quinta-feira, 26 de junho de 2025

Um moleque com distorção

O pessoal sempre saía na rua para brincar, sentar e conversar, e quase sempre estava eu lá, tirado de dentro da minha casa. E, quando isso acontecia, quase sempre eu levava o violão — e não era para tocar para os outros, não era pra mostrar que eu sabia tocar, era porque eu ficava treinando, pegando alguma música e não ficava querendo ser antissocial, o chatão que nunca saía na rua, apesar de eu já ser visto assim.

Em alguns desses dias, o pessoal ficava com vontade de aprender, montar uma banda, era legal isso, tanto que o baixista, meu melhor amigo, aprendeu a tocar comigo ensinando ele porcamente como tocar — mas isso é história para outro dia.

Diante desse cenário, um dos pais dos amigos da rua me via com o violão e me perguntava sobre alguma coisa de música, e eu respondia, até que um dia ele me convidou para entrar na casa dele para me mostrar algumas coisas, já que ele já tinha tocado guitarra quando mais novo.

Chegando lá na casa dele — onde eu já tinha entrado por causa do meu amigo, onde íamos jogar videogame às vezes, assim como íamos na casa de quase todos, menos na minha, já que minha família não gostava de gente entrando em casa, principalmente meu pai... Enfim — já lá dentro, ele me apresenta a guitarra dele: uma Dolphin preta com ponte Floyd Rose. Algo absurdo pra mim na época, já que eu era um moleque que, no máximo, fazia era ver as guitarras penduradas nas lojas, onde sempre parava e ficava vendo elas ali, mas nunca tinha coragem de pedir para pegar uma na mão. Porque, além de não ser minha, eu tinha vergonha de não saber porra nenhuma de guitarra, nunca fiz aula, então o que eu sabia era alguma coisa de Ramones, porque foi a diversão quando descobri os power chords.

Voltando à casa do pai do meu amigo, Benedito, ou somente Dito, um cara magrelo, alto, com um bigode de Belchior, uma cria dos anos 70, ele, depois de me mostrar a guitarra, me mostrou o amplificador que ele tinha: um monstro, um Ciclotron PR140, um monstro, e dois pedais, dois da Oliver, um Chorus e um Overdrive. Ele me mostrou aquilo, e eu, obviamente embasbacado, fiquei sem muita reação, apenas pegando na mão o pedal, sentindo o peso daquela caixa de aço com um circuito para efeito. Era algo fora do que eu já tinha pensado, ter algo concreto de guitarra assim na minha mão.

Depois ele pegou a guitarra, que estava impecável, apenas com a marca do tempo, mas afinada, e o charme da correia de couro desgastado. Ele a colocou no meu colo e começou a ligar os equipamentos, e nesse momento eu comecei a gelar, porque eu nunca tinha, até então, tocado guitarra assim, e não sabia o que estava por vir, aquela caixa imensa que me dava a impressão que eu iria explodir a casa a hora que tocasse.

Mas não: volume no dois. O primeiro toque na corda mizona, e aquele som. Sim, eu estava eletrificado pela primeira vez. Muito bom. Ele olhou pra minha cara como quem diz: pode tocar, vai lá! E eu, de maneira tímida, fiz alguns acordes. Eu não lembro exatamente que música eu tentei tocar, nem nada, mas sabia que era um momento único. E então ele pede para eu apertar com o pé o pedal de Chorus, e quando eu aperto, automaticamente aquele efeito me lembrou Come As You Are, do Nirvana. Caralho, eu conseguia tirar igual eu ouvia no disco. Claro, não era igual, mas era parecido como nenhum violão conseguiria tirar.

Logo depois eu desliguei esse efeito e fui para o Overdrive, e outra surpresa: o som rasgado, eu estava fazendo rock, eu era uma estrela, eu não era mais um moleque, eu era um moleque com distorção.

Dito, ali vendo aquela cena, deixou eu brincando com a guitarra, com os efeitos, e, para terror dos vizinhos, ele elevou o volume até o 5, onde eu dei uma risada gigante, pois, pela primeira vez na vida, eu tinha entendido o termo "som porrada".

Não fiquei muito ali, eram umas oito da noite já, e eu fiquei com medo da minha mãe ficar brava de não estar em casa, e nem estar à vista na rua, então decidi terminar a brincadeira por ali e ir para casa.

Benedito virou ali mais um amigo e me disse que, sempre que eu quisesse tirar algum som, eu poderia ir na casa dele e chamar. Ele estava há muito tempo sem tocar, e era legal ver os equipamentos dele sendo usados com empolgação outra vez.

Dito foi personagem de mais histórias, que talvez um dia eu continue contando, mas, por hora, me lembrei dessa.

Música: Come As You Are – Nirvana




















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