As coisas que eu escrevo não são feitas para ter ordem, para ter cadência literária, para ser algo profundo. Não. As coisas que eu escrevo são apenas sentimentos colocados em palavras de uma forma que faça o mínimo sentido.
A intenção nunca foi ser escritor, nunca foi ser lido, mas apenas escrever enquanto fumo, enquanto penso, como um cuspe mal-educado na rua, onde ele se mistura com o asfalto e seca, não tendo mais vestígios de que um dia esteve ali.
A profundidade não está em querer passar algo bonito, está no abismo que está durante o caminho. Quantas bitucas de cigarro já joguei nele, quantas vezes cuspi nele, quantas vezes gritei só para ouvir o eco distante da escuridão do fundo.
É um movimento natural da minha cabeça escrever páginas e páginas de um assunto qualquer, ou sobre o nada, e sempre uma música no local querendo me dar um empurrão.
Não é ser complexo, pelo contrário, é ser bastante simples. O problema é que o mundo todo é um teatro onde o que você parece ser é muito mais do que você é de fato.
Teoricamente eu sou um cara legal, uma boa companhia, um amigo leal, mas só teoricamente, porque eu sou bem pior do que as pessoas imaginam que eu sou.
As culpas, os traumas, os diagnósticos, todos eles são etiquetas na carne, que está pendurada nesse freezer que é a natureza humana. É como se fosse um aviso na caixa de cigarros: “Cuidado, faz mal”, e as pessoas insistem em chegar perto.
Não quero ser salvo, não quero o alguém certo, até porque não existe — só o erro menor, o arrependimento sincero, a dúvida de perdão, nesse eterno embate do que eu acho que eu sou e quem eu sou de fato.
O que eu escrevo são pensamentos crus, que escapam da minha cabeça, mas não mostram totalmente quem eu sou — só algumas coisas que penso — e isso não tem problema nenhum. Eu não tenho vergonha das merdas, assim como não tenho orgulho das virtudes.
Isso aqui é apenas fluxo de pensamento aleatório escrito, documentado, de um cara comum, com nada de especial, com uma vida absolutamente sem embalagem bonita, um parafuso meio solto em uma engrenagem que funciona mal, mas que ainda funciona.
O cigarro é um vício que pode me matar, mas como já estou vivo, qualquer coisa pode me matar.
Mas nada mais me mata do que eu mesmo.
E essa é a maior virtude que um ser humano pode ter: não é a liberdade de como viver, nem a escolha de como vai morrer, mas a consciência de que o caminho é fodido, e não tentar florear ele com metáforas recheadas de expectativas — de quem te olhar veja só a profundidade, e não o abismo.
Música: Blew – Nirvana
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