quarta-feira, 11 de junho de 2025

Tudo Bem

Às vezes me pego encarando a cartela de remédios e fico pensando: como foi que eu cheguei nisso?
Como foi que eu acabei tendo que tomar remédios pra dormir, pra acordar, pra ansiedade?

É bem mais fácil lembrar quando as coisas aconteceram, quando você bateu no fundo do poço e ficou morando lá por um tempo. Mas é esquisito, porque às vezes eu esqueço quando tudo começou.

O mais estranho, mesmo, é lembrar. Pensar nas primeiras coisas que me fizeram perder o sono, nas primeiras vezes que tive que esconder o que sentia. E aí me pego lembrando que, quando moleque, eu via as coisas acontecendo no mundo dos adultos, entendia um pouco do que estava rolando. Claro que não vou dizer que eu era um gênio que sacava tudo, mas o foda mesmo era perceber que eu não podia perguntar o porquê das coisas. Estavam sempre todos muito preocupados, ocupados. E isso me fazia sentir que eu não deveria dar mais preocupações. Então, eu me fechava jogando videogame, escrevia as coisas... E quando me perguntavam se estava tudo bem, era só uma resposta genérica: "tá sim", e voltava a olhar para o jogo.

As noites eram longas, e eu pensava e repensava em tudo o que tinha ouvido por tabela, tudo o que tinha visto entre uma pausa e outra do jogo.

Incrível como o ser humano se adapta a qualquer situação — mas não sem um custo, não sem uma conta pra pagar nos anos seguintes, nos anos em que sua voz começa a ser ouvida e você só responde com um genérico: "tudo bem".

Aí você volta pra caixa de remédios e pensa: “não vou tomar hoje, isso não está fazendo efeito nenhum. Todas as coisas ainda estão aqui”.
E substitui o "tudo bem" por quetiapina e paroxetina, e se sente um impostor, alguém quimicamente modificado. Porque tudo ainda está ali, mas você suprime a cada comprimido.

Mas aí, depois de hesitar, de ir ao banheiro dar uma mijada, depois de fumar um cigarro, você se olha no espelho e percebe que as olheiras diminuíram. Que, apesar de todas as coisas darem a impressão de te quebrar, você ainda está ali — não inteiro, não totalmente bem, mas melhor do que se ficasse respondendo genericamente pra você mesmo: "está tudo bem".

Claro, a ansiedade te joga milhares de preocupações irreais na cabeça. Te faz pensar, inclusive, no que o remédio está fazendo.

É estranho se conhecer. E depois dar risada sozinho porque esse comportamento é completamente previsível — porque você sabe que, no final das contas, se conhece muito melhor do que quando tudo começou, do que quando ia empurrando com a barriga.

E no final, com um copo de café, eu tomei meus remédios e me preparei pra ir trabalhar.

Música: The Kids Aren’t Alright – Offspring

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