Já tive fases bem obscuras na minha vida, tempos onde desliguei todos os instintos, todas as vontades, e me coloquei no piloto automático. Simplesmente seguia o fluxo.
E é absurdo pensar em quanto esse piloto automático vai fodendo com a cabeça, porque você começa a ser enganado pelas visões que a sua posição como ser social te impõe. Pouco a pouco, você vai desligando também o senso de individualidade, vai caminhando mais pra perto das lâminas do liquidificador das expectativas de fora, e vai se tornando parte dessa vitamina pastosa e sem gosto — como um whey da sociedade que se fortalece nas bases daqueles que caminham na fé cega de que, se eu fizer tudo direito, vai acabar bem.
A depressão te coloca como um cadáver — e não como uma metáfora, mas sim como algo real. Você dorme mal, come mal, não se cuida, e a sua imagem no espelho, cada vez mais morta, te faz alimentar ainda mais esse ciclo. É absurdamente difícil quebrar isso. Sempre tem algum discurso, alguma coisa do tipo “você não está sozinho”... mas sim, está.
O que incomoda não é a sua situação, mas como ela reverbera na rotina dos outros.
Fiquei muito tempo me alimentando dessas coisas. Não escondo que perdi o princípio mais básico da vida, que é se manter vivo. Nada mais fazia sentido — e não no sentido filosófico, mas biológico mesmo. Por muitas vezes, pensei que a minha morte seria um alívio para todos ao redor, pra mim mesmo. Mas, além disso, vem a culpa gigante de pensar isso.
Você não deixa de sentir — pelo contrário, sente demais. E isso satura. Te deixa num estado catatônico.
Hoje, penso muitas coisas, porque eu não me curei. E acho que não tem cura. Mas, ao mesmo tempo, penso nessas coisas não como parte de mim, mas como um caminho. Hoje eu olho com bom humor para o abismo e mando uma cuspida só pra ver se escuto o barulho de onde o catarro bate. Mas não escuto nada.
Já tentei por algumas vezes acabar com tudo. Pedi socorro. Mandei a pessoa calar a boca e me ajudar. Não me julgar. Não pensar no que está acontecendo. Está acontecendo. Então cale a boca e me ajuda, caralho.
Deu certo. A pessoa teve que engolir o que queria dizer. E essa pessoa foi a minha mãe — religiosa, que julgava pra caramba muitas coisas.
Depois disso, as coisas foram melhorando. Não na hora, não na velocidade que eu queria, mas o pensamento era: bom, já que fodeu tudo, vamos esperar um pouco.
Estava desempregado, recém-separado, todas as derrotas sociais em cima. E eu realmente não estava conseguindo fazer nada.
Conforme as coisas foram melhorando, fui voltando a escrever. Tentei me relacionar outras vezes e, claro, em todas elas eu fodi alguém e me fodi no processo — já que eu estava num momento completamente estranho.
Mas meu cigarro sempre me acompanhou. Nos dez minutos antes das consultas no psiquiatra ou psicólogo, nas horas antes de dormir e logo depois de acordar.
Além, é claro, da minha mãe, que ficou ali em silêncio, apenas acompanhando. E eu, sem saber o que ela pensava.
Pode parecer que está tudo bem. Não está. Tá tudo uma merda. Ainda derrotado, sozinho, tomando remédios, fumando pra caralho (pelo menos sozinho, de porta aberta, enquanto cago e ouço música — liberdade).
Tudo continua um lixo. Mas meu moleque vem pra casa e nos divertimos. E isso é sensacional.
Não tem final feliz pra isso. Só mais um cigarro, mais um fim de semana com meu filho… e outro fim de semana na solidão, sem ele.
E assim seguimos: fodidos, quebrados, feridos, chorando — mas escutando punk rock.
Música: Bad Disease – Stiff Richards
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