A revolta sem sentido, o caos pelo caos — apenas um adolescente revoltado. É isso que pode parecer. Engraçado, porque eu tenho 39 anos, e as coisas que me incomodavam quando adolescente começaram a fazer parte da minha rotina, a ponto de hoje transitar em um misto de verdades incômodas e desejos inocentes.
Foda porque as pessoas hoje adoram não aparentar a idade que têm. E não é uma questão de expressão, de gostar de algo e simplesmente vestir. Não. É uma harmonização facial, uma edição para mostrar o "nossa, pareço um adolescente, mas penso como adulto". Isso não é fantástico?
Às vezes eu desanimo no sexo porque, na maior parte das vezes, eu realmente gostaria que a pessoa tivesse um pouco mais de pelos — pra eu poder pensar que estou com alguém da minha idade. E isso, além de parecer estranho pra caralho de falar, vai ter gente com uma puta ideia errada, justificando que é higiene, que isso, que aquilo… mas, no final, é uma vaidade onde, lá no fundo, está o desejo de não se ter a idade que se tem.
Falar a merda da maneira que ela vem à cabeça, sem filtro, apenas com o cigarro na boca e a tela na sua frente, não é rebeldia adolescente. Pode parecer para quem se utiliza de metáforas demais para florear a própria revolta — aquela mesma que deseja mandar todo mundo tomar no cu como um adolescente revoltado — mas que, como um adulto evoluído, dotado de um vocabulário vasto, experiência de vida, um olhar apurado sobre tudo, escreve algo bonito, palatável… algo que eu não consigo realmente nem pensar. Porque nada é mais bonito que um “vai para a puta que pariu” bem dado.
Ah, mas é um personagem, alguém que faz tipo, alguém que quer parecer ser algo. E claro que eu sou um personagem, assim como qualquer um é um personagem. O tempo todo somos personagens. Alguns são muito bons de edição — e outros, como eu, são uma merda. E tá tudo bem. O que seriam dos fodões se não existissem os fodidos?
Pode parecer apenas um adolescente revoltado — e isso irrita muita gente. Realmente faz com que os que escrevem maravilhosamente bem e tentam se validar a vida inteira pensem: “nossa, que vazio”. Mas, no final, todo mundo gostaria de reclamar como um adolescente revoltado. Xingar algum autor filho da puta que te obrigaram a ler no ensino médio só pra dizer que, se você não entendesse o que ele queria dizer, você tiraria zero.
Eu visto camisetas de bandas que eu gosto. Fiz a maior parte das tatuagens depois dos 36. Pude olhar no espelho e rever um pouco do adolescente revoltado podendo falar merda à vontade. E, ao mesmo tempo, sentir o orgulho da idade que eu tenho hoje.
Já fiz a besteira de passar creme depilatório no saco e ficar com as bolas pegando fogo por dias, porque fiquei pensando que seria muito melhor — mais higiênico — transar depilado.
Hoje, pelo menos, consigo, a duras penas, com toda minha vida de adulto funcional e produtivo, pensar em poder pagar as contas, receber um salário merda e, no fim do mês, tomar cerveja, fumar meu cigarro, reclamando como um adolescente revoltado.
Música: Velho Punk - Gritando HC
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