Já existem muitos escritores importantes. Ainda bem que eu não sou um deles, porque assim eu posso escrever sobre qualquer merda sem precisar mirar no pódio, no status.
Posso me servir da mediocridade, da rotina, do nada, da preguiça e escrever como eu quero, sem ninguém vir me encher o saco com a literatura.
Durante a vida, eu fui abandonando coisas que eu gostava de fazer, tudo em nome da vida funcional — nem da financeira, até porque eu duvido que alguém que realmente deixa algo para trás esteja realmente bem financeiramente —, mas isso é só uma prova de que a vida é um eterno perder, e isso te tira muito da pressão por ganhar.
Claro que o ego merece um afago em algum momento, um elogio cai bem, mas eles geralmente, em excesso, dão dor de cabeça, e a ressaca depois não deixa você ser minimamente você mesmo.
Então o fato de eu escrever tanto e de qualquer maneira é realmente o que me faz pensar que eu sou hipócrita, mas pelo menos consciente — ou acho que sou —, já que escrevo fluxos de pensamentos.
E sim, eu penso o tempo todo, sobre as mais variadas coisas, então algumas delas viram textos, outras viram apenas fumaça depois das tragadas do meu cigarro — esse sim que não me abandona, mas, como traidor do jeito que é, me escapa quando não tenho dinheiro. É um filho da puta.
O ato de escrever sobre coisas aleatórias me fez parar de escrever cartas suicidas, e com isso eu retomei meu lugar nessa corrida por ser relevante: o meu lugar ali, sentado no banco da praça, fumando enquanto vejo todos suando para chegarem ao topo, receberem seus prêmios, medalhas, ouvirem dizer quanto são representativos, quanto são heróis, o quanto são exemplo para aqueles que, como eu, estão rindo da caricatura que a pessoa se torna após a vitória.
Existem muitos bons escritores; alguns eu já cheguei a começar a ler, mas, como a maior parte das pessoas, canso diante de tanta genialidade.
Então, por isso, eu faço o básico — e o básico dá trabalho pra caralho, porque, para ser básico, eu preciso de um ecossistema de merda ao meu redor.
Não serei lido, não serei reconhecido pela escrita, no máximo vou continuar sendo o que sou: um cara que escreve sobre o banal de maneira banal, o zelador da escola, onde todos estão querendo crescer com a promessa de que tudo, no final, terá sentido, o grande prêmio te espera.
Mas eu, serei engolido pela rotina, pelo capitalismo, pelo comum, e poderei comemorar qualquer dia que eu comprei um carro de 20 anos atrás com um preço legal, porque está fazendo um barulho no motor.
O zelador que dá oi pra todo mundo, mas que, fora do oi, só fica limpando a sujeira que a cultura e o conhecimento deixam no chão, nas paredes, nos banheiros.
Música: School – Nirvana
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