terça-feira, 24 de junho de 2025

Nada de novo no trampo

Olhando para a tela, sem clientes para atender, girando o meu fidget spinner para controlar a ansiedade e bater menos o pé, pensando em escrever, ao mesmo tempo que penso: como eu cheguei até aqui?

Como cheguei a um ponto onde eu simplesmente existo como um número, um registro, um holerite, uma idade — e nada disso dá significado à minha existência?
Fico com a mente viajando para vários lugares, todos tão absurdos quanto estar aqui, sentado nessa cadeira que é um pouco diferente das demais, e que eu consegui conquistar enquanto ninguém estava olhando.
Estou em algo que alguns diriam que é zona de conforto, mas essa zona de conforto só existe para os que acham que a vida e o sucesso seguem um manual, os que postam suas conquistas, suas vitórias no LinkedIn, no Instagram, porque no final tudo vale a pena.

Interessante como um fluxo de pensamento pode ser a resistência real ao absurdo de se estar aqui durante a maior parte do tempo útil de vida. E esse senso coletivo que faz pensar: “ah, se eu estivesse em casa, eu não estaria fazendo nada”.
Mas porra, não é bom não ter que fazer nada?

Muitas perguntas, poucas respostas. Talvez eu nunca as encontre realmente, nem faço questão disso. Só vou documentando minha queda psicológica de cada dia, onde minha TAG e depressão são controlados por paroxetina e quetiapina, mas muito mais pelo fato de eu não ter tempo de ser uma pessoa real e acumular fadiga e incoerência durante 8 horas na escala 6x1.

Bom, pelo menos consigo colocar o Spotify rolando a minha playlist enquanto não atendo nenhuma ligação.
Marco cada uma hora do dia para fumar um cigarro, sempre a cada 50 minutos ou uma hora e pouco de diferença.

Começo a ver os colegas que saem uma hora antes do meu almoço e penso: “nossa, já chegamos à metade do tempo de trabalho, que merda, é igual ontem”, mas pelo menos minhas métricas de atendimento estão boas.

Chegaram dois novos "colaboradores" esses últimos meses, e eu sei que eles, para mostrarem serviço, vão puxar mais atendimentos. Então caí para terceiro lugar, o que era esperado, faz parte do cálculo mental para não ter motivos para alguém vir me encher o saco dizendo que eu faço pouco.

Não demoro muito com os clientes, não fico puxando papo, nem atendo com ternura. Eu simplesmente ouço o que está acontecendo; se consigo ajudar por aqui, eu ajudo. Se não, abro chamado e próximo da fila.

Enquanto escrevo esse texto, fico observando as pessoas e me sentindo um ET aqui. Não tenho pretensões ou alguma ambição. Eu, se puder, fico aqui durante 20 anos — só basta ninguém me encher o saco ou vir algum marketeiro falando que precisa mudar o jeito da empresa, falando que as pessoas têm que estar mais motivadas.

Porra, a minha motivação é poder receber no fim do mês. Não precisa de palestra do Cortella ou Karnal para me mostrar que, para que eu seja feliz, eu não posso ser medíocre — o que, em outras palavras, é: venda seu tempo sorrindo para alguém que te paga o suficiente para que o orçamento e o lucro da empresa não sejam afetados, assim o patrão pode desfilar com sua Porsche Cayenne de mais de um milhão de reais.

As muitas abas abertas no meu navegador são basicamente como meu cérebro funciona: cheio de pesquisas e ferramentas diversas.
Mas eu tenho que tomar cuidado, porque é foda perceberem que eu estou com o bloco de notas aberto e escrevendo tudo isso aqui.
A minha sorte é que a tela do meu computador fica virada para o lado oposto da entrada principal, então tenho uma certa privacidade.

Eu escrevo textos que me mandariam embora se os meus chefes lessem, mas nunca que meus números justificariam isso. Você só precisa se manter jogando um amendoim a cada reclamada do elefante, para ele ficar calmo.

E, em meio a tudo isso, eu fico pensando aqui: o que será que eu vou fazer nas férias?
Talvez ficar sem fazer porra nenhuma, só jogando e me divertindo de maneira simples.
Mas quero ver se consigo que meu filho fique 15 dias comigo, é bem mais divertido com ele.

Enfim, eu sigo escrevendo e jogando no papel o que o pessoal não gosta de mostrar no story do Instagram: a cara cansada de quem perdeu o sono às 5 da manhã e teve que entrar no trabalho ao meio-dia — e vai ficar aqui até as oito e vinte.

É, tenho que vestir essa fantasia de palhaço social para não ser sufocado pelo mundo e suas convicções de que tudo tem sentido.

Música: Pretty Vacant - Sex Pistols

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