o poder que tem, e que a astrologia seja o "pensar fora da caixa". Sei lá, me dá a impressão de que as pessoas tentam se identificar com as outras pelas certezas, quando na verdade são as perguntas que fazem com que não estejamos sozinhos.

É tipo você sair por aí meio perdido, encontrar alguém também perdido, e ficar feliz por não ser o único maluco que não tem certeza de porra nenhuma — que não é um sujeito de alta performance (termo absurdamente idiotizado hoje, tipo “alta performance dermatológica”), mas sim alguém que veio para esse mundo sem saber o que era pra fazer, sem escolher porra nenhuma, e mesmo assim tem que achar um sentido.

Certezas vendem cursos, criam gurus, salvadores… e justificam toda a bosta que vemos por aí — tipo produzirmos comida pra caralho, mas ter gente que não tem o que comer. A certeza é aquela que faz você repetir, validar, e não dizer nada sobre o absurdo do “a comida está à venda por tal preço, se você não tem o dinheiro, que se foda”.

Parece que você está sozinho procurando algo que ninguém tem como te ajudar a achar. Parece que você é um simples maluco que pensa demais em tudo, quando o melhor seria simplesmente ter a certeza de que alguém disse — e viver feliz para sempre, dopado com as "verdades" ditas por quem se esconde atrás de alguma questão moral. E você, no meio de tudo isso, silenciando todos os pensamentos, todas as dúvidas… porque o que vende, o que é bom, quem é foda, é quem tem certeza de tudo — como se a vida fosse uma planilha editável, e não um caderno de rascunho, cheio de rabiscos e rasuras.

No final, você é visto como arrogante por ficar quieto em vez de falar qualquer merda. Porque geralmente, falar merda é só confirmar algo que alguém já disse — naquele eterno teatro das pessoas que não procuram conversar, mas sim confirmar o que já pensam.

“Ah, mas você tem que pensar fora da caixa.”
Mas que caixa?

Se eu tenho que pensar fora dela, então o que tá dentro?
E se eu pensar algo fora da caixa que todo mundo concorda… então é dentro da caixa?

Pensar fora da caixa é meio que pensar em outra caixa — aquela onde quem pensa te elogia por ter sido “brilhante”. Porque a primeira caixa é o que chamam de normalidade, e o “fora da caixa” é o que chamam de criatividade. Mas o real fora da caixa? Esse é o que chamam de absurdo, irritante, feio, sem sentido… e logo colocam na caixa do erro.

Ou seja: pra humanidade, você nunca vai pensar fora da caixa. Sempre que você pensar algo novo, alguém vai te dizer que tal pessoa já pensou isso antes.

Esse círculo vicioso vai matando a vontade de falar qualquer coisa.
Você começa a guardar pra si tudo que parece não fazer sentido, e isso te coloca em diagnósticos, em rótulos, em mais caixas. A ponto de você preferir o silêncio. Mas esse silêncio também fode, porque às vezes você era o único que podia mostrar pra outro perdido que ele não tava sozinho nessa merda toda.

E assim as pessoas se conectam com as certezas fáceis, deixando o real de lado.
Você acaba sendo aquele que era quieto demais, que não quis ser foda, não quis ser notado, não quis gritar certezas pra ser amado.
E acaba sendo odiado — porque a sua dúvida incomoda a certeza subjetiva do outro.

Ninguém pensa fora da caixa.
Porque, no final, tudo é caixa e nada é caixa.


Música: “All Moving Parts (Stand Still)” – Black Sabbath

sábado, 26 de julho de 2025

Três acordes

A guitarra hoje já não recebe a fúria do moleque que amplificava a revolta em três acordes, onde o som rasgado era parte da voz silenciada pelos adultos ao redor — era o incômodo aos ouvidos dos vizinhos, o som merda no ouvido daqueles que nunca tiveram coragem de subir em um palco e dar a cara a tapa, se expor aos julgamentos, não sem medo, mas com a fúria maior.

Não. Hoje ela é apenas um instrumento, tocado no silêncio dos fones de ouvido, como uma lembrança de quem fui, do que fiz — já que a vida comum se torna obrigatória, suprimindo os momentos em que você pode ser você, fazendo com que sua essência seja dosada a conta-gotas, enquanto se vê sozinho em um mundo onde todo mundo faz a mesma coisa.

Os versos das músicas punk não são mais entoados, mas sim imaginados ou lidos enquanto se escuta a velha guitarra reformada dizendo que ainda está ali, se precisar — onde o moleque revoltado ainda é alguém que pode usar as lembranças para se sentir parte de algo, para poder quebrar o silêncio do “fazer o que se tem que fazer” com um Ramones mal tocado.

O menino revoltado cresceu.
A sua revolta não ficou menor — apenas foi tendo que ser colocada em uma prateleira cheia de prioridades mais importantes: do tipo comer, pagar as contas e ser, de alguma forma, socialmente aceito. Um sujeito que produza para o bem maior, para fazer com que tudo aquilo que o moleque odiava continue funcionando como um ciclo eterno de absurdos, que, de tempos em tempos, é aumentado pelas facilidades do avanço tecnológico — da comodidade dos produtos que “facilitam a vida”, mas que, no final das contas, só fazem com que você se sinta mais dopado, com uma falsa noção de preenchimento.

Hoje o homem pratica suas pequenas revoltas e sua identidade escondido dos olhos dos chefes, da família — pois que homem maduro gostaria de passar o tempo tocando som alto de três acordes, bebendo cerveja, fumando cigarro e dando risada com os amigos, falando de como estar na merda pode ser engraçado?

A vontade do corpo não é mais de querer mudar o mundo.
O mundo não merece ser mudado.
Ele está aí, servindo de playground para os que, de alguma forma, conseguem dominar o outro.
O físico não quer mais sair e dizer que está tudo uma merda — até porque isso pode queimar o filme e fazer com que se perca o emprego e o sustento.

Daquela época sobraram alguns vícios:
O cigarro — que algumas pessoas adoram dizer que têm nojo, que faz mal para a saúde, que quem fuma é maluco porque vai te matando.
Engraçado que falam isso após beber todas no happy hour e irem para casa dirigindo.
Se não são esses, são os que pegam carona no carro do bêbado só para chegarem em casa mais rápido.
O videogame — que foi refúgio para a solidão, e hoje já não é tão utilizado, porque lembra o filho que só vai vir jogar com você novamente daqui 15 dias.
O punk — que nunca morre, vira tatuagem.
E o pior de todos os vícios: pensar demais.
Aquele vício que é combustível para a própria mediocridade.
O que faz escrever textos como esse.

E o mais cruel não é o vício de pensar certo.
É o vício de pensar demais — que faz com que, no final, as overdoses e a destruição do romantismo do “sonho médio” virem patologias que, ironicamente, só são tratáveis se você tiver dinheiro para poder pagar um psiquiatra ou um psicólogo.
Com sorte, os dois.
Sendo alguém de sucesso, digno de um TED Talk, se puder — além dos dois — comprar os remédios para dormir, acordar, regular o humor, ajeitar a dopamina, tratar a doença que nem o pior dos cigarros pode causar: te tornar incapaz de sair sorrindo todo dia para fazer da sua vida o que quiser, segundo os coaches, e não fazer nada de fato, segundo você mesmo.

O cigarro acabou.
E o texto também.

Música: “Cala a Boca” – Inocentes

sexta-feira, 25 de julho de 2025

Puta que pariu!

A solidão sempre foi uma companheira de vida, e os momentos de ausência me deram tempo para pensar.

Não fui o cara de ficar lendo milhões de coisas, estudando, querendo construir uma vida confortável no que se diz em ter um bom emprego, uma vida estável.

Sempre vi a loucura que era não ter ninguém em casa a maior parte do tempo — e, quando tinham tempo, não faziam nada além de ajeitar as coisas para que a casa funcionasse durante a semana de ausência.
Eu não queria fazer parte disso.
Claro que era um pensamento de criança que não entendia que, para você ser minimamente alguém, tem que vender seu tempo, sua felicidade, sua convivência com quem você ama, para, nas férias, quem sabe, fazer alguma viagem legal — e ficar endividado o resto do ano seguinte, até as próximas férias.

Eu tento, durante o tempo que tenho com meu filho, ficar junto com ele.
Não precisa ser aquele "estar fazendo a mesma coisa que ele", mas ser o que, por um lado, eu não tive — aquele adulto do lado ou por perto, para quando eu virasse o rosto, não me sentisse sozinho.

Eu mostro as minhas falhas, eu mostro que dá pra rir das merdas que acontecem, ao mesmo tempo em que também me mostro triste, chateado, cansado, sei lá...
Não teria sentido eu me mostrar como um super-herói, o cara que não chora, o macho alfa — porque isso seria uma canalhice sem tamanho com a pessoa que mais precisa da minha humanidade.

As poses ele vai aprender.
Algumas delas eu ensino, mas sei lá... isso vai ser tacado na cara dele de todo jeito.
Eu só quero mostrar que, comigo, ele pode cair, falhar, vir machucado, triste, com ódio, que eu vou ouvir.
Se ele precisar de algo, eu vou falar.
Se não, a gente liga o videogame e distrai a cabeça.

Eu falo pra ele sobre algumas coisas que me aconteceram quando criança.
Não dá pra se ter muita ideia do que estou fazendo como pai — meio que faço o que bate na hora na minha cabeça.
Óbvio que não o tempo todo, não sou um inconsequente.
Claro que existe uma linha natural, que é meio que pai, mas eu acho que o terror e a diversão de nunca saber direito o que é que você vai fazer é o que torna tudo mais sincero.

Quando ele era pequeno e estava aprendendo a falar, estávamos eu, ele e a mãe dele — minha ex-esposa, com quem fui casado oito anos — naquele ritmo de domingo.
Eu ali jogando, ela vendo o celular, e ele brincando e vendo eu jogar.
Tudo normal.

Até que eu morri no jogo.
Aquela frustração, aquele momento onde você meio que desliga e mandei um “puta que pariu” sincero.
Quando olho pra ele, vejo que estava reparando no jogo, aí ele aponta pra tela e fala:

Pupa pi paiu.

Eu dei risada porque ele mandou um “puta que pariu”, peguei ele no colo e dei um beijo, rindo — até que olho pro lado e vejo minha ex olhando brava pra mim, como quem diz:
"Você reparou o que você fez?"

Automaticamente, novamente sem pensar, falei alto:

Caralho, falei palavrão perto da criança!

Ela olhou de novo pra mim, naquele tipo “PARA!”.
Eu com os olhos arregalados, mas querendo rir pra cacete por causa daquela situação, olhei outra vez pro meu filho — e ele começa a rir.
Eu não aguentei, comecei a rir também.
A minha ex também não aguentou, e riu no final das contas.

Anos se passaram, e agora, quando ele vem pra casa, manda vários “puta que pariu” — e rimos juntos.
Mas, fora dali, ele não fica falando palavrão.
Pelo menos, não de forma mal-educada.

Música: "Trash" – The Wip

quinta-feira, 24 de julho de 2025

1994

Quando eu tinha meus 8 anos, eu ia para a escola que era perto do trabalho da minha mãe. Eu estudava à tarde. Lembro bem do ano e de quantos anos eu tinha: era 1994. Ano do tetra, ano da morte do Ayrton Senna e ano da morte de uma tia minha.

Eu ia para o trabalho com a minha mãe, pois ela entrava às 11 da manhã, e ali ficava com ela até chegar a hora de ir para a escola. E depois que saía, por volta das 18h, eu voltava ao trabalho dela e passava essa última hora lá, até podermos voltar juntos para casa. Foi uma época legal, onde eu aprendi a pegar o ônibus. Grande parte das vezes, eu ia para um restaurante simples, o nome era Trivial, e lá, como minha mãe tinha conta, o dono do restaurante marcava a minha comanda do almoço para ela pagar na hora que fosse almoçar. Geralmente tinha batata frita, um arroz e feijão básico, e um bife. Sempre que podia, pegava o molho rosé, e de sobremesa, pegava chantili puro e comia. Eu sempre fui muito magro e não comia muito, então as contas não eram altas nem absurdas. Era uma boa vida.

Sempre fui alto, muito branco, meio pálido e magrelo. Isso, aliado ao meu estilo com cabelão, era meio esquisito, pois eu era aquela criança que usava um tênis vermelho, roupas de uniforme e uma mochila velha em dois tons de azul da Hang Loose que meu irmão havia me dado, já que ele tinha comprado uma nova da Ocean Pacific no lugar.

A escola era normal. A grande questão é que, naquela época, não existia limite de série por turno. Então era do primeiro ano ao terceiro colegial juntos, o que fazia com que sempre os mais novos ficassem com medo.

Como eu almoçava antes de ir, não levava lanche, e também não pegava merenda. Não porque eu não gostasse, nem nada disso — era só o fato de não estar com fome mesmo.

Não havia nada de extraordinário nessa dinâmica. Era meu dia a dia. O único grande porém era que eu ficava sozinho a maior parte do tempo. Sempre fui muito quieto nessa questão e não tinha aquela coisa com os amiguinhos. Eu ficava sentado na aula, ouvindo, tentando aprender, sempre com aquela dúvida sobre a tabuada — que foi resolvida por um tempo, porque meu irmão me deu um lápis que tinha toda a tabuada nele. O problema é que, de tanto apontar, já era: não tinha mais onde consultar caso tivesse dúvidas. E eu tinha esquecido de pedir outro pra ele.

Tudo sempre igual. Eu não me divertia na escola, nunca me diverti. Só estava ali porque tinha que estar. Afinal, era obrigação de toda criança ir pra escola, obedecer os pais, tirar boas notas, ser comportado, e nos tempos vagos, poder jogar um videogame ou ir para o parquinho.

Nesse contexto todo, um dia começa o recreio — sim, recreio, porque eu tinha 8 anos. “Intervalo” é para os mais velhos. Estava eu ali, tranquilo, o sinal tocou e eu desci as escadas de madeira do velho edifício. Uma escadaria que lembra a de Resident Evil, mas em tamanho reduzido. Segui para o pátio, e a quadra ficava aberta. Lá o pessoal ficava jogando bola, e o resto do pessoal, sentado na volta toda da quadra.

Encontrei um lugar para sentar e fiquei de pernas cruzadas, com a mochila em cima das pernas, só observando tudo e esperando o tempo passar para voltar para a aula. Ali, vendo tudo acontecer, aparecem dois alunos mais velhos na minha frente, me olhando com curiosidade. E logo um deles me pergunta:

— Você é menino ou menina?

Eu olhei meio assustado com a pergunta, porque nunca tive que responder isso antes. Eu meio que senti um frio na espinha. Achei que iam me bater, sei lá, muita coisa passou na minha cabeça. E eu só respondi:

— Eu sou menino.

Os dois se olharam, deram risada e saíram. Por um momento, fiquei ali com aquele frio na barriga e, ao mesmo tempo, sentindo que eu fui zoado pra caralho. Afinal, não dava pra saber se eu era menino ou menina. Daquele dia em diante, eu comecei a me esconder mais no recreio. Ficava com medo, só usava o banheiro nos horários de aula, porque comecei a ficar com medo de usar no horário do recreio. Eu não sabia processar aquela pergunta de maneira inteligente, sei lá, fiquei pensando nisso.

Quando saí da escola e falei com a minha mãe, eu falei que estava tudo bem. Eu não queria dar trabalho, nem nada disso. Então, de alguma forma, eu guardei aquilo pra mim.

Cortei o cabelo tempos depois, o que a minha mãe adorou. Mas cada vez que eu cortava o cabelo quando criança e ela falava empolgada “como ficou lindo”, eu dava um sorrisinho sem graça — mas, por um lado, ficava feliz por ter agradado ela.

E quando adolescente, quando cheguei naquela fase em que todos os amigos estão falando de beijar, de sair com alguém, de xavecar, eu olhava como se estivesse de fora. Lembra a cena do filme O Virgem de 40 anos, quando ele fala sobre mulheres, e os caras sabem que ele tá mentindo, desconfortável em falar daquele assunto?

Passei a adolescência me questionando, mas ao mesmo tempo colocando as coisas de lado. Porque eu queria tocar, queria escutar música. Não tinha realmente muitos amigos — nunca tive — então esses momentos em que você se vê preso a uma dinâmica adolescente, só para não ser o cara que ficava sozinho o tempo todo…

A diferença é que, adolescente, eu conseguia ficar mais em paz comigo mesmo em alguns momentos. Porque eu fumava escondido da minha mãe. 












Música: Não é Permitido - Inocentes

quarta-feira, 23 de julho de 2025

Sentimentos sinceros

Em mais um surto de pensamentos aleatórios da madrugada, regada a quetiapina que não fez efeito e Lucky Strike (filtro vermelho, por favor), me pego pensando em um assunto que, por muitas vezes, já me passou como se eu visse uma árvore na lateral da pista — mas eu estivesse em um carro em alta velocidade. Só identifiquei que era uma árvore, mas não sabia qual era, nem onde estava.

Mas, nessa madrugada especialmente fria, me pego mais uma vez ruminando as coisas, mastigando meus cacos de vidro.
Aqui estou eu, mais uma vez, com essa troca de porradas comigo mesmo — onde eu bato na minha própria cara enquanto dou risada com a gengiva sangrando, os dedos inchados, a mão doendo — para chegar a uma conclusão completamente sem sentido… ou com muito sentido, a depender do ponto de vista. Do quanto você bebeu. Do cigarro que fuma. E, mais importante, do quanto você já se fodeu.

A raiva é o único sentimento honesto. O único que realmente faz com que a ação não seja totalmente vazia.
Estava aqui pensando… o amor é a Síndrome de Estocolmo dos que já ficaram presos em uma paixão durante tanto tempo que, quando ela morre, você fica tentando reviver aquele cadáver.

(O que eu falo é sobre o amor romântico, não o maternal ou paternal — esse foge a qualquer regra. E só quem tem filhos consegue entender.)

O ódio é como uma bomba que vai cair e destruir tudo. Ela não caiu, mas está no caminho.
Não há o que possa detê-la: são toneladas de pólvora direcionadas a um local que, embora calculado, não tem previsão do impacto real.

E a paixão, como dito antes, é um sequestrador.
Ela te mantém refém.
A negociação é truncada.
A razão não transita.
É como se, em vez da bomba do ódio, estivesse uma arma apontada direto pra sua cabeça.

A raiva, no entanto, é o atrito entre o que se é e o que se quer ser.
É o meio desconfortável.
É aquela vontade de ir embora de um rolê chato pra caralho — e que seria a melhor decisão se você não odiasse parecer chato.
Ou se não fosse refém da performance social.
Ou, ainda, se já não sofresse da Síndrome de Estocolmo e ficasse ali por amor às pessoas que não merecem.

Talvez esse meu pensamento seja apenas resultado da insônia.
Talvez seja algum delírio.

Acho que vou fumar outro cigarro.

Música: Human – Rag’n’Bone Man

terça-feira, 22 de julho de 2025

Diversão garantida!

Estava aqui me lembrando das vezes em que fui para festas, confraternizações, eventos sociais diversos, onde o intuito era se divertir, tomar algumas cervejas, bater papo e voltar pra casa — o que, até aí, é muito válido.

Porém, começo a lembrar que, independente de qual evento social seja, ele sempre vai se fragmentar em grupos menores: as panelinhas.

As pessoas começam sempre a se dividir em grupos, com seus diplomatas que circulam entre eles — geralmente a pessoa "da galera" ou, em evento de trabalho, algum supervisor. Nada anormal.

Dentro dessa dinâmica curiosa, que sempre tem (não adianta dizer que não), eu me vejo como o cara ali, parado nos corredores, dando espaço para os supervisores, enquanto fumo meu cigarro, tomo minha cerveja, como meu petisco, observando cada um dos grupos — e me culpando internamente por não conseguir estar em nenhum deles de verdade.

Claro que, em alguns momentos, eu até entro em algum grupo onde tem alguém com quem converso mais. Mas é só para ficar sorrindo e balançando a cabeça afirmativamente enquanto alguém fala.

Ou, às vezes, dá certo de algum infeliz puxar papo comigo — e aí dura horas, eu falando de alguma coisa com conexões absurdas, como estou fazendo agora. E vejo nos olhos da pessoa que ela já não está entendendo mais nada. Mas sigo no monólogo. E, em cada pausa para um cigarro novo, fico mentalmente me chamando de idiota por estar fazendo isso, pensando dentro de mim: por que estou falando tanta coisa só porque a pessoa pareceu querer ouvir?

Aí eu saio de cena e volto para o limbo entre grupos, com a imagem mental de eu me dando tapas na cara. Isso faz com que eu questione toda a minha presença física naquele lugar: a roupa que estou vestindo, o tanto que bebi, o quanto fumei, que horas são, que horas seria apropriado ir embora sem parecer rude — ao mesmo tempo em que sei que ninguém vai perceber a hora que eu sair. Mas, mesmo assim, fico.

Fico nesse limbo mental e físico de não pertencer nem a mim mesmo. Jogando tudo de um lado para o outro, como se estivesse numa brincadeira de pular corda, esperando o momento para entrar, pular e me divertir. Sempre hesitando. Não porque não sei a hora de entrar, nem porque não sei pular — mas porque fico projetando a queda, as risadas, o julgamento. E me vejo estatelado no chão igual um saco de bosta, tendo que rir da própria desgraça pública.

Enquanto isso, continuo bebendo uma cerveja atrás da outra e fumando um cigarro atrás do outro. Sempre compro dois maços quando vou para algum lugar assim — já que o álcool me faz querer fumar muito mais. Além disso, tem o fato de beber para parecer mais social, ou para criar coragem de colocar todos os pensamentos de lado e simplesmente aceitar ser ridículo.

O foda é que eu não me acho melhor que ninguém. Na verdade, todos ali naquele ambiente são mais legais que eu, são mais sociais, se vestem melhor para a ocasião, têm os melhores assuntos, o sorriso mais bonito, os melhores cortes de cabelo. E, mesmo achando tudo isso, eu insisto em ir. Quase como um sadomasoquista — não porque gosto das pessoas ou dos ambientes, mas porque preciso sair da minha própria caverna, onde mal escuto minha própria voz, exceto durante a jornada de trabalho.

E ali, eu paguei para entrar — ou recebi de graça o convite para a confraternização. Então, que filho da puta sou eu, que não me divirto? Que não tenho esse dever moral de gostar? Quem eu penso que sou?

No final, eu vomito na mesma privada, sozinho, em casa. A mesma privada que vou ter que limpar amanhã pela manhã, já que, de tanto beber, não consegui acertá-la em tempo.

Música: Hogjaw – Swamp

segunda-feira, 21 de julho de 2025

Líquido não newtoniano

Eu me sinto denso em meus próprios pensamentos, como se vivesse nesses embates existenciais aos quais me reconheço, mas sobre os quais tenho pouco ou nenhum controle. É como se eu estivesse de frente com um líquido não newtoniano: se dou um soco de raiva, bato em um muro meio esquisito de verdades e regras que não consigo ultrapassar; mas, se fico em cima dele sem fazer nada, afundo e corro o risco de me afogar nessa dualidade horrível.

Ao mesmo tempo, me sinto em paz com isso. Porque sei que, enquanto ando em volta e vejo esse líquido aumentar de volume conforme a minha idade avança — já que as regras de um corpo velho vão colocando cada vez mais limitações físicas e mentais sobre o que sou — percebo que eu não sou só aquele líquido, mas também o cara que dá o soco nele, e o que fica parado em pé ali. Todos ao mesmo tempo.

Chega a ser uma viagem fodida pensar nisso. Até eu me pego surpreso com o que isso quer dizer, afinal, não sou tão inteligente assim pra ficar fazendo esse tipo de constatação filosófica. Eu não li Platão, não gosto do Pondé, acho o Cortella piegas e o Karnal chato. Isso me coloca numa ralé intelectual — daqueles que são censurados quando pensam, mesmo quando pensam certo. E talvez essa minha pirraça seja a essência de tudo.

O pensamento que estou tendo agora, nesse momento, talvez seja o mais abstrato que já tive na vida — ou talvez seja o mais lúcido. Não sei. Mas o que eu realmente quero dizer é que sei que a vida é uma merda por essência. Afinal, nascemos em eventos aleatórios que alguém pode até chamar de milagre, mas é tão aleatório que, se você não acreditar em nada, você enlouquece. Talvez algumas pessoas. Não todas.

Ser maluco é apenas uma visão oposta a ser são: é ser esse líquido não newtoniano que não é líquido, nem sólido, nem normal, nem comum — mas que existe. E serve como experiência legal pra ensinar na escola ou pra algum youtuber usar como conteúdo.

Não adianta. Por mais que as pessoas ignorem, eu existo. Nesse momento. Aqui. Fisicamente, mentalmente. E não há como qualquer um me dizer que eu não sou ninguém. Afinal, eu sou eu. Não preciso ser mais que isso. Os rótulos que colocam durante as fases da vida são apenas checkpoints para poder, de alguma forma, te encaixar num senso comum de existência — onde a destruição é coletiva e a culpa, individual.

Esse pensamento, no final das contas, talvez seja a coisa mais vergonhosa que eu já fiz até hoje. E eu escrever exatamente como sinto é, sim, de uma arrogância absurda — já que parece que penso demais, e que me gabo por isso.


Música: The pretender - Foo Fighters

domingo, 20 de julho de 2025

Com que roupa eu vou?

Nunca fui um cara que chama a atenção quando vai para os lugares. Sabe, aquele que se veste bem, aquele cara bonito, que faz as pessoas olharem com curiosidade? Não. Eu sempre fui o mais comum possível: calça jeans, tênis e alguma camiseta de banda.

Quando deixei de ser vestido pela minha mãe — que fazia questão de me colocar como aquele “menino bonitinho, bem cuidado, nossa, que criança linda” —, o que, na minha visão, era chato demais, comecei a me vestir de maneira simples. Não por uma questão estilística, mas por pura preguiça mental de ter que ficar mudando de roupa para cada ocasião. Isso era engraçado porque, quando eu era criança, eu odiava calça jeans. Achava incômoda. E, como sempre fui magrelo, tinha a impressão de que eu ficava horrível com elas.

Porém, com uma certa maturidade, vi que as calças não se limitavam aos modelos que a minha mãe queria que eu usasse. E aí veio a liberdade de usar calças baratas, mas que me deixavam confortável. O que era foda por um lado, já que meu irmão era o completo oposto de mim. Quinze anos mais velho, ganhava bem, e sempre estava com roupa de marca, bom sapato e um bom perfume — o que criava basicamente dois extremos: ele sendo o filhinho da mamãe, que mesmo adulto se vestia para agradar a todos, e eu, que na minha inutilidade e identidade, me vestia de forma simples, sendo basicamente o mesmo em todos os lugares.

Nunca levei a roupa como identidade — pelo menos não como uma fantasia social. Sempre me vesti da maneira que me sentisse confortável. O mesmo vale para cabelo e barba: sou do tipo que deixa o cabelo crescer durante anos e, do nada, raspa tudo.

Claro que esse tipo de postura nunca é muito aceita. Fora de casa, você vira o fantasma — a embalagem de alguém não interessante, que não merece ser atendido em uma loja, que não tem o olhar correspondido em uma balada, que na escola está à margem. Porém, dentro de casa, cada parte do meu visual sem intenção era julgado. Por muitas vezes, minhas camisetas de banda sumiram, porque “não eram músicas de Deus”. Ou minha calça rasgada era motivo de censura: “Como você ousa usar uma roupa desgastada, sendo que tem tudo o que quer?”

Sempre segui vendo essas coisas calado. O máximo que eu fazia era comprar outra camiseta, rasgar outra calça ou usar um tênis fodido no lugar de um novo. E, por causa da minha fobia social, esse limbo de não ser interessante me protegia de interações não solicitadas. Cresci assim: nunca quis ser protagonista de situação nenhuma. Quando falavam comigo, eu respondia — como um NPC de videogame.

Hoje, já sei que a roupa é uma forma de expressão, de personalização, e também uma forma de opressão e despersonalização (vide os uniformes). Fatalmente, tudo que você veste — por escolha ou falta dela — é, para o contexto geral, uma embalagem de como o mundo te vê. Ou, ao menos, julga.

Depois de velho, percebi que nada do que eu visto representa de fato o que penso ou sinto. São apenas maneiras de vestir uma armadura confortável para encarar o absurdo de, mesmo querendo ser nada, acabar sendo um monte de coisas — não porque você pensou sobre isso, mas porque pensaram por você.

Então, já que eu vou ser embalado de qualquer forma, que se foda o que eu visto. Estando confortável, já era.

Música: Freak – Silverchair

sábado, 19 de julho de 2025

Eu não sou um personagem bom

É como se eu fosse uma paródia de um personagem ruim de algum livro esquecido, que foi lido por meia dúzia de pessoas. Como se eu visse a minha vida de dentro e de fora, em um roteiro mal escrito.

Uma construção completamente sem pé nem cabeça, em um mundo absurdo criado pela cabeça de alguém aleatório, que mistura tantas referências que não se refere a coisa nenhuma.


E, nesse mundo, eu fico quieto a maior parte do tempo, onde não tem fala — só monólogos intermináveis escritos em páginas e mais páginas que deixam quem lê com a pergunta: "Sobre o que esse filho da puta tá falando?"


Entendo que as coisas são complexas, e eu sou complexo. Mas vejo tudo isso de uma forma muito simples, muito tranquila. Eu nunca falo do palco do ódio — da raiva, sim, do ódio, não.

Até porque não há como eu odiar a eterna derrota de não me sentir parte, de não me sentir algo ou alguém. Talvez, quando fosse mais jovem, mais adolescente, eu tivesse ódio.

Mas hoje, vendo as pessoas mais novas e analisando seus comportamentos, eu penso, na verdade, em quanto eu era burro, inocente — em acreditar que, na minha vitalidade de querer, o poder estava nas minhas mãos e eu poderia fazer da minha vida o que eu quisesse.


Nesse sentido, eu vejo que, quando mais novo, o ódio interno nunca foi combustível pra espernear como uma criança, ou pra procurar um sentido a qualquer custo pro caos que é parte de tudo que me cerca.


O chato, o cara de canto, o que não tinha a vibe do rolê, mas que, ao mesmo tempo, as pessoas achavam legal o suficiente porque falava sobre quase tudo com um conhecimento de causa que gerava um certo tipo de espanto — quando, na verdade, era só um teatro meu pra não ser totalmente engolido pela minha lucidez patológica que faz eu me considerar o mais burro dos seres humanos.


Sim, burro. Porque eu nunca me achei mais inteligente que a maioria, porque eu sempre via os sorrisos, as relações das pessoas, e me perguntava: quando vai ser a minha vez?

Quando eu iria me sentir assim? Quando eu iria simplesmente parar de mapear toda e qualquer coisa que acontece ao meu redor?

Parar de ficar como um robô, como uma entidade ali — a qual não julga ninguém, mas que pensa na hora que não é pra pensar, não se diverte na hora que é pra se divertir, e não acha graça em algo que todos deram risada.


Geralmente, meus relacionamentos, sejam eles quais forem, não são marcados pela presença constante, pelo afeto performático — mas sim pela ausência, pela crueza que muitas vezes as pessoas não entendiam e não entendem até hoje.

Fica parecendo sempre que eu sou o cara que sabe demais das coisas, que em algum assunto aleatório eu tenho algo pra falar, mas fico quieto de um lugar de arrogância —

quando, na verdade, é o silêncio de quem já viu aquele assunto sendo tratado milhares de vezes e todas iguais, mudando apenas o personagem que fala sobre aquilo.

Mas o pensamento, a apresentação e a conclusão do que está sendo dito... é padrão. É igual.


É um sentimento de autoexclusão, de se colocar fora de tudo porque simplesmente não consegue se ver minimamente dentro de nada.

Então fica nesse teatro: trabalho duro, responsabilidades da vida — quando, na verdade, queria mesmo era correr pelado na rua, gritando, xingando todo mundo e pedindo pra ser dopado pra que a cabeça pare de escrever, de pensar, de sentir.


As coisas que mais me deixam irritado são as pessoas que tentam colocar tudo em caixinhas:

"Ah, mas você é bipolar, é border, é isso, é aquilo..."

Porque ouviram um podcast falando sobre sentimentos e, como médicos formados pelo ChatGPT, te dão um diagnóstico —

quando, na verdade, não conseguem olhar a complexidade de uma pessoa como simplesmente complexidade.


Não tem que ser um conjunto de fatores esses, que somados são iguais a isso — uma equação simples que te coloca num balaio onde há mais um monte de gente que não faz a mínima ideia do porquê está ali.

E outras que acreditaram que seus sentimentos e formas de pensar formaram padrões que fazem com que tudo tenha sentido.


Tudo isso em um personagem que ninguém faz real questão de ler — só quando você paga por 50 minutos, que nunca são suficientes pra você dizer quem realmente é.

Até porque você não sabe.

A pessoa que te ouve também não sabe quem você é.

E, mais ainda: ela também não sabe quem ela é.


Música: The man who sold the world - Nirvana

sexta-feira, 18 de julho de 2025

Eu não sei nadar

Existem decisões que, às vezes, já tomei que foram definitivas, romperam com realidades, com a vida cotidiana, mas que, mesmo anos depois de eu ter me afastado — mesmo sabendo que o que viria depois para a outra parte não seria minha culpa — eu ainda sinto responsabilidade sobre o que acontece, sobre as merdas de algumas vidas de pessoas que já ficaram próximas de mim, o que me faz pensar: como eu posso ajudar? O que eu posso fazer para tirar essa sensação de ser responsável, essa culpa disfarçada de senso de responsabilidade?

Tem coisas do passado que é foda deixar no passado, deixar pra lá, pensar que isso não me afeta a ponto de, inconscientemente, eu sentir o impulso de tentar ajudar ou aliviar algo que não tem relação nenhuma comigo.

Ainda sinto aquela culpa que já senti antes, do tipo: ir ao mercado e pensar “vou comprar tudo que as pessoas precisam e gostam”; o fato de eu querer um saco de salgadinho deixo pra depois, qualquer hora eu compro, o que fatalmente vira uma procrastinação da própria vontade, para me sentir feliz em ter colocado não só a necessidade, mas o luxo do outro acima do próprio viver de forma básica, respeitando uma vontade ou outra que eu mesmo tinha para mim.

É como se eu vivesse com culpas desde moleque, desde que me conheço por gente, aquela coisa de não querer dar trabalho para ninguém, então não preciso pedir, nem falar para alguém que desejo alguma coisa, mesmo que essa coisa seja algo absurdamente pequeno.

Sei lá, parece que, muitas vezes, vou suprimindo minhas vontades e sentimentos para ser visto como um humano funcional, que é absolutamente mais importante do que ser só humano, já que um humano real e sem parecer funcional aos olhos da sociedade é alguém descartável. Mas enquanto todas as minhas merdas gerarem consumo de alguma forma, maravilha: pague a terapia, pague o psiquiatra, pague o remédio, não para realmente se livrar de culpas ou desse falso senso de responsabilidade, mas para você poder trabalhar minimamente bem, para que possa pagar as contas no fim do mês, em que a maior parte das contas consiste em pagar a comida, a moradia, o direito de água e luz, e o resto vai nas despesas médicas.

E enquanto eu coloco meus vícios em um lugar seguro para poder, mesmo que seja me matando aos poucos, pensar que posso me dar ao luxo de fumar um cigarro com uma marca minimamente decente, eu vejo todo o resto ser consumido nesse senso de responsabilidade maluco, que qualquer um que entenda esse pensamento sabe que é uma culpa gigantesca, grotesca.

Essas coisas vêm e vão, principalmente quando você recebe uma mensagem de alguém desabafando com você e você se sente parte daquilo em um nível onde você se sente responsável por fazer algo para ajudar, mas esquece que está numa merda, em um limbo absurdo, e que não adianta se jogar na água para tentar salvar alguém que está se afogando sem saber nadar, porque aí a possibilidade é que dois corpos desapareçam em vez de um. Esse desespero, essa urgência de ver alguém se fodendo e acabar caindo ali para se foder junto te impede de ver que do lado tinha uma boia.

No final, eu não faço a mínima ideia do que fazer e de como fazer, sigo sem saber, procurando alguma boia para salvar quem eu me importo, mas percebendo que não estou em terra firme, mas no barro que separa a água da terra firme.

Eu não sei nadar.

Música — Born Broke — Hellacopters

quinta-feira, 17 de julho de 2025

Quarto da bagunça

Aquele quarto da bagunça. Aquele lugar onde estão um monte de coisas aleatórias, coisas antigas e coisas novas sem utilidade prática no dia a dia. O lugar onde você entra às vezes para procurar alguma coisa que lembra que tinha, mas não sabe exatamente onde está.

Eu sou esse quarto. Não sou uma casa organizada, onde tudo tem um propósito, onde tudo está milimetricamente colocado para o uso ou para decorar a vida. Não. Eu sou a bagunça do tempo. Eu sou o amontoado de coisas que fazem com que esse quarto da bagunça mais me represente do que a casa limpa.

Algumas caixas têm baratas, pois não são abertas há muito tempo — eu sei. Mas é isso que deixa tudo mais interessante, pois eu não lembro o que vou encontrar a cada dia que estou ali. É como se, no meio da rotina da casa arrumada, eu vasculhasse algo nas caixas velhas, já que todas elas me remetem a alguma coisa que eu tenho guardado comigo.

O fedor de mofo misturado com o meu Lucky Strike é o cheiro de casa. É o cheiro da vida. Porque, apesar da bagunça do quarto, eu sei cada caixa que está ali e o que tem dentro de cada uma. Como alguns podem tentar dizer: uma certa lucidez. Consciência de que tudo aquilo que eu não joguei fora não foi por falta de vontade, não foi por falta de coragem, mas por saber que, em algum momento, aquilo seria útil. Aquilo seria um mapa para entender onde eu estou agora.

Os sonhos antigos estão ali, não para mostrar que são possíveis, mas para mostrar como eu me enganei em achar que eles seriam alcançáveis. Que eles seriam linhas de chegada, onde eu — com os braços levantados, todo suado — seria aplaudido pela multidão como um maratonista que venceu a prova.

Algumas das caixas contêm enfeites que eu uso para decorar a casa no Natal — mas não sem antes ter que tirar todos os nós dos cabos das lâmpadas, que, quando ligadas, vemos que uma parte já não acende mais.

Sigo sendo esse quarto, onde além de eu mesmo ficar vendo as caixas, as pessoas vêm para encontrar aquela época em que eu falei isso, que eu fui aquilo, e colocar como decoração na própria fachada. Como quem diz: "Olha que cara filho da puta, olha que incoerente, olha quem é verdadeiramente esse cara" — sendo que só o fato de eu ser um quarto bagunçado já é uma incoerência crônica.

Nos espaços entre uma velharia e outra, eu vivo o hoje, o agora. O amanhã eu não sei — já que, amanhã, as caixas velhas do quarto não estarão no mesmo lugar que hoje pela manhã.

A repetição impede que o quarto fique inabitável. O que é repetido na rotina é realmente descartável. Até porque eu vivo mais fora do quartinho da bagunça do que dentro. Talvez por isso eu não tenha muito tempo para organizar e jogar fora o que não interessa mais.

Música: The Passenger – Iggy Pop

quarta-feira, 16 de julho de 2025

Posso sentir?

Interessante como escrever sobre o que sinto, como eu sinto, e dizer que esse é o meu sentimento agride quem espera uma postura universal sobre os sentimentos.

“Ah, mas se alguém morreu, é esperado que chore.”
“Se você está triste, é esperado que demonstre gratidão por quem tenta te oferecer métodos para diminuir a sua tristeza.”

É como se, ao expor meu íntimo, ao dizer sem meias-palavras que dor é dor, alegria é alegria — ou seja lá qual for o sentimento — eu apagasse meu espaço pessoal e desse passe livre para todos entrarem, como turistas emocionais, só para ver o sangue escorrendo do meu corpo judiado pela minha própria autossabotagem.

Em outras ocasiões, pode parecer que estou escrevendo ou falando sobre um terceiro — como se eu apontasse o dedo para alguém específico, dizendo que essa pessoa é responsável pelo que eu sinto, pelo que deixei de sentir, e que a culpasse por não ser aquele alguém extraordinário que mudaria todo meu objetivo de vida, ressignificasse toda a minha existência.

Claro que há feridas abertas por outras pessoas — as quais eu não exponho por terem feridas abertas também. E seria uma covardia absoluta eu simplesmente jogar o sangue delas no papel e determinar a sentença, dizendo que estão condenadas a me destruir todo dia.

Esse manual de como sentir, como expor, com que palavras, de como ser grande dentro de pequenos sentimentos, de como tirar um final feliz de tudo de ruim que te acontece — é o motivo pelo qual eu escrevo sem terminar praticamente nenhum texto.

E também não é por não falar de felicidade que eu não me sinta feliz em alguns momentos. Seria incoerente com a minha condição de animal racional e sentimental deixar de lado as alegrias. Eu só não as escrevo porque elas já estão documentadas em livros práticos e teóricos — de filosofias a romances baratos, de esquetes no YouTube a comédias românticas.

O jeito que cada um sente, na sua individualidade, é o que realmente faz com que sejamos quem somos — não o sentimento coletivo, não as páginas de um livro de autoajuda, nem uma palestra motivacional.

O pessoal, o íntimo, é o que faz com que pessoas se identifiquem com muito mais profundidade. Talvez com menos empatia, já que o espelho reflete, mas o espelho quebrado distorce a imagem — e isso agride quem escolhe polir o feio como bonito. É pesado pensar que somos os carrascos da própria história.

Mas, como antes dito, há situações, há questões que são sim culpa de outras pessoas. Não podemos deixar as culpas individuais apagarem ou redimirem os verdadeiros culpados — os que, por sadismo ou por estarem destruídos, impõem sofrimento real, e fazem questão de arrastar com eles tudo ao redor.

Às vezes, cruzamos com pessoas realmente ruins no nosso caminho — e essas sim merecem ser responsabilizadas pelo sofrimento imposto.

Mas o que eu estou falando não é disso.

É sobre o terno e gravata que faz com que você tenha que mostrar o que sente de determinada maneira. Esse padrão que faz com que programas de TV, algoritmos e fórmulas prontas brinquem com as emoções e sentimentos das pessoas.

Minha solidão, tristeza, apatia, autossabotagem, pequenez — não devem vestir um uniforme onde todos se reconhecem. Devem ser expostas de maneira absolutamente pessoal, para dizer a todos que se assemelham ao que eu sinto que não estão sozinhos.

Música: Love Hurts – Nazareth

terça-feira, 15 de julho de 2025

Cadáver

Fim de semana. Dia de escolher uma roupa legal, finalmente deixar o uniforme de lado e poder se vestir como quiser — sem travas, sem perigo de ser julgado. Um momento de vida real.

Ele então acorda, escova os dentes empolgado, toma um banho para tirar a nhaca, lava o cabelo. É isso: dia de ser você mesmo. Após se enxugar, coloca a toalha no cesto de roupa suja — fim de semana dá pra colocar ela na máquina, estender no varal e deixar pronta pra semana seguinte. O tempo parece estar bom, o que é um convite a sair, andar, e mostrar para o mundo que está ali.

Após se secar, pega uma cueca limpa em uma das gavetas, veste e abre o guarda-roupa. E, ao abrir a porta, vê ali um cadáver. Meio mumificado. Começa a se perguntar quem é aquele morto ali. O que está fazendo aquele corpo ali? Engraçado que ele parece ter a mesma altura… Fisicamente não dá pra saber, já que está meio ressecado. Mas… como ninguém percebeu o cheiro disso?

Chega perto e tenta sentir o odor da morte — e nada. O corpo não fede. Está ali, colocado ao lado dos cabides com as roupas. Mas o que o deixou espantado é que o cadáver estava vestindo exatamente o que ele tinha planejado enquanto tomava banho. Estava com a mesma calça. A mesma camiseta. Sentiu um leve frio na espinha. “Porra, que merda é essa?”

Ficou ali, encarando com um misto de nojo, espanto e curiosidade. Como essa merda não tá fedendo? Quem é esse cara? Será que eu matei alguém? Mas… eu não lembro?

E, em meio a essas perguntas, como num movimento involuntário, pegou o cadáver — que era incrivelmente leve —, colocou de lado e começou a procurar a roupa que queria vestir. E não encontrou. Era a roupa que estava no cadáver mesmo.

E, só de cuecas, ficou ali olhando aquele corpo sem vida vestindo a roupa que ele queria usar. Pensou que poderia simplesmente pegar a roupa, já que o cadáver não estava fedendo. E já que estava ali naquele guarda-roupa há tanto tempo… se fosse pra pegar alguma doença, já teria tido.

Despiu o cadáver e colocou a roupa. Com um misto de nojo e alívio, porque conseguiu vestir o que queria. Engraçado que, em nenhum momento, sentiu medo. Em nenhum momento sentiu aquela insegurança de ter feito algo horrível e escondido. Não. Ele simplesmente pegou o cadáver, depois de tirar sua roupa, e colocou de volta no guarda-roupa — como se nada tivesse acontecido.

Foi então que, já vestido, calçado o tênis, ao fechar a porta do móvel, olhou mais de perto o braço e as mãos do cadáver. Ele estava ali com o dedo do meio levantado, como se estivesse mandando se foder. Depois de ver o dedo do meio, olhou para a face do cadáver, deu uma risada, mandou um dedo do meio de volta para o morto, fechou a porta e decidiu sair.

Pegou o maço de cigarros, as chaves da casa, calçou o tênis e foi para a cozinha tomar os remédios da manhã. Passou em frente ao espelho grande que tem na sala, verificou se estava bem vestido e, como numa visão, o reflexo no espelho mandou outro dedo do meio pra ele.

Riu novamente, abriu a porta e, quando foi sair, se lembrou que esqueceu de passar desodorante. Ele não queria ficar fedendo como um cadáver.

Depois saiu. 


Música: A song for the dead - Queens of the Stone Age

segunda-feira, 14 de julho de 2025

Happy hour

Às vezes o melhor é ir para casa, abrir uma lata de cerveja e torcer pra parar de pensar.

Quem sabe ir a um bar qualquer para ficar ali como coadjuvante de filme de zumbi, onde você é o último humano antes do resto da horda ser adicionada por IA: o zumbi nº 5, aquele que a maquiagem não tem que ser perfeita, o andar não precisa ser cinematográfico — simplesmente aquele morto-vivo que, de tão sem maquiagem, parece natural.

Às vezes é hora de fechar a porta da literatura rebuscada, das palavras bonitas, do teatro cotidiano, e beber até embrulhar o estômago, depois que se dá conta de que não se alimentou o dia todo.
Um momento onde a sombra é vista somente por você mesmo; as falhas viram um gosto azedo depois de tomar a cerveja mais barata do lugar, já que você se deu ao luxo de estourar o orçamento do mês vivendo um pouco.

Onde não precisa falar mais do que “me dá mais uma” para o dono do bar, enquanto observa o happy hour das pessoas, em que o cheiro de perfume barato está nas roupas de marcas famosas falsificadas, os cabelos cortados, em sua maioria, iguais, a barba como manda o figurino — entre as mulheres que estão ali curtindo o momento de diversão, exalando o perfume sensacional que se mistura com a nicotina do cigarro que você está fumando.

Apesar de tudo isso misturado causar uma sensação de vida e nojo ao mesmo tempo — já que cheiros, sons e visão se misturam nessa massa mal digerida de cotidiano.
O bom é que, apesar de algumas pessoas acharem que esse é o momento de se mostrar, é o momento onde eu me escondo: aquela estrela que compõe o céu, mas que ninguém sabe o nome, e não faz parte de nenhuma constelação.

O banheiro insalubre que destoa do ambiente social, onde os perfeitos mijam fora da bacia, outros extraordinários cheiram suas carreiras de pó, e os homens de verdade mandam mensagens para as namoradas traídas falando que ficaram com dor de cabeça e por isso não saíram de casa.

O sujeito que aparece de lado, com um copo já no final, nas selfies dos que se divertem; o que mentalmente manda todo mundo à merda enquanto geral é só sorrisos e risadas altas.

E assim a noite avança, com alguns tirando a sorte grande de levar alguém para um motel; outros, menos afortunados, indo sozinhos para casa; outros que estão na própria espiral de autodestruição, e por isso vão para outro lugar onde tem mais festa — para acordarem amanhã com ressaca alcoólica e moral, além de alguns casos da química.

E eu, em meio a tudo isso, só abri a porta da realidade paralela, da quebra de rotina, da visão turva — não pelo fato de ficar o dia todo no computador, mas sim por embriaguez e enxaqueca, por causa das luzes neon da pista de dança.

Não sei quanto eu bebi, mas no final a conta saiu cara, me fodi, mas pelo menos tenho o recurso do Uber para ir pra casa — Uber esse que eu espero enquanto fumo meu cigarro.

E assim a noite acaba, da mesma maneira que começou: com uma vontade imensa de ir embora porque estou me sentindo mal.

Música: Black Hole Sun — Soundgarden

domingo, 13 de julho de 2025

O isqueiro

Quando ele ouve o som das sirenes da polícia passando, instintivamente procura algum lugar para se esconder, ao mesmo tempo que vê se tem pedras por perto para jogar na viatura. E não, ele não é procurado nem um criminoso — é apenas alguém que vê na polícia o braço armado da repressão.

Interessante que ele começou a escrever de forma compulsiva após um coração partido — e não por amor romântico —, mas a vida quebrou o coração dele, como se, em cada pequena falha, alguém arrancasse um pedaço pequeno que, na vida adulta, já era pequeno demais para ele consertar. Como se cada passo, cada relação, seja ela qual for, fosse um convite para a destruição — a qual ele escreve.

Todo esse movimento involuntário aparece enquanto rola o feed infinito de algum site de notícias, onde os temas sérios se misturam com a notícia da famosa que tirou uma selfie de biquíni em Los Angeles. O tipo de coisa comum: todo dia a mesma notícia séria, e um monte de novidades descartáveis.

Era tarde da noite, estava caminhando porque já estava cansado de ficar em casa, naquela prisão fedendo a urina, uísque e cigarro. Precisava de algo mais, precisava ver gente. Porém, a cidade — que gosta de querer parecer maior do que é — tem todo o seu movimento noturno concentrado na avenida principal, onde as pessoas desfilam com seus carros modificados, barulhentos, nessa competição por atenção. A polícia havia passado por ele provavelmente perseguindo algum infeliz de carro ou de moto — nada fora do comum.

Colocou o celular no bolso: não havia nada de interessante, assim como todo e qualquer dia. Pegou o maço de cigarros, que estava completamente amassado porque, no local onde tinha comprado, não havia o box, somente o maço mole — que, no bolso de um desgraçado, quebraria alguns cigarros quando chegasse perto do fim. Colocou um cigarro torto entre os lábios, pensando que precisaria comprar mais — talvez, na conveniência do posto mais à frente, poderia ter algum.

Em meio a esse pensamento, ficou batendo as mãos no bolso para ver se sentia o isqueiro. Xingou mentalmente a si mesmo por perceber que tinha esquecido ou perdido, porque os bolsos estavam furados. Então enfiou a mão no bolso traseiro da calça jeans surrada e desbotada para sentir se ainda estavam ali seu documento e seu cartão de débito — não andava com carteira porque não tinha nada o que colocar nela. Então andava somente com uma carteira de habilitação vencida e o cartão de débito (não tinha nome nem vontade para ter um cartão de crédito).

A carteira estava vencida fazia uns anos, não tinha mais vontade de voltar a dirigir, porque não via mais sentido, e também porque não queria manter um carro: demandava dinheiro e, claro, não podemos esquecer que estava começando a virar um ritual dirigir bêbado depois de uma noite em algum lugar aleatório onde se tem bebida para uma alma desgraçada — que é basicamente qualquer lugar no Brasil.

Ainda com o cigarro torto e apagado na boca, foi passando entre as bombas de combustível. Alguns carros, com dúzias de jovens dentro, ouviam música alto, tentando ver quem tinha o som mais potente — todos sorrisos em meio às fumaças de vape, já que ninguém queria voltar pra casa fedendo a nicotina. Seu olhar cínico era destoante do clima dos carros, mas os frentistas compartilhavam do olhar sem esperança: não davam boa noite, só chegavam perto da janela do motorista, esperavam o vidro baixar e a pessoa dizer o quanto queria de combustível no tanque.

O cheiro de gasolina era até agradável e o fazia pensar: como seria se tudo aquilo explodisse? Levaria só aquele pedaço? O quarteirão? Morreria muita gente? Perguntas essas que foram interrompidas por um jovem meio bêbado pedindo licença ao mesmo tempo que o empurrava para o lado — estava correndo para o banheiro. Vontade de mijar? Estava passando mal? Bom, não importa.

Abriu a porta da conveniência e olhou o ambiente perfeitamente bem iluminado: os produtos superfaturados, um pacote de biscoito custando três vezes o preço do que num mercado? Nada anormal. Foi então se dirigindo ao caixa quando viu um cartaz com uma promoção de uma marca de cervejas — estava até que a um bom preço. Pegou então uma lata — não ia pegar mais que isso, pois estava se dirigindo a um bar onde tomaria algo mais forte — e voltou seu caminho ao caixa, olhando então a fila que consistia de duas pessoas: um moleque com várias latas de cerveja e uma barra de chocolate, e um senhor de calça social, camisa branca meio transparente, de óculos e com um saco com pães.

Quem compraria pão às onze da noite, numa conveniência, em plena sexta-feira?

Entrou na fila e ficou ali, balançando as pernas, enquanto via a atendente falando as mesmas frases de forma robótica, não vendo quem estava na frente dela — só passando o leitor de código de barras, falando o valor total da compra e perguntando se era no crédito ou no débito. Interessante que aquela jovem poderia ser mais uma que estava ali como passageira nos carros — certamente tem a mesma idade das pessoas ali fora —, mas não o mesmo sorriso, não a mesma inconsequência ou despreocupação. Não. Ela estava ali até sabe-se lá que horas ia seu expediente, e sabe-se lá que horas havia entrado — talvez por isso não fique tão concentrada nos rostos dos clientes.

Ao chegar a sua vez, pede o cigarro (percebe que, ainda bem, tem a versão box — ufa, não vai perder os cigarros) e um isqueiro, dos pequenos, pois ainda tinha esperança de ter esquecido em casa, então comprar um grande seria gastar dinheiro à toa. O bip do leitor passando cada produto, ele tirando o cartão do bolso — não disse uma palavra, só mostrou o cartão com a pergunta a seguir:

— Crédito ou débito?

Com a resposta seca:

— Débito.

Mas, como a moça não falou mais nada após isso, ele ficou pensando se não tinha falado errado sem querer ou se tinha mandado um "Crebito". Pensamento que foi cortado, após alguns segundos, pela atendente, que disse que poderia inserir ou aproximar o cartão na máquina.

"Solicitação aprovada" — a mensagem que todos gostam de ver: "tenho dinheiro suficiente pra isso". Pegou o maço, colocou no bolso, a cerveja estava em uma sacolinha absurdamente frágil, com um plástico branco quase transparente, o que denunciava a compra e a marca do que comprou. Guardou o cartão, e o isqueiro caiu dentro do bolso — mas já pegou em seguida.

Saiu da loja e, em um movimento quase que involuntário, pegou o cigarro torto novamente, colocou entre os lábios e pensou que nem a atendente nem ele tinham testado o isqueiro antes de concluir a compra. Mas, por sorte, esse estava funcionando. Após a primeira tragada, longa, respirando fundo, percebeu que ainda estava dentro do posto. E, com um sorriso, pensando "como sou burro, poderia explodir essa merda toda", apressou o passo para sair dali, abriu a lata de cerveja, deu um gole e continuou seu caminho.

A cerveja estava meio quente, meio choca, mas era a mais barata que havia no posto — então provavelmente era uma que estava há tempos no estoque.

Continuou seu caminho. O celular vibra: uma notificação. Coloca o cigarro na boca, muda a cerveja de mão para conseguir pegar o celular e, quando abre a notificação, uma promoção da operadora oferecendo um pacote maior de internet. Bloqueia o celular e coloca novamente no bolso.

O caminho continua: os carros, as músicas, e ele vai olhando esporadicamente as pessoas, mas com uma distância quilométrica — não fazia parte daquilo. Algum tempo poderia ter sido, mas não é e nunca foi. E, nesse pensamento, se lembrou que estava indo para o bar. E, quando finalmente parou de caminhar, viu que estava em frente de casa, com a lata só com o final da cerveja choca.

Abriu o portão e seguiu pela garagem vazia e empoeirada até a porta da sala. E, em frente à porta, viu o isqueiro no chão — realmente havia perdido. A decisão de comprar um dos pequenos do posto foi certa. Aliviado, pegou o isqueiro antigo, que era dos grandes, pegou o último cigarro torto, foi acender e... nada. Só faísca. O gás tinha acabado. Confirmou ao colocar o isqueiro contra a luz.

E ficou puto porque não comprou do maior na conveniência.

Entrou em casa, pegou o celular, abriu um bloco de notas e escreveu um conto.

Ele odiou.

sábado, 12 de julho de 2025

Depressão

Incrível como a consciência pode ser massacrante e o quanto a lucidez pode ser uma briga de facas consigo mesmo: uma faca sem cabo que corta quem sofre o ataque, mas também quem ataca. Ninguém sai ileso dessa história.

Mas por que estou falando isso?
Simples: porque eu me vejo cada vez tendo menos contato com pessoas, me afundando em uma alienação, em um isolamento voluntário, onde parece que estou sendo tragado para dentro desse buraco negro.

Por exemplo, hoje eu coloquei uma blusa não porque estava com frio, mas porque eu preciso de algum tipo de calor, uma sensação de que você está aquecido, que você não está gelado igual a um cadáver social, mas, ao mesmo tempo, uma maneira de me proteger do resto do mundo ao meu redor, como se fosse uma armadura.

Sinto que estou regredindo na questão da minha depressão, já que ela vai e volta. Eu já aprendi a identificar, mas não sei o que fazer. Alguns momentos são de ansiedade, outros de melancolia, tristeza pura, bruta, isolamento e falta de vontade, um cansaço mental extremo, onde as funções básicas estão ali para que eu não perca meu emprego, para que ninguém invente de vir me perguntar se estou bem e querer, pela ótica dele, me falar que tudo vai ficar bem, que tudo vai passar.

É um momento, eu sei, ele passa, mas é absurdamente desgastante ficar aqui, nessa pele, nesse corpo, só me entorpecendo com nicotina, pensando que uma noite com alguma coisa aleatória na TV e uma comida gostosa podem me dar alegria. É assim que as pessoas se viciam e se destroem, e eu sou quebrado pra caralho, eu sei, fracassado em muitas partes da vida, aliás, na maior parte delas.

Embora eu esteja tendo cada vez menos contato humano real, só o de fachada, eu ainda consigo escrever sobre o que sinto, então, de alguma forma, eu acho que não estou totalmente fodido, já que, nesse espaço, eu posso jogar todo o caos biológico e mental que não vai explodir. Eu já tentei fazer isso, mas nunca deu certo: uma catarse absoluta, um explodir com propriedade, um extravasar de maneira que tudo isso saia.

Sou daquele tipo que, quando chega a uma festa ou a algum local diferente, procura algum lugar para sentar, porque geralmente estou cansado demais para ficar horas em pé e dizer que isso é diversão. Também não mantenho nada alcoólico em minha casa; eu iria provavelmente acabar com tudo em um dia, não porque não controlo as coisas, mas porque tem dias que eu não quero, mas tem dias que eu beberia tudo que pudesse, até esquecer tudo, até não enxergar nada.

Não estou conseguindo ler nada. Sei lá, me parece algo chato no momento, e olha que eu adoro ler, mas não me forço. A mesma coisa é sobre assistir alguma coisa, um filme, uma série; não tenho mais streaming nenhum assinado e nem tenho vontade. Sei lá, jogar também não me entretém, só faz eu passar horas ali olhando para a tela e fazendo objetivos aleatórios até enjoar e não querer mais jogar.

As únicas conversas mais longas que tenho tido é com meu pai, mas nada profundo, só sobre coisas que praticamente sempre conversamos a vida inteira: sobre alguma banda aleatória, algum esporte, nada com algo mais profundo. Não peço socorro para ele. Com a minha mãe também rola isso, mas até menos, porque eu sei que, se falar que estou escrevendo, falar que estou fazendo algo, ela vai vir com o sermão de que precisa ganhar dinheiro, assim como ela falava quando eu era mais novo, a história de sair de casa com um real e voltar com dois.

Vejo cada pedaço de escala de cinza que vai tomando conta da vida aos poucos, e a minha batalha acaba sendo solitária e cheia de palavras no bloco de notas. Apesar de eu achar que, se está doendo de alguma maneira, é porque eu ainda estou vivo, quer dizer que eu sinto alguma coisa, ainda me sinto inquieto o bastante para ficar olhando com certo desespero para tudo isso e pensar o que eu posso fazer para mudar pelo menos um pouco disso.

Esse meu jeito mais isolado, que se agravou nos últimos tempos, sempre foi um problema, porque eu sempre fui aquele que já foi chamado várias vezes para fazer algo, fui recusando até não ser mais chamado para mais nada, nem para receber um oi. Chato pra caralho.

Sempre mastiguei todo o vidro moído sozinho, sem falar a real para ninguém, mas com ciclos de atividade plena, sociabilidade boa, mas que virava um problema quando eu falava que queria ficar sozinho depois.

No final, fica o meu cigarro, as vontades que o corpo não acompanha e meus desabafos em forma de texto.

Música: Suffocate – Green Day

sexta-feira, 11 de julho de 2025

Ressaca química

Tem momentos em que eu olho ao meu redor e me sinto um fantasma, algo realmente fora do normal. Eu tenho meus problemas, minhas preocupações, meus demônios, e aí fico pensando com quem eu posso falar sobre.
E é foda, porque eu realmente não confio em ninguém pra isso. Parece que as pessoas te perguntam se está tudo bem só por perguntar, não pra querer saber realmente como você está — e aí vira aquele ciclo desastroso de falta de confiança.

Se você fala com a família, vira arma contra você no futuro. Familiares adoram jogar na cara as suas fraquezas, as coisas que você disse num momento em que estava mal.
Se conta pra amigos, você vira fofoca, porque o amigo sempre tem alguém que também é amigo dele, que conta as coisas — e vai aumentando até chegar a um ponto onde, além de saberem quem é você e o que está passando, eles falam coisas a mais, coisas que nem você sabia que tinha de problemas.
E, como essa esponja seca, em momento de fraqueza, você absorve toda a merda dita.

E aí, se você vai fazer terapia — além de isso ser algo estranho — o que você fala vira diagnóstico caro, onde, além de pagar as consultas, vai ter que ir ao psiquiatra, que vai te receitar remédios, e esses remédios vão bater mal. Alguns não vão funcionar, e você vai ter que voltar, e além dos problemas que já tem, vai ter que falar que fica com caganeira e sonolento, mas não menos triste, menos fodido.
Pelo contrário, fica até mais, porque no trabalho parece que você está de porre e, quando está em casa, não sente mais nada.

Eu passei por todos esses processos, estou medicado, faço minha terapia, mas nada disso impede eu de ter vontade de simplesmente não existir, de não tomar mais os remédios, porque parece que não têm efeito, mandar todo mundo se foder e virar realmente um cara que não liga pra nada, e cozinhar meu cérebro com álcool ou alguma droga que faça, por algum momento, eu não saber quem eu sou.

Por mais foda-se que eu possa parecer, eu me importo com muita coisa, mesmo que elas não mereçam importância — e isso não dá pra ser trabalhado em terapia, porque, no final, você vai fazer isso de alguma maneira.
Não há como ser uma pessoa absolutamente lúcida o tempo todo: é saber que você está dentro dessa merda de engrenagem, sentir o peso dela e, ainda assim, girar — mas não sem fazer barulho.

A noite passada foi foda, muito foda. Eu só queria que o dia acabasse logo, pra ver se, na repetição do dia, poderia ter algo diferente, algo que me fizesse me sentir melhor, mais humano, mais eu — e, na verdade, só acordei com uma ressaca química do caralho, por causa dos remédios que eu tomei pra apagar.

Chego aqui e vejo as pessoas interagindo entre si, e eu sento no meu lugar e fico vendo coisas aleatórias enquanto não atendo ninguém, mas sempre ouvindo, de relance, as histórias, e pensando: puta que pariu, por que eu não sou assim? Por que eu não sou tranquilo assim? Ou, pelo menos, por que eu não me sinto parte da humanidade comum?

Não estou nem falando que eu me acho o diferentão, o cara fora da curva. Eu me sinto só fora, e não consigo pensar em como entrar, em como fazer parte, porque, apesar de eu ficar olhando sozinho pra algumas dinâmicas, eu não consigo sentir vontade de participar delas.
A maior parte das coisas não me agrada, e isso me torna um cara chato pra caralho, uma pessoa que não é seletiva nas coisas que faz, mas que já não quer fazer mais.

E assim segue a ressaca: com boca seca, estômago embrulhado e menos cigarros que o comum.

Música: Dumb - Nirvana

quinta-feira, 10 de julho de 2025

Minha melhor versão

Eu gostaria de ser alguém com algum horizonte, algum ideal a ser conseguido, uma meta real a ser conquistada, mas não tenho, ou acho que não tenho. Sinceramente, não sei, até porque eu vivo o hoje demais. Não que eu vá consumir toda a minha vida em um dia, mas não consigo seguir aquela métrica comum de hoje dos sonhos, de “ah, quero ter muito dinheiro, quero ser foda”. Sei lá, pra mim soa meio que ficar correndo atrás do próprio rabo.

Já sei que minha vida não é exemplo para ninguém, e sinceramente nem quero que seja, pois não compensa querer ser algo maior do que já é. Não é uma questão de não melhorar como pessoa, não é isso — é só não ficar correndo atrás de filosofia barata, coisas motivacionais fantásticas, morais das histórias. Vou um cigarro por vez, vivendo de forma dinâmica, tentando me surpreender com o novo dia que começa, apesar dele parecer uma repetição do dia anterior.

Mas você tem que ficar andando pra frente o tempo todo, mesmo que empurrado por uma manada de pessoas que ficam pregando que “eu sou a minha melhor versão, estou atrás da minha melhor versão”, sempre ansiosos com a mensagem “o objeto saiu para entrega”.

Desde muito novo eu comecei a olhar pra vida com um olhar menos colorido. Não que tudo fosse preto e branco, não é isso — é só que ficar buscando sentido em tanta coisa é meio sem sentido. Eu ia para a igreja e ela nunca respondia à minha pergunta, então ia obrigado. As pessoas falavam que viam Deus e que falavam com ele, e eu não ouvia, não conseguia entender, eu era um analfabeto espiritual — e até continuo sendo, ou estou alfabetizado demais para entender tudo isso.

Eu trabalho para receber no fim do mês, para poder dar uma condição legal para o meu filho poder ser quem ele quiser ser, tirar meu sustento para poder, sei lá, fazer uma tatuagem, comer algo diferente numa sexta-feira, poder ter a opção de sair e tomar uma cerveja, mesmo que não faça isso.

Vou vivendo de longas rotinas e pequenos momentos, e isso nem é tão niilista assim, apesar de parecer pra caralho. Mas sei lá, poder sentar, ver o movimento da rua, como movimento da rua — não como uma poesia urbana cheia de significado metafórico, metafísico — é libertador. Você não precisa ficar procurando palavras bonitas para dizer que está com tédio.

A lente que tenho nos meus olhos hoje é mais crua do que quando era criança, talvez por isso não consiga jogar videogame com tanto entusiasmo de quando eu era mais novo. O caminho para casa é só um caminho. Não consigo ficar lendo um livro atrás do outro. Quando não tenho vontade de fazer alguma coisa, não faço. Claro, isso não se faz verdadeiro quando eu venho ao trabalho, mas aqui é meio que um meio de parecer útil, por mais inútil que seja — aquela sensação que todo mundo tem de ser parte, o que faz com que você comece a pirar se fica muitos dias em casa sem fazer muita coisa. Bate aquela culpa, aquela sensação de inadequação, de não merecimento, mas é só você convivendo mais tempo consigo mesmo.

Gosto de fumar um cigarro de cada vez, e quando estou ansioso eu fumo uns a mais.

Música: I Wanna Be Sedated – Ramones

quarta-feira, 9 de julho de 2025

O que eu queria fazer?

Tem horas que eu estou com muitas ideias, vontade de fazer um monte de coisas. É engraçado, porque eu fico pensando: "ah, quando eu sair do trabalho vou fazer isso, aquilo, vai ser foda", e durante a caminhada para casa eu fico tentando ordenar as coisas na cabeça, pensando no que vou fazer primeiro. Porém, é um momento de não entender porra nenhuma do que quero.

Para sair, eu bato o ponto da saída, vejo se o tempo está frio para colocar ou não uma blusa, vejo se está tudo na mochila e então saio. Aí olho para os dois lados da rua para atravessar, pego meu maço de cigarros, acendo um e começo a caminhar. Só nisso tudo que eu planejava fazer assim que saísse já está em meio a um monte de coisas mais imediatas, e aí a fome bate, e você pensa no que vai fazer para jantar, e todos esses pensamentos vão se somando a muitas coisas.

Aí chego em casa, coloco a mochila no sofá, coloco a comida para esquentar, alguma coisa para fazer de acompanhamento ou mistura (sim, eu chamo desse jeito), tiro o tênis, o uniforme, coloco no cesto para lavar, vejo quanto o cesto está cheio, olho as notificações do celular, abro a geladeira: puta que pariu, acabou a Coca-Cola, preciso comprar.

Aí vou cagar, acendo um cigarro enquanto cago, melhor aproveitar para tomar um banho, assim já deixo tudo certo. Estou ali na privada pensando no próximo texto, no que quero fazer depois, e em todas as coisas que queria fazer, mas ainda estou com fome, agora pelado na privada, fumando, indo tomar banho, a comida está lá esquentando, ainda bem que eu programei a panela elétrica — sim, eu comprei uma para não ter problema de queimar a comida. Tudo ok, vou tomar banho. Porra, acabou o sabonete… sorte que ainda tenho um aqui e posso abrir a embalagem correndo para poder tomar meu banho.

Ah, sim, está chegando a hora de fazer tudo que eu quero fazer, que maravilha. Então começo a relaxar e tomar um banho mais demorado, quente, para tirar todo o peso do dia de trabalho e da rotina. Não posso me esquecer de comprar mais sabonete — adicionado à lista de compras junto com a Coca-Cola. Aliás, eu tenho pasta de dente? Desodorante? Melhor comprar por garantia.

É isso, o tempo passa no banho, estou gastando muita água, muita energia, melhor sair. Me enxugo: quanto tempo essa toalha está sendo usada mesmo? Ah, sim, eu lavo toda semana, então ótimo.

Vou pegar a comida que já deve estar pronta… Porra, não tem nenhum refrigerante para acompanhar a janta, mas tudo bem. Vejo que o arroz e o feijão estão quentes, mas eu esqueci de programar a air fryer para fazer a carne. Puta que pariu, que merda… Coloca 5 minutos aí e vamos ver o que tá rolando. Enquanto isso, deixo a panela do arroz fechada, a do feijão também, para não esfriar. Caralho, está acabando a carne — melhor adicionar à lista de compras.

Enquanto espero a carne, vou ligar a TV, sentar na cama e assistir a alguma coisa aleatória no YouTube. Maravilha. Sento na cama e lembro que não tomei o remédio da noite. Levanto, pego um copo de água e engulo o comprimido. É… está acabando, preciso marcar a psiquiatra para renovar a receita. Volto pra cama, procuro algum vídeo, acho um interessante o suficiente para colocar ele para rodar. Propaganda da BTG falando em quanto ela respeita o cliente… pulo o primeiro anúncio, o segundo é de maquininha de cartão para você que é empreendedor e precisa de uma maneira segura de dar parte do que ganha pra quem tem dinheiro pra caralho.

Nisso: o plim da air fryer. A carne está pronta, melhor dar uma pausa no vídeo. Vou checar: 5 minutos não fizeram muita coisa na carne, mas joga ela no prato, joga um sal porque esqueci de temperar antes de cozinhar, pronto. Vou jantar, matar a fome. Volto para a cama para colocar o vídeo de onde eu parei… ah, caralho, pausei a propaganda.

Notificação no celular, o vídeo rodando, mensagem em algum grupo aleatório de colegas que ficam mandando memes. Dou risada, respondo, volto para a TV e à comida, começo a comer… Finalmente consigo fazer tudo que precisava, mas o remédio começa a dar sono. Nossa, realmente estou cansado, não tinha percebido até esticar a perna na cama. Ufa, terminei de comer, vou dar uma esticada na cama, só para dar uma relaxada. Coloco o prato de comida do lado da cama, ainda bem que eu comprei lâmpadas inteligentes que posso apagar pelo celular, então agora, com tudo escuro, posso relaxar e…

Acordo na manhã seguinte com tempo suficiente para tomar os remédios, tomar banho, escovar os dentes, trocar de roupa e ir.

E o que eu queria fazer na noite anterior… hoje não lembro, e nem quero mais.

Música: Longview — Green Day

terça-feira, 8 de julho de 2025

Histórias que não conto

Esses tempos, meu filho tem me perguntado e pedido para eu contar histórias de quando eu era criança, quando tinha mais ou menos a idade dele, contar as merdas, as zoeiras, para dar risada no final.

Eu contei algumas. Não posso contar todas, senão acabo com todas as histórias antes de a curiosidade dele passar. Melhor sobrar alguma e contar quando ele não espera, do que não ter o que falar quando ele perguntar.

Calma, eu não vou contar todas as peripécias e merdas que eu fiz pra ele, pra ele repetir, ou no mínimo se sentir tentado a isso. Não, mil vezes não. São apenas histórias tipo: aquele dia que caí de bike, o dia que fui descer o morro com papelão e acertei um cupinzeiro com a bunda. Coisas assim, inocentes, para rir, para eu me alegrar também enquanto conto, não para ficar remoendo feridas antigas.

Mas, por mais que eu tente lembrar de todas as histórias legais, eu vejo também que eu não fui um moleque de sair muito na rua, de fazer coisas fora de casa. Não, era quase sempre eu sozinho, jogando videogame, porque eu não queria pedir pra ninguém deixar eu sair para brincar, não queria ter que pedir essa permissão. Era chato, era solitário, pensar que poderia ir na casa dos outros e, na minha casa, os amigos não poderiam vir. Então fiquei meio sem amigos.

Obviamente não vou contar essa parte para o meu filho agora. Ele não tem cabeça para pensar nisso, nem vou contar quando comecei a fumar, beber, tudo escondido — mas, incrivelmente, em casa, já que meus pais estavam sempre trabalhando.

Os dias que matei aula? Não. Essas histórias ficam para outros tempos. Dá para dar uma aliviada para ele, mostrar que toda criança faz alguma merda do tipo: cair, se ralar, se foder, voltar todo ralado pra casa e isso ser, na hora, doído, mas, tempos depois, engraçado.

Claro que contei muitas merdas que eu vi também, algumas dores de cabeça que dei para minha mãe e alguns segredos bestas de criança, do tipo: eu comi o pudim que ficou todo mundo procurando por um dia inteiro, como um segredo absoluto, onde nem minha mãe e nem ninguém em casa soube — e isso ser um pacto: não contar sobre o pudim para a vó.

Isso me causa uma preocupação fodida, porque eu tenho total consciência do que fui quando criança, das histórias paralelas que são merda, e não são engraçadas, mas que, entre elas, aconteceu algo engraçado. Então, ao contar uma história, eu fico meio tenso de meu moleque perguntar o porquê do contexto, e aí eu ficar em um beco sem saída, já que o contexto era de algo muito mais fodido: o matar aula ser uma fuga da escola que era uma merda com quem era estranho; o descer o morro em papelão em pé porque não estava muito preocupado com a própria segurança, o importante era sentir alguma coisa, sabe?

Essas coisas realmente me deixam preocupado, porque falar que quebrou um dedo é engraçado: "Porra, tava jogando bola, mas chutei a parede." Mas… e o ódio do chute que fez eu dar um porradão na parede? Entendeu?

Ser pai é meio pular de um avião sem paraquedas e torcer pra cair em um lugar fofo o suficiente para você não acabar ficando todo fodido, e mostrar os detalhes dos seus machucados para quem não tem cabeça suficiente para entender o que aquilo significa.

Algumas das histórias de criança eu contarei. Outras não. Tem coisas que devem ficar nas gavetas depois de adulto, até porque são coisas que eu lembro absolutamente bem, e, por isso, não fazem muito bem — tanto pra mim quanto pra quem eu conto.

Música: We're a Happy Family – Ramones

segunda-feira, 7 de julho de 2025

Dead pixel

Quantas vezes eu torci para a noite acabar, porque eu estava em um lugar onde não queria estar. Aquelas noites em que, apesar de ter bebido, estou sóbrio o suficiente para odiar estar ali. Mas, por um protocolo social, você fica, vai empurrando com a barriga, e aí o encontro que você quer que termine em casa, vomitando sozinho no box do banheiro, acaba virando um sexo casual sem vontade, onde a pessoa quer que você durma com ela. E eu, não tendo vontade nenhuma, raramente durmo fora — não gosto de ficar em lugares que eu não conheço, nem que seja uma suíte conhecida de motel.

Talvez por isso hoje eu fique em casa a maior parte do tempo ou, se saio, eu vou sozinho, sem a obrigação de ficar se o clima estiver uma bosta. Sei lá, às vezes sinto falta de ver gente, de conversar com gente — é lógico, eu sou humano. Mas, ao mesmo tempo, a preferência por estar só é gritante. Sei lá, gastar uma grana fodida em um único rolê me ferra também, fico sem dinheiro para fazer nada.

Não sei se é normal acontecer isso, mas essa coisa de ter que ser sociável, de sair, ficar rindo pra tudo, enquanto vai cozinhando a mente com álcool e cigarros, é boa até certo ponto. E nem estou falando contra um sexo casual, um beijo em alguém que eu não sei o nome — porra, isso é legal pra caralho. Mas é legal quando é em um clima leve, aquela coisa do tipo: "Porra, eu curti você, vou te dar um beijo."

Você fala uma vez: "Não danço, não jogo bilhar, eu só fumo, ouço música e bebo". Enquanto faço tudo isso, converso. Mas não: você tem que aproveitar tudo, tem sempre alguém querendo te domesticar, dizer o "deixa de ser chato, vamos lá", e o "não" vira um "sim" chato pra caralho, mas que, pra não ficar sempre como o filho da puta, você faz.

Quando isso acontece, eu me lembro de uma cena na adolescência:

Era época de carnaval, eu ali com meus 16, 17 anos, e meus amigos todos animados para ir ao desfile das escolas de samba da cidade, com aquele papo: "Vai ter muita mulher, vai ser legal, porra, vamos lá". E essa pressão social na adolescência pega muito mais, e na minha cabeça girava o pensamento: "Caralho, eu não gosto de carnaval, só gosto dos dias sem ir pra escola. Lá vai ter mulher, mas eu não vou pegar nenhuma, porque no meio dos carnavalescos, eu sou um cara magrelo, alto, de pé grande, cabeludo, com uma camiseta de banda (geralmente Nirvana) que não tá nem aí pra aquela merda toda". E as minas nem olhavam pra minha cara porque eu era o esquisito. Ali então isso ia ficar amplificado.

Mas, como um adolescente inseguro com as amizades, falei que ia, e segui com o pessoal pra lá. Cheguei no lugar, comprei uma cerveja (não, ninguém vê se é menor de idade, e um cara de 17 de 1,90 passa por maior de idade de boa). Fiquei encostado em um muro, com a perna dobrada e o pé nele, bebendo, e aquela seria a única cerveja. Naquele tempo não tinha trabalho, então eu era um fodido que dependia do dinheiro que a mãe dava, ou de algum amigo playboy que pagasse alguma coisa.

Fiquei ali, olhando o clima total. Não o desfile, não as mulheres, mas tudo. Vendo aquele clima de festa, os meus amigos com as amigas deles que eles tinham chamado para ir ao lugar. E eu ali, aquele ponto fora do universo, o dead pixel na tela, que não faz diferença no total, mas que incomoda quando olha de perto.

Isso foi uma constante em minha vida: ir aos lugares e não querer fazer o que todo mundo fazia. Queria só ir lá, ver o lugar, observar, e ir embora a hora que eu quisesse. Mas era sempre puxado por um amigo para algum lugar maluco depois, onde ninguém, a não ser eu, lembrava da história no dia seguinte. E, no final, não importasse o que eu contava, o principal era sempre o magrelo como aquele ponto estranho ali. Tudo era divertido até eu ser o palhaço da história por não fazer parte do espetáculo de todo mundo.

E isso acontece meio que até hoje, só que hoje eu já jogo na cara que tô achando tudo uma merda, e fico de boa. Não tenho que ficar agradando ninguém, não, e gastando dinheiro com isso.

Música: Beber até morrer – Ratos de Porão