quarta-feira, 25 de junho de 2025

Bolso furado

Ah, sempre me lembro que preciso comprar calças novas quando coloco a mão nos bolsos. Geralmente, isso acontece quando saio do trabalho ou quando perco algum isqueiro no meio da rua.

Interessante que, assim que chego em casa, esse pensamento desaparece. Afinal, é hora de tirar o uniforme, tomar um banho relaxante, jantar, tomar meu remédio para dormir e só lembrar que os bolsos da calça estão furados amanhã, na hora que eu voltar.

Legal que eu não lembro dos bolsos na ida ou durante o dia. Acho que é porque, de alguma maneira, coloco menos as mãos no bolso — não me pergunte o porquê, não sei. E percebo que não colocar as mãos no bolso é apenas uma das coisas que eu não faço durante a maior parte do dia. Até porque, se eu pensar no que eu vou fazer no dia, eu não levanto da cama. Acho que é assim com todo mundo um pouco.

Durante a ida eu penso, e vou me ligando aos sons da rua, à luz do sol, a como está o tempo, fazendo uma pequena análise mental de onde eu estou e pra onde eu estou indo, já que é um processo robótico: acordar, cagar, fumar, tomar banho, me trocar, escovar os dentes e ir trabalhar. Já se tornou um espasmo involuntário isso, como um cadáver que ainda tem espasmos mesmo depois de horas na geladeira do IML.

Os bolsos furados seguem, e me incomodam só quando volto do trabalho. E o que faz isso mais curioso é que eu uso a calça jeans para tudo que eu for fazer fora de casa. Eu sempre estou vestido da mesma maneira, como o Doug, que usa sempre a mesma roupa e só é representado diferente em episódios especiais ou quando está de pijama.

É uma maneira neutra de se viver, já que a repetição se esconde no meio do caos, vira uma imagem que já não tem tanta importância. E talvez esse meu jeito de me vestir seja apenas isso: uma maneira de, mesmo com meu estilo, não chamar a atenção.

Música: False Hope – The Unseen

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