Eu já escrevi tantas cartas de suicídio na minha vida que não tenho ideia de quantas são, também não tenho ideia do que escrevi nelas. Nelas coloquei todo o peso daqueles dias; algumas vieram com tentativas frustradas, outras vieram com o desejo não de me matar, mas de que acidentalmente alguma coisa acontecesse para eu morrer, sabe, um acidente, um ataque cardíaco, coisas assim, onde você não se dá ao trabalho de agir, mas sim só de esperar a morte chegar.
Mas uma coisa eu lembro que eu disse em todas elas: ADEUS. Todas elas eu terminei assim, me despedindo, mandando um "não quero ver mais nenhum de vocês, nem no inferno".
Mas nunca foi um adeus de verdade, foi sempre um até logo, sempre seguido das cartas o pensamento: "nem pra morrer eu sirvo", e isso foi seguindo durante a vida, morrendo um pouco por dia, as pessoas insistindo em comemorar mais um ano de vida. Que merda. Odeio fazer aniversário, aquela coisa de receber parabéns, presentes, uma babação de ovo do caralho. Ninguém, durante o ano, fala um "a" pra você, não se importa.
As coisas vão acontecendo, uma rotina, não tem como escapar. Você sai de uma e vai pra outra, e toda essa repetição, esse padrão, essa norma que se segue, é o que chamamos de viver a vida. E é foda pensar que eu estou preso a padrões de comportamento que tenham que me validar minimamente para o mundo, aquela coisa do "você tem que fazer isso, tem que fazer aquilo, não pode fazer isso ou aquilo".
Vamos cortando as coisas que nos dão algum tipo de prazer por medo desse prazer nos matar. Aí cortamos algumas coisas que comemos, cortamos hábitos ou mudamos o mindset para sermos produtivos em vez de preguiçosos em nosso tempo livre. Vamos cortando relações, vamos cortando atitudes, e quando vamos ver, já não estamos diferentes de quem corta os pulsos e é achado desacordado na banheira, com toda aquela cena triste, para depois acordarmos e pensarmos: "nem pra isso eu servi".
Hoje minha maior morte é ficar vivo todo dia, meu maior suicídio é olhar para a cara de toda uma vida que quer me quebrar, acender um cigarro e depois mandar um dedo do meio. Você quer que eu morra? Ok, eu vou morrer, provavelmente de algo que eu mesmo escolhi, como o cigarro, mas não vai ser na hora que você me deixar na pior, vai ser na hora que meu corpo não aguentar mais. Minha cabeça não está blindada, não é que coloquei máscara para não sentir o cheiro da merda, mas sim o fato de eu saber que tudo está ali, do jeito merda que é pra ser, que sempre foi, e o mundo não vai ser melhor se eu morrer, do mesmo jeito que ele não vai ser melhor se eu ficar. É só viver de pirraça.
Não existe maneira mais eficaz de me matar do que deixar eu morrer no meu canto, sem ninguém encher o saco.
Música: Cyco Vision – Suicidal Tendencies
Nenhum comentário:
Postar um comentário