Quando ele ouve o som das sirenes da polícia passando, instintivamente procura algum lugar para se esconder, ao mesmo tempo que vê se tem pedras por perto para jogar na viatura. E não, ele não é procurado nem um criminoso — é apenas alguém que vê na polícia o braço armado da repressão.
Interessante que ele começou a escrever de forma compulsiva após um coração partido — e não por amor romântico —, mas a vida quebrou o coração dele, como se, em cada pequena falha, alguém arrancasse um pedaço pequeno que, na vida adulta, já era pequeno demais para ele consertar. Como se cada passo, cada relação, seja ela qual for, fosse um convite para a destruição — a qual ele escreve.
Todo esse movimento involuntário aparece enquanto rola o feed infinito de algum site de notícias, onde os temas sérios se misturam com a notícia da famosa que tirou uma selfie de biquíni em Los Angeles. O tipo de coisa comum: todo dia a mesma notícia séria, e um monte de novidades descartáveis.
Era tarde da noite, estava caminhando porque já estava cansado de ficar em casa, naquela prisão fedendo a urina, uísque e cigarro. Precisava de algo mais, precisava ver gente. Porém, a cidade — que gosta de querer parecer maior do que é — tem todo o seu movimento noturno concentrado na avenida principal, onde as pessoas desfilam com seus carros modificados, barulhentos, nessa competição por atenção. A polícia havia passado por ele provavelmente perseguindo algum infeliz de carro ou de moto — nada fora do comum.
Colocou o celular no bolso: não havia nada de interessante, assim como todo e qualquer dia. Pegou o maço de cigarros, que estava completamente amassado porque, no local onde tinha comprado, não havia o box, somente o maço mole — que, no bolso de um desgraçado, quebraria alguns cigarros quando chegasse perto do fim. Colocou um cigarro torto entre os lábios, pensando que precisaria comprar mais — talvez, na conveniência do posto mais à frente, poderia ter algum.
Em meio a esse pensamento, ficou batendo as mãos no bolso para ver se sentia o isqueiro. Xingou mentalmente a si mesmo por perceber que tinha esquecido ou perdido, porque os bolsos estavam furados. Então enfiou a mão no bolso traseiro da calça jeans surrada e desbotada para sentir se ainda estavam ali seu documento e seu cartão de débito — não andava com carteira porque não tinha nada o que colocar nela. Então andava somente com uma carteira de habilitação vencida e o cartão de débito (não tinha nome nem vontade para ter um cartão de crédito).
A carteira estava vencida fazia uns anos, não tinha mais vontade de voltar a dirigir, porque não via mais sentido, e também porque não queria manter um carro: demandava dinheiro e, claro, não podemos esquecer que estava começando a virar um ritual dirigir bêbado depois de uma noite em algum lugar aleatório onde se tem bebida para uma alma desgraçada — que é basicamente qualquer lugar no Brasil.
Ainda com o cigarro torto e apagado na boca, foi passando entre as bombas de combustível. Alguns carros, com dúzias de jovens dentro, ouviam música alto, tentando ver quem tinha o som mais potente — todos sorrisos em meio às fumaças de vape, já que ninguém queria voltar pra casa fedendo a nicotina. Seu olhar cínico era destoante do clima dos carros, mas os frentistas compartilhavam do olhar sem esperança: não davam boa noite, só chegavam perto da janela do motorista, esperavam o vidro baixar e a pessoa dizer o quanto queria de combustível no tanque.
O cheiro de gasolina era até agradável e o fazia pensar: como seria se tudo aquilo explodisse? Levaria só aquele pedaço? O quarteirão? Morreria muita gente? Perguntas essas que foram interrompidas por um jovem meio bêbado pedindo licença ao mesmo tempo que o empurrava para o lado — estava correndo para o banheiro. Vontade de mijar? Estava passando mal? Bom, não importa.
Abriu a porta da conveniência e olhou o ambiente perfeitamente bem iluminado: os produtos superfaturados, um pacote de biscoito custando três vezes o preço do que num mercado? Nada anormal. Foi então se dirigindo ao caixa quando viu um cartaz com uma promoção de uma marca de cervejas — estava até que a um bom preço. Pegou então uma lata — não ia pegar mais que isso, pois estava se dirigindo a um bar onde tomaria algo mais forte — e voltou seu caminho ao caixa, olhando então a fila que consistia de duas pessoas: um moleque com várias latas de cerveja e uma barra de chocolate, e um senhor de calça social, camisa branca meio transparente, de óculos e com um saco com pães.
Quem compraria pão às onze da noite, numa conveniência, em plena sexta-feira?
Entrou na fila e ficou ali, balançando as pernas, enquanto via a atendente falando as mesmas frases de forma robótica, não vendo quem estava na frente dela — só passando o leitor de código de barras, falando o valor total da compra e perguntando se era no crédito ou no débito. Interessante que aquela jovem poderia ser mais uma que estava ali como passageira nos carros — certamente tem a mesma idade das pessoas ali fora —, mas não o mesmo sorriso, não a mesma inconsequência ou despreocupação. Não. Ela estava ali até sabe-se lá que horas ia seu expediente, e sabe-se lá que horas havia entrado — talvez por isso não fique tão concentrada nos rostos dos clientes.
Ao chegar a sua vez, pede o cigarro (percebe que, ainda bem, tem a versão box — ufa, não vai perder os cigarros) e um isqueiro, dos pequenos, pois ainda tinha esperança de ter esquecido em casa, então comprar um grande seria gastar dinheiro à toa. O bip do leitor passando cada produto, ele tirando o cartão do bolso — não disse uma palavra, só mostrou o cartão com a pergunta a seguir:
— Crédito ou débito?
Com a resposta seca:
— Débito.
Mas, como a moça não falou mais nada após isso, ele ficou pensando se não tinha falado errado sem querer ou se tinha mandado um "Crebito". Pensamento que foi cortado, após alguns segundos, pela atendente, que disse que poderia inserir ou aproximar o cartão na máquina.
"Solicitação aprovada" — a mensagem que todos gostam de ver: "tenho dinheiro suficiente pra isso". Pegou o maço, colocou no bolso, a cerveja estava em uma sacolinha absurdamente frágil, com um plástico branco quase transparente, o que denunciava a compra e a marca do que comprou. Guardou o cartão, e o isqueiro caiu dentro do bolso — mas já pegou em seguida.
Saiu da loja e, em um movimento quase que involuntário, pegou o cigarro torto novamente, colocou entre os lábios e pensou que nem a atendente nem ele tinham testado o isqueiro antes de concluir a compra. Mas, por sorte, esse estava funcionando. Após a primeira tragada, longa, respirando fundo, percebeu que ainda estava dentro do posto. E, com um sorriso, pensando "como sou burro, poderia explodir essa merda toda", apressou o passo para sair dali, abriu a lata de cerveja, deu um gole e continuou seu caminho.
A cerveja estava meio quente, meio choca, mas era a mais barata que havia no posto — então provavelmente era uma que estava há tempos no estoque.
Continuou seu caminho. O celular vibra: uma notificação. Coloca o cigarro na boca, muda a cerveja de mão para conseguir pegar o celular e, quando abre a notificação, uma promoção da operadora oferecendo um pacote maior de internet. Bloqueia o celular e coloca novamente no bolso.
O caminho continua: os carros, as músicas, e ele vai olhando esporadicamente as pessoas, mas com uma distância quilométrica — não fazia parte daquilo. Algum tempo poderia ter sido, mas não é e nunca foi. E, nesse pensamento, se lembrou que estava indo para o bar. E, quando finalmente parou de caminhar, viu que estava em frente de casa, com a lata só com o final da cerveja choca.
Abriu o portão e seguiu pela garagem vazia e empoeirada até a porta da sala. E, em frente à porta, viu o isqueiro no chão — realmente havia perdido. A decisão de comprar um dos pequenos do posto foi certa. Aliviado, pegou o isqueiro antigo, que era dos grandes, pegou o último cigarro torto, foi acender e... nada. Só faísca. O gás tinha acabado. Confirmou ao colocar o isqueiro contra a luz.
E ficou puto porque não comprou do maior na conveniência.
Entrou em casa, pegou o celular, abriu um bloco de notas e escreveu um conto.
Ele odiou.