Desde criança, me parece que eu fui um ralo aberto, aquele que suga toda a enchente da vida dos outros, mas que, de certa forma, nunca pôde falar das coisas que eu sentia.
Tipo, é como se eu tivesse sido o ponto de equilíbrio de muitas situações, onde, se eu estava mal, era motivo para tudo estar uma merda para as outras pessoas — e isso jogava uma culpa em mim: “Como você, que tem tudo, ousa ficar triste?”
Eu me lembro que, quando criança, eu escutava minha mãe reclamando das coisas, falando sobre como a vida dela foi pesada, das coisas que ela passava, tanto naquele momento quanto antes de mim — e talvez por isso eu tenha um vocabulário, uma facilidade para falar sobre derrota.
Não a culpo por nada, não mais.
Eu entendi, depois de muito tempo de vida, que eu era quem estava ali para ela, quem a ouvia, mesmo que ela achasse que eu não entenderia o peso das coisas.
Mas, de alguma forma, as crianças entendem.
Por isso eu parei de acreditar em heróis — pois ninguém tem o poder de fazer tudo parar, te resgatar e te colocar em segurança, em um lugar confortável, um lugar onde as coisas não doem.
Hoje eu sou um cara que entende que a derrota é a maior parte da vida, onde a realidade está no ordinário, não nas palmas falsas de uma conquista genérica que geralmente é importante para um mundo genérico, mas não para um nível existencial.
Ouvi frases, vi coisas que provavelmente não precisaria ter visto, mas, ao mesmo tempo, foram coisas que eu precisava ver para poder pensar, para poder, em meu silêncio, remoer palavras, analisar pensamentos, ver as dinâmicas e entender que eu sou só mais uma engrenagem no meio disso.
Entender que a história vem de muito antes de mim, e continuará muito depois.
Entender que só tenta não errar quem reconhece que já errou — e isso é algo que eu penso muito:
as pausas para o cigarro, os silêncios, os tempos de espera entre um atendimento e outro, ou em cada coisa que eu escrevo.
O mundo te ensina que você tem que ser o que ele quer, ou seja, um nada, uma coisa, um número gerando números — e isso, para quem tem o mínimo de sanidade mental, é como contar os dias em uma prisão.
Vivemos contando quanto tempo falta para o almoço, quanto tempo falta para uma pausa, quanto tempo falta para irmos embora, quanto falta para terminar o livro — e esse pensamento vai fodendo nossa cabeça, porque contamos tanto quanto falta para algo que, no final, não temos tempo pra porra nenhuma.
Quanto será que falta para eu achar que esse texto está completo?
Não sei, ele nunca estará completo.
Talvez por isso eu escreva: não para completar nada, mas só para não ficar sendo esse ralo que só suga as coisas e não entope, não dá problema — e que, entre as horas que faltam para alguma coisa, eu consiga preencher escrevendo.
Música: Death Letter – White Stripes
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