segunda-feira, 30 de junho de 2025

Eu odeio escrever

Como eu não gostaria de ter motivos para escrever, como eu queria poder ficar de boa e viver uma vida onde eu não tivesse essa necessidade patológica de dizer o que sinto através de palavras escritas.

Isso iria me poupar de topar com figuras que dizem que tudo tem que ter poesia, onde o bem escrito é mais importante que escrever por si só; ter que bater de frente com os literários que tratam seus textos como maravilhas, algo tão importante que todos deveriam ler, todos deveriam mergulhar na profundidade de seus dizeres.

Como eu gostaria de não ter que ficar cuspindo cada derrota, cada pingo de ódio, cada tristeza nas linhas da minha biografia não autorizada. Eu odeio escrever, escrever é chato pra caralho, escrever demanda analisar a própria merda e dizer como ela fede, como ela parece, qual a textura. Isso é horroroso, é desgastante, é um atrito eterno do que eu penso com o que querem que eu pense.

Mas, ao mesmo tempo, como é divertido ver alguém ficar puto com o que eu escrevo. Puta merda, é como se, em meio a tantas derrotas, tantas merdas, eu pudesse, desse tamanho minúsculo que sou, incomodar quem faz da sua obra uma fortaleza. É como se, a cada resquício de ódio, de tristeza e podridão jogada na cara, mostrasse para o escritor: “é disso que você é feito”.

Ah, a liberdade de podermos pensar que não somos especiais, não somos únicos, não somos o ápice da humanidade, não somos seres dotados de uma luz que ilumina o caminho dos ignorantes. Isso é sensacional. É, por vezes, o que me faz escrever: o não ser especial. Só ir jogando migalhas, batendo cinzas de cigarro pelo caminho. Pelo cheiro de nicotina, já passei por aqui.

Mas, como falei no início, ter motivos para não escrever seria sensacional, porque se eu não tivesse, eu poderia estar fazendo algum curso, indo pra academia, fazendo ioga, controlando a alimentação, vivendo como um ser humano saudável e feliz. Poderia estar colocando a minha vaidade no carro popular que comprasse, poderia colocar minha vitória nos quilos a mais que levanto no supino, colocar minha saúde na alimentação sem açúcar ou colocar todo meu conhecimento e minha erudição em um poema lindamente escrito sobre amores possíveis, aqueles que, de tão sensacionais, virariam tema de filme: uma comédia romântica onde, no final, tudo dá certo.

Podia tentar ser um cara que escreve coisas para as pessoas viajarem em uma história muito bem escrita, onde há um arco de construção de personagem, utilizando um método literário incrível, para que, no final, as pessoas que terminarem o livro olhem para o vazio, suspirem e pensem: “que obra maravilhosa, que história incrível”.

Não. Eu fui condenado a pensar enquanto vivo, mas não o pensamento romântico, o pensamento com sentido ou o diagnosticado por um profissional. Não, é o pensamento imbecil, podre, idiota, de alguém que está no meio da merda, sente o cheiro, fica com nojo, mas não consegue sair, não consegue fazer de conta que tudo vai acabar bem. O pensamento de quem vê que está todo mundo incomodado com a bosta, mas não entende por que ela não é limpa, e ao mesmo tempo sabe que faz parte do coletivo que não tem pá e nem vassoura pra recolher a bosta e jogar no lixo.

Esse fluxo constante de pensamento, que não é algo que grita, mas são como páginas escritas em tempo real, me faz observar cada pequeno tique do mundo, cada gatilho apertado com a intenção de fazer alguém sentir algo, mesmo que seja ruim. E essa dinâmica me faz escrever mais páginas, mais coisas. Vou escrevendo exatamente como está aqui: cada bom dia robótico, cada “tudo bem” por conveniência, cada pessoa olhando hipnotizada para a sua tela e vendo as aleatoriedades junto com o trabalho.

Como eu queria ter motivos para não escrever sobre quase tudo que penso. Puta que pariu, é horrível, é uma sensação horrorosa saber que você está cuspindo os dentes depois das porradas que a vida te dá, e, para sair bem no story, o mundo oferecer uma dentadura a preço injusto, mas, pelo menos, na foto você vai ter um sorriso bonito.

Música: I Against I - Bad Brains

domingo, 29 de junho de 2025

Pode ser em qualquer lugar

Eu vou escrevendo como se fosse alguém com síndrome de Tourette — às vezes eles são longos e repetitivos, às vezes são curtos como um "foda-se" dado na hora errada.

Não tento polir, não fico relendo dez vezes para tentar parecer culto, foda... Eu simplesmente retrato o caos como ele é, como ele está em mim. Não é algo justificável, é como eu vivo — as coisas vão acontecendo e eu vou narrando os fatos e sentimentos como eles aparecem, quase como um grito no silêncio, como um punk rock de um minuto, como um cigarro que faz você parar um pouco de viver de forma robótica.

Sou um viciado em realidade. As coisas têm que doer da maneira que têm que doer; só assim eu não me sinto um cadáver que anda. Ah, hoje eu vou escrever; ah, hoje eu quero que o mundo se foda, e eu vou viver no mínimo esforço.

O pensamento pode vir de absolutamente qualquer lugar. Eu não ligo para onde estou, o que estou fazendo na hora — o bloco de notas é aberto e começam a sair as frases, os pensamentos escorrem, geralmente enquanto eu fumo meu cigarro. Não ligo se será lido, se será apreciado, não faz diferença pra mim. Eu escrevo para não apodrecer, já que esse vício em realidade tem como efeito colateral ficar observando tudo ao redor, quase como um paranoico.

Existem vários motivos pelos quais escrevo; alguns eu já coloquei em textos, outros vão aparecendo conforme eu me lembro ou conforme eu fico bêbado em algum fim de semana que meu filho não está aqui.

Ficar trocando facadas com um espelho quebrado, onde eu fico me desafiando a pensar, a falar, é meu esporte favorito, pois cada gota de sangue no chão conta um pouco do que eu sou. Ali tem meu DNA, ali tem vida, que depois de um tempo seca e fica somente como uma mancha vermelha no piso, onde pessoas vão passar por cima e nunca vão imaginar que alguém sangrou ali.

Algumas vezes eu me sinto um objeto estranho no meio do organismo vivo que é a sociedade. Olho para as coisas e pessoas e não me sinto parte daquilo — é como se eu estivesse sentado no meio-fio vendo os carros cinza passando na minha frente, indo para lugares aleatórios, porque todos precisam chegar a algum lugar para que as suas vidas tenham sentido, e eu ali, olhando aquilo com um olhar meio de quem pergunta o que tá rolando, onde essa fila leva, mas não querendo entrar porque a fila já está muito grande.

Incrível que, em meio a todo o caos da minha mente, eu seja funcional; que eu consiga desempenhar um papel tal como um ator coadjuvante na vida das estrelas que, sempre com seus métodos, seus estilos de vida, estão produzindo obras e mais obras memoráveis que irão ser esquecidas depois que morrerem.

Enquanto todo mundo tenta construir um castelo para dizer que a vida valeu a pena, eu escrevo pra dizer que eu estive por aqui: sem pressa, sem uma ambição capitalista de me fantasiar de bem-sucedido. Sempre ouvi desde criança que o verdadeiro cara foda era o que saía de casa com um real e voltava com dois. Talvez por isso eu tenha ficado mais em casa jogando videogame, ou simplesmente escrevendo, lendo alguma coisa aleatória. Eu não tinha um real pra sair, e muito menos a possibilidade de voltar com dois se caso eu saísse.

No final eu fico nesse embate comigo mesmo, às vezes na rua, às vezes em casa. Não há local definido — só que, se for com um cigarro na boca, é sempre melhor.

Música: This Could Be Anywhere — Dead Kennedys

sábado, 28 de junho de 2025

Nem pra isso eu sirvo

Eu já escrevi tantas cartas de suicídio na minha vida que não tenho ideia de quantas são, também não tenho ideia do que escrevi nelas. Nelas coloquei todo o peso daqueles dias; algumas vieram com tentativas frustradas, outras vieram com o desejo não de me matar, mas de que acidentalmente alguma coisa acontecesse para eu morrer, sabe, um acidente, um ataque cardíaco, coisas assim, onde você não se dá ao trabalho de agir, mas sim só de esperar a morte chegar.

Mas uma coisa eu lembro que eu disse em todas elas: ADEUS. Todas elas eu terminei assim, me despedindo, mandando um "não quero ver mais nenhum de vocês, nem no inferno".
Mas nunca foi um adeus de verdade, foi sempre um até logo, sempre seguido das cartas o pensamento: "nem pra morrer eu sirvo", e isso foi seguindo durante a vida, morrendo um pouco por dia, as pessoas insistindo em comemorar mais um ano de vida. Que merda. Odeio fazer aniversário, aquela coisa de receber parabéns, presentes, uma babação de ovo do caralho. Ninguém, durante o ano, fala um "a" pra você, não se importa.

As coisas vão acontecendo, uma rotina, não tem como escapar. Você sai de uma e vai pra outra, e toda essa repetição, esse padrão, essa norma que se segue, é o que chamamos de viver a vida. E é foda pensar que eu estou preso a padrões de comportamento que tenham que me validar minimamente para o mundo, aquela coisa do "você tem que fazer isso, tem que fazer aquilo, não pode fazer isso ou aquilo".

Vamos cortando as coisas que nos dão algum tipo de prazer por medo desse prazer nos matar. Aí cortamos algumas coisas que comemos, cortamos hábitos ou mudamos o mindset para sermos produtivos em vez de preguiçosos em nosso tempo livre. Vamos cortando relações, vamos cortando atitudes, e quando vamos ver, já não estamos diferentes de quem corta os pulsos e é achado desacordado na banheira, com toda aquela cena triste, para depois acordarmos e pensarmos: "nem pra isso eu servi".

Hoje minha maior morte é ficar vivo todo dia, meu maior suicídio é olhar para a cara de toda uma vida que quer me quebrar, acender um cigarro e depois mandar um dedo do meio. Você quer que eu morra? Ok, eu vou morrer, provavelmente de algo que eu mesmo escolhi, como o cigarro, mas não vai ser na hora que você me deixar na pior, vai ser na hora que meu corpo não aguentar mais. Minha cabeça não está blindada, não é que coloquei máscara para não sentir o cheiro da merda, mas sim o fato de eu saber que tudo está ali, do jeito merda que é pra ser, que sempre foi, e o mundo não vai ser melhor se eu morrer, do mesmo jeito que ele não vai ser melhor se eu ficar. É só viver de pirraça.

Não existe maneira mais eficaz de me matar do que deixar eu morrer no meu canto, sem ninguém encher o saco.

Música: Cyco Vision – Suicidal Tendencies

sexta-feira, 27 de junho de 2025

Ralo

Desde criança, me parece que eu fui um ralo aberto, aquele que suga toda a enchente da vida dos outros, mas que, de certa forma, nunca pôde falar das coisas que eu sentia.

Tipo, é como se eu tivesse sido o ponto de equilíbrio de muitas situações, onde, se eu estava mal, era motivo para tudo estar uma merda para as outras pessoas — e isso jogava uma culpa em mim: “Como você, que tem tudo, ousa ficar triste?”

Eu me lembro que, quando criança, eu escutava minha mãe reclamando das coisas, falando sobre como a vida dela foi pesada, das coisas que ela passava, tanto naquele momento quanto antes de mim — e talvez por isso eu tenha um vocabulário, uma facilidade para falar sobre derrota.

Não a culpo por nada, não mais.
Eu entendi, depois de muito tempo de vida, que eu era quem estava ali para ela, quem a ouvia, mesmo que ela achasse que eu não entenderia o peso das coisas.
Mas, de alguma forma, as crianças entendem.
Por isso eu parei de acreditar em heróis — pois ninguém tem o poder de fazer tudo parar, te resgatar e te colocar em segurança, em um lugar confortável, um lugar onde as coisas não doem.

Hoje eu sou um cara que entende que a derrota é a maior parte da vida, onde a realidade está no ordinário, não nas palmas falsas de uma conquista genérica que geralmente é importante para um mundo genérico, mas não para um nível existencial.

Ouvi frases, vi coisas que provavelmente não precisaria ter visto, mas, ao mesmo tempo, foram coisas que eu precisava ver para poder pensar, para poder, em meu silêncio, remoer palavras, analisar pensamentos, ver as dinâmicas e entender que eu sou só mais uma engrenagem no meio disso.

Entender que a história vem de muito antes de mim, e continuará muito depois.
Entender que só tenta não errar quem reconhece que já errou — e isso é algo que eu penso muito:
as pausas para o cigarro, os silêncios, os tempos de espera entre um atendimento e outro, ou em cada coisa que eu escrevo.

O mundo te ensina que você tem que ser o que ele quer, ou seja, um nada, uma coisa, um número gerando números — e isso, para quem tem o mínimo de sanidade mental, é como contar os dias em uma prisão.
Vivemos contando quanto tempo falta para o almoço, quanto tempo falta para uma pausa, quanto tempo falta para irmos embora, quanto falta para terminar o livro — e esse pensamento vai fodendo nossa cabeça, porque contamos tanto quanto falta para algo que, no final, não temos tempo pra porra nenhuma.

Quanto será que falta para eu achar que esse texto está completo?
Não sei, ele nunca estará completo.
Talvez por isso eu escreva: não para completar nada, mas só para não ficar sendo esse ralo que só suga as coisas e não entope, não dá problema — e que, entre as horas que faltam para alguma coisa, eu consiga preencher escrevendo.

Música: Death Letter – White Stripes

quinta-feira, 26 de junho de 2025

Um moleque com distorção

O pessoal sempre saía na rua para brincar, sentar e conversar, e quase sempre estava eu lá, tirado de dentro da minha casa. E, quando isso acontecia, quase sempre eu levava o violão — e não era para tocar para os outros, não era pra mostrar que eu sabia tocar, era porque eu ficava treinando, pegando alguma música e não ficava querendo ser antissocial, o chatão que nunca saía na rua, apesar de eu já ser visto assim.

Em alguns desses dias, o pessoal ficava com vontade de aprender, montar uma banda, era legal isso, tanto que o baixista, meu melhor amigo, aprendeu a tocar comigo ensinando ele porcamente como tocar — mas isso é história para outro dia.

Diante desse cenário, um dos pais dos amigos da rua me via com o violão e me perguntava sobre alguma coisa de música, e eu respondia, até que um dia ele me convidou para entrar na casa dele para me mostrar algumas coisas, já que ele já tinha tocado guitarra quando mais novo.

Chegando lá na casa dele — onde eu já tinha entrado por causa do meu amigo, onde íamos jogar videogame às vezes, assim como íamos na casa de quase todos, menos na minha, já que minha família não gostava de gente entrando em casa, principalmente meu pai... Enfim — já lá dentro, ele me apresenta a guitarra dele: uma Dolphin preta com ponte Floyd Rose. Algo absurdo pra mim na época, já que eu era um moleque que, no máximo, fazia era ver as guitarras penduradas nas lojas, onde sempre parava e ficava vendo elas ali, mas nunca tinha coragem de pedir para pegar uma na mão. Porque, além de não ser minha, eu tinha vergonha de não saber porra nenhuma de guitarra, nunca fiz aula, então o que eu sabia era alguma coisa de Ramones, porque foi a diversão quando descobri os power chords.

Voltando à casa do pai do meu amigo, Benedito, ou somente Dito, um cara magrelo, alto, com um bigode de Belchior, uma cria dos anos 70, ele, depois de me mostrar a guitarra, me mostrou o amplificador que ele tinha: um monstro, um Ciclotron PR140, um monstro, e dois pedais, dois da Oliver, um Chorus e um Overdrive. Ele me mostrou aquilo, e eu, obviamente embasbacado, fiquei sem muita reação, apenas pegando na mão o pedal, sentindo o peso daquela caixa de aço com um circuito para efeito. Era algo fora do que eu já tinha pensado, ter algo concreto de guitarra assim na minha mão.

Depois ele pegou a guitarra, que estava impecável, apenas com a marca do tempo, mas afinada, e o charme da correia de couro desgastado. Ele a colocou no meu colo e começou a ligar os equipamentos, e nesse momento eu comecei a gelar, porque eu nunca tinha, até então, tocado guitarra assim, e não sabia o que estava por vir, aquela caixa imensa que me dava a impressão que eu iria explodir a casa a hora que tocasse.

Mas não: volume no dois. O primeiro toque na corda mizona, e aquele som. Sim, eu estava eletrificado pela primeira vez. Muito bom. Ele olhou pra minha cara como quem diz: pode tocar, vai lá! E eu, de maneira tímida, fiz alguns acordes. Eu não lembro exatamente que música eu tentei tocar, nem nada, mas sabia que era um momento único. E então ele pede para eu apertar com o pé o pedal de Chorus, e quando eu aperto, automaticamente aquele efeito me lembrou Come As You Are, do Nirvana. Caralho, eu conseguia tirar igual eu ouvia no disco. Claro, não era igual, mas era parecido como nenhum violão conseguiria tirar.

Logo depois eu desliguei esse efeito e fui para o Overdrive, e outra surpresa: o som rasgado, eu estava fazendo rock, eu era uma estrela, eu não era mais um moleque, eu era um moleque com distorção.

Dito, ali vendo aquela cena, deixou eu brincando com a guitarra, com os efeitos, e, para terror dos vizinhos, ele elevou o volume até o 5, onde eu dei uma risada gigante, pois, pela primeira vez na vida, eu tinha entendido o termo "som porrada".

Não fiquei muito ali, eram umas oito da noite já, e eu fiquei com medo da minha mãe ficar brava de não estar em casa, e nem estar à vista na rua, então decidi terminar a brincadeira por ali e ir para casa.

Benedito virou ali mais um amigo e me disse que, sempre que eu quisesse tirar algum som, eu poderia ir na casa dele e chamar. Ele estava há muito tempo sem tocar, e era legal ver os equipamentos dele sendo usados com empolgação outra vez.

Dito foi personagem de mais histórias, que talvez um dia eu continue contando, mas, por hora, me lembrei dessa.

Música: Come As You Are – Nirvana




















quarta-feira, 25 de junho de 2025

Bolso furado

Ah, sempre me lembro que preciso comprar calças novas quando coloco a mão nos bolsos. Geralmente, isso acontece quando saio do trabalho ou quando perco algum isqueiro no meio da rua.

Interessante que, assim que chego em casa, esse pensamento desaparece. Afinal, é hora de tirar o uniforme, tomar um banho relaxante, jantar, tomar meu remédio para dormir e só lembrar que os bolsos da calça estão furados amanhã, na hora que eu voltar.

Legal que eu não lembro dos bolsos na ida ou durante o dia. Acho que é porque, de alguma maneira, coloco menos as mãos no bolso — não me pergunte o porquê, não sei. E percebo que não colocar as mãos no bolso é apenas uma das coisas que eu não faço durante a maior parte do dia. Até porque, se eu pensar no que eu vou fazer no dia, eu não levanto da cama. Acho que é assim com todo mundo um pouco.

Durante a ida eu penso, e vou me ligando aos sons da rua, à luz do sol, a como está o tempo, fazendo uma pequena análise mental de onde eu estou e pra onde eu estou indo, já que é um processo robótico: acordar, cagar, fumar, tomar banho, me trocar, escovar os dentes e ir trabalhar. Já se tornou um espasmo involuntário isso, como um cadáver que ainda tem espasmos mesmo depois de horas na geladeira do IML.

Os bolsos furados seguem, e me incomodam só quando volto do trabalho. E o que faz isso mais curioso é que eu uso a calça jeans para tudo que eu for fazer fora de casa. Eu sempre estou vestido da mesma maneira, como o Doug, que usa sempre a mesma roupa e só é representado diferente em episódios especiais ou quando está de pijama.

É uma maneira neutra de se viver, já que a repetição se esconde no meio do caos, vira uma imagem que já não tem tanta importância. E talvez esse meu jeito de me vestir seja apenas isso: uma maneira de, mesmo com meu estilo, não chamar a atenção.

Música: False Hope – The Unseen

terça-feira, 24 de junho de 2025

Nada de novo no trampo

Olhando para a tela, sem clientes para atender, girando o meu fidget spinner para controlar a ansiedade e bater menos o pé, pensando em escrever, ao mesmo tempo que penso: como eu cheguei até aqui?

Como cheguei a um ponto onde eu simplesmente existo como um número, um registro, um holerite, uma idade — e nada disso dá significado à minha existência?
Fico com a mente viajando para vários lugares, todos tão absurdos quanto estar aqui, sentado nessa cadeira que é um pouco diferente das demais, e que eu consegui conquistar enquanto ninguém estava olhando.
Estou em algo que alguns diriam que é zona de conforto, mas essa zona de conforto só existe para os que acham que a vida e o sucesso seguem um manual, os que postam suas conquistas, suas vitórias no LinkedIn, no Instagram, porque no final tudo vale a pena.

Interessante como um fluxo de pensamento pode ser a resistência real ao absurdo de se estar aqui durante a maior parte do tempo útil de vida. E esse senso coletivo que faz pensar: “ah, se eu estivesse em casa, eu não estaria fazendo nada”.
Mas porra, não é bom não ter que fazer nada?

Muitas perguntas, poucas respostas. Talvez eu nunca as encontre realmente, nem faço questão disso. Só vou documentando minha queda psicológica de cada dia, onde minha TAG e depressão são controlados por paroxetina e quetiapina, mas muito mais pelo fato de eu não ter tempo de ser uma pessoa real e acumular fadiga e incoerência durante 8 horas na escala 6x1.

Bom, pelo menos consigo colocar o Spotify rolando a minha playlist enquanto não atendo nenhuma ligação.
Marco cada uma hora do dia para fumar um cigarro, sempre a cada 50 minutos ou uma hora e pouco de diferença.

Começo a ver os colegas que saem uma hora antes do meu almoço e penso: “nossa, já chegamos à metade do tempo de trabalho, que merda, é igual ontem”, mas pelo menos minhas métricas de atendimento estão boas.

Chegaram dois novos "colaboradores" esses últimos meses, e eu sei que eles, para mostrarem serviço, vão puxar mais atendimentos. Então caí para terceiro lugar, o que era esperado, faz parte do cálculo mental para não ter motivos para alguém vir me encher o saco dizendo que eu faço pouco.

Não demoro muito com os clientes, não fico puxando papo, nem atendo com ternura. Eu simplesmente ouço o que está acontecendo; se consigo ajudar por aqui, eu ajudo. Se não, abro chamado e próximo da fila.

Enquanto escrevo esse texto, fico observando as pessoas e me sentindo um ET aqui. Não tenho pretensões ou alguma ambição. Eu, se puder, fico aqui durante 20 anos — só basta ninguém me encher o saco ou vir algum marketeiro falando que precisa mudar o jeito da empresa, falando que as pessoas têm que estar mais motivadas.

Porra, a minha motivação é poder receber no fim do mês. Não precisa de palestra do Cortella ou Karnal para me mostrar que, para que eu seja feliz, eu não posso ser medíocre — o que, em outras palavras, é: venda seu tempo sorrindo para alguém que te paga o suficiente para que o orçamento e o lucro da empresa não sejam afetados, assim o patrão pode desfilar com sua Porsche Cayenne de mais de um milhão de reais.

As muitas abas abertas no meu navegador são basicamente como meu cérebro funciona: cheio de pesquisas e ferramentas diversas.
Mas eu tenho que tomar cuidado, porque é foda perceberem que eu estou com o bloco de notas aberto e escrevendo tudo isso aqui.
A minha sorte é que a tela do meu computador fica virada para o lado oposto da entrada principal, então tenho uma certa privacidade.

Eu escrevo textos que me mandariam embora se os meus chefes lessem, mas nunca que meus números justificariam isso. Você só precisa se manter jogando um amendoim a cada reclamada do elefante, para ele ficar calmo.

E, em meio a tudo isso, eu fico pensando aqui: o que será que eu vou fazer nas férias?
Talvez ficar sem fazer porra nenhuma, só jogando e me divertindo de maneira simples.
Mas quero ver se consigo que meu filho fique 15 dias comigo, é bem mais divertido com ele.

Enfim, eu sigo escrevendo e jogando no papel o que o pessoal não gosta de mostrar no story do Instagram: a cara cansada de quem perdeu o sono às 5 da manhã e teve que entrar no trabalho ao meio-dia — e vai ficar aqui até as oito e vinte.

É, tenho que vestir essa fantasia de palhaço social para não ser sufocado pelo mundo e suas convicções de que tudo tem sentido.

Música: Pretty Vacant - Sex Pistols

segunda-feira, 23 de junho de 2025

O Zelador

Já existem muitos escritores importantes. Ainda bem que eu não sou um deles, porque assim eu posso escrever sobre qualquer merda sem precisar mirar no pódio, no status.

Posso me servir da mediocridade, da rotina, do nada, da preguiça e escrever como eu quero, sem ninguém vir me encher o saco com a literatura.

Durante a vida, eu fui abandonando coisas que eu gostava de fazer, tudo em nome da vida funcional — nem da financeira, até porque eu duvido que alguém que realmente deixa algo para trás esteja realmente bem financeiramente —, mas isso é só uma prova de que a vida é um eterno perder, e isso te tira muito da pressão por ganhar.
Claro que o ego merece um afago em algum momento, um elogio cai bem, mas eles geralmente, em excesso, dão dor de cabeça, e a ressaca depois não deixa você ser minimamente você mesmo.

Então o fato de eu escrever tanto e de qualquer maneira é realmente o que me faz pensar que eu sou hipócrita, mas pelo menos consciente — ou acho que sou —, já que escrevo fluxos de pensamentos.
E sim, eu penso o tempo todo, sobre as mais variadas coisas, então algumas delas viram textos, outras viram apenas fumaça depois das tragadas do meu cigarro — esse sim que não me abandona, mas, como traidor do jeito que é, me escapa quando não tenho dinheiro. É um filho da puta.

O ato de escrever sobre coisas aleatórias me fez parar de escrever cartas suicidas, e com isso eu retomei meu lugar nessa corrida por ser relevante: o meu lugar ali, sentado no banco da praça, fumando enquanto vejo todos suando para chegarem ao topo, receberem seus prêmios, medalhas, ouvirem dizer quanto são representativos, quanto são heróis, o quanto são exemplo para aqueles que, como eu, estão rindo da caricatura que a pessoa se torna após a vitória.

Existem muitos bons escritores; alguns eu já cheguei a começar a ler, mas, como a maior parte das pessoas, canso diante de tanta genialidade.
Então, por isso, eu faço o básico — e o básico dá trabalho pra caralho, porque, para ser básico, eu preciso de um ecossistema de merda ao meu redor.

Não serei lido, não serei reconhecido pela escrita, no máximo vou continuar sendo o que sou: um cara que escreve sobre o banal de maneira banal, o zelador da escola, onde todos estão querendo crescer com a promessa de que tudo, no final, terá sentido, o grande prêmio te espera.
Mas eu, serei engolido pela rotina, pelo capitalismo, pelo comum, e poderei comemorar qualquer dia que eu comprei um carro de 20 anos atrás com um preço legal, porque está fazendo um barulho no motor.

O zelador que dá oi pra todo mundo, mas que, fora do oi, só fica limpando a sujeira que a cultura e o conhecimento deixam no chão, nas paredes, nos banheiros.

Música: School – Nirvana

domingo, 22 de junho de 2025

Ex-Sonhador

Eu já fui um sonhador, daqueles que pensava, idealizava, tinha esperança de que algum dia tudo teria algum sentido, algum valor. Claro que isso dentro do que eu sempre fui: um fumante cínico e niilista. Estranho, né? Meio contraditório, mas sim, é isso que me define como humano: o atrito, o não entender porra nenhuma.

Hoje, não é que eu não sonhe, mas sei lá… pra mim não faz mais sentido viver a vida correndo atrás de um horizonte, tipo aqueles horizontes de jogos de videogame antigo, que só estão lá para dar uma noção de onde está, não de onde pode chegar.

Eu não lembro dos meus sonhos quando acordo. Mentira, até lembro de alguns, mas eles fazem tanto sentido quanto estar acordado e vivendo uma repetição de dias, esperando algo diferente acontecer.

Enfim, não tenho mais aquele sonho romântico de roteiro de filme de Hollywood, com aquele final apoteótico ou que tenha pelo menos uma lição no final. Não. Eu sigo vivendo, tragando, bebendo, olhando o mundo ao meu redor, cuidando do meu filho e sentindo saudades da voz dele. Sei lá… acho que é minimamente honesto não ficar nessa masturbação social de tentar ser mais do que é, já que, diante de absurdos de autoajuda, os passos para o sucesso são simples: só ter um tênis melhor que os outros milhões que estão tentando seguir o mesmo caminho.

O homem sempre foi absurdamente genial na questão de tornar ele mesmo obsoleto, de se minimizar em nome de uma falsa evolução, para ser descrito depois como extraordinário. Gente que olhou adiante, foi além do horizonte, cagou para os limites e fez com que, mais do que nunca, muitos milhões de pessoas ficassem atrás dele, mas não ao seu lado.

É aquela coisa: no final, a foto de um pet sempre terá mais curtidas do que um espelho que cospe o ego. Afinal, o pet só precisa ser bonitinho e ter ração de qualidade no final.

Sobre o que eu tava falando mesmo?

Música: Valeu memo – Surra

sábado, 21 de junho de 2025

Não depilei meu saco

Um grande preço que se paga em ser você mesmo é que, geralmente, você não é todo mundo, e isso incomoda quem quer atenção o tempo todo, aquele que quer que a vida seja um palco, um momento onde ele brilha.

Gosto da minha vida, mas não num sentido orgulhoso, não no sentido piegas. Sei lá, eu só gosto de poder pensar em nada e nem ninguém por um momento, poder não responder, sem aquele papo furado de quem quer dar um jeito, até porque às vezes não tem jeito, tá tudo fodido, e tá tudo bem.

Quantas vezes as pessoas falam que discordar de mim é receber um silêncio, mas a grande questão é que, geralmente, antes de discordar por alguma posição, antes querem provar que você está errado. E não tenho como ver por outra ótica a não ser a minha; não existe o imparcial, e o fato de não querer ser isso, de não ficar me pintando como um cara acessível, fode meio mundo.

Eu deletei Instagram, Threads e as redes sociais porque, sei lá, estava começando a me ver como um personagem, onde já se esperavam coisas de mim: um jeito, um post, uma palavra que diz que “esse é o Marcelo”.

E, na verdade, tudo que eu faço é fumar meu cigarro, pensar pra caralho nas coisas e colocar elas no papel, sem ficar pensando muito na polidez, no impacto. Eu sou um cara comum que faz coisas comuns, mas que não tem vergonha de falar que liberdade de verdade é cagar de porta aberta, demorar no banho, jogar um jogo merda, esperar meu filho chegar para eu ficar jogando com ele até o dia clarear.

Ninguém é coeso o tempo todo; as sombras, as merdas estão ali moldando como vejo a vida. Porra, já me machuquei, já fiz merda, já fui a causa e a consequência de muitas coisas, e algumas delas que eu nem vi, nem sabia.

Meus relacionamentos diversos, com pessoas diversas, são uma prova de quanto eu posso ser um escroto e quanto eu posso ser legal. Sei lá, não vou ficar me afirmando em qualquer lado; não dá pra dizer “nunca serei isso ou aquilo”, porque, no final, a vida vai seguindo por uns lados meio malucos, e eu gosto dessa maluquice.

Agora, hoje, uma coisa que eu tenho medo, tenho real muito medo, é de alguém se apaixonar por mim, porque eu faço de tudo para não ser apaixonante. É chato pra caralho; você ser desejo de alguém te joga em um lugar onde você não está, é um lugar onde cada passo humano, real, é um convite à pessoa se desiludir. E eu não sou um iludido, e não quero iludir ninguém.

Não sou puritano, óbvio que não. Porra, eu quero transar como qualquer pessoa, quero beber e ficar maluco por um momento, poder rasgar a roupa e correr pelado. Mas sei que isso é um jogo arriscado; por isso eu escrevo, porque aqui você está me vendo pelado, e eu não depilei o saco — tenho medo de cortar o pau fora. E sim, eu sei que é idiota, mas, no final, eu sou isso: um idiota, mas pelo menos faço as pessoas darem risada.

Música: Ramones - Cretin Hop

sexta-feira, 20 de junho de 2025

Entre um acorde e outro

É realmente muito bom quando você está navegando pelas músicas e estilos musicais que você gosta, e do nada encontra uma banda legal, um som bom, com os acordes que fazem sentido para você — como se você encontrasse a posição confortável no sofá e não quisesse sair mais.

Então, às vezes isso acontece, e é um momento onde a solidão faz sentido, é onde os acordes conversam. Eu tenho essa maluquice, às vezes, de ficar ouvindo milhões de vezes o mesmo álbum, a mesma música. Fico pensando quais as notas… Acho que hoje à noite eu vou pegar a guitarra pra tentar tirar alguma coisa.

Mas, ao mesmo tempo, consegui voltar a jogar alguma coisa legal, algo que realmente faz eu não ver o tempo passar, me divertir, não querer fumar, não querer beber, não querer mandar todo mundo à puta que pariu.

Interessante que eu vivo nessas minhas ausências sociais. Sabe aquele momento onde você pode ser só um cara esperando nada, jogando um jogo, escutando uma música? Aquele momento onde você não produz porra nenhuma, onde não tem que jogar com a expectativa de ninguém, onde você ignora todas as mensagens, os pedidos.

Claro que eu estou escrevendo no trabalho, não no momento em que eu estou jogando, mas estou com a música de fundo, mantendo o ritmo na cabeça, dando risada mentalmente dos fodidos como eu que estão preocupados pra caralho com o trabalho.

Não é que eu não me importe com o trabalho, não é isso. Eu só acho que nenhum CNPJ vale meu CPF, então eu sigo meio cínico, mas fazendo o jogo dos números.

E meus pensamentos e textos caóticos saem desse emaranhado de coisas que todo mundo, de certa forma, pensa, mas deixa de lado porque parece não fazer sentido — o que é uma verdade e uma mentira, porque, se algo ficou na sua cabeça tempo demais para te incomodar, então melhor escrever, ler, jogar ou simplesmente mandar tudo pra merda.

Tipo como agora, que eu começo o pensamento de um jeito, e as páginas vão virando na minha cabeça, e do nada o pensamento vira algo profundamente chato pra caralho, onde eu analiso, fico vendo os padrões, tanto meus quanto dos outros, e pensando, pensando, com a trilha sonora que eu estou viciado no momento.

Música: Target Killer — MK Ultras

quinta-feira, 19 de junho de 2025

Parei de contar no quarto litrão

Como uma Coca-Cola gelada melhora a ressaca, puta merda.  

Finalmente saí para beber, para quebrar a rotina, para interagir com pessoas fora do ambiente de trabalho. Tudo bem, foram as pessoas do trabalho, e eu, como o cara mais velho do rolê, dei umas risadas, falei umas merdas e parei de contar depois do quarto litrão.  

Estava precisando me sentir um merda no dia seguinte — sem conseguir abrir o olho direito, colocando punk rock para embalar a dor de cabeça, tomando minha coquinha e fumando meu Lucky Strike (aliás, comprei dois maços porque sabia que um acabaria na área de fumantes do rolê).  

Sentir que está vivo além da rotina, além do óbvio.  

Não fiquei muito bêbado, fiquei o suficiente: o bastante para zoar meio mundo e cuspir um pouco na cara de cada um com a neutralidade de quem tá num rolê alcoolizado.  

Esse domingo meu moleque não veio, então vai ser um daqueles dias em que não faço nada — só fico escutando música, cagando mole (aquela cagada pós-bebedeira), talvez pegando algo pra jogar.  

Ou talvez eu durma até amanhã, que é quando volto ao trabalho para descobrir as histórias de cada um dos presentes no rolê.  

Música: Six Pack — Black Flag

quarta-feira, 18 de junho de 2025

Manual do funcionário fantasma

Vivo no capitalismo há bastante tempo.

E eu entendi algumas coisas. Uma delas é: trabalhe o mesmo tanto que te pagam.

Mas calma, não sou um vagabundo — e se você já pensou isso, provavelmente também já julgou que eu ganho mal. Bem, não está errado. Mas prefiro pensar que não ganho o suficiente para ser algo além de um cara que vai e volta do trabalho.

As pessoas querem números. Os chefes querem números. Eles não se importam com mais nada. Se os números estão bons, você está bem. Se estão uma merda, bom… você vai estar numa merda maior ainda.

Eu trabalho na ausência dos outros. Fico o tempo todo fazendo algo? Não. E por isso doso meu trabalho, para não precisar ficar pilhado o tempo todo enquanto estou aqui. Inclusive, escrevo durante o horário de trabalho — porque a revolta se manifesta a cada hora que penso que compro camisetas legais das bandas que eu gosto só para usar na sexta-feira, ou naqueles raros momentos em que fico animado o suficiente para existir além da rotina laboral.

Fico escutando minhas músicas, quieto, não chamando muita atenção. Porque quem chama atenção, quando quer ficar invisível, é visto. E quem não é visto nunca, é lembrado na hora do relatório de fechamento do mês: com um sinal verde, bateu a meta, é um bom colaborador.

Quantos clientes entram em contato comigo aqui, ou com qualquer outro, reclamando de mil coisas, e no fim não fazemos absolutamente nada… só falamos: "aguarde um momento… poderia testar agora para ver se melhorou?" — e a pessoa responde: "ahhhh, agora sim!"

Você, eu e qualquer um passamos por isso. Porque, na real, não entendemos porra nenhuma do problema que está acontecendo. Mas ligamos pro suporte só pra ter um motivo pra esperar cinco minutos.

A paciência que falta pra muitos é o que faz as metas de alguns serem batidas sem esforço.
Mas quem acha que isso não cansa, se engana. Cansa, e muito. Você tem que estar alerta o tempo todo, sempre pronto pra resolver o problema de algum cliente chato.

A rotina profissional consiste em um trabalho silencioso, repetitivo e chato, infinitamente piorado por chefes de merda ou clientes chatos pra caralho. Às vezes, os dois se unem para te dar um passe livre pro Burnout.

Mas, apesar de tudo, eu me divirto bastante pensando que escrevo coisas que provavelmente me fariam perder o emprego.

Falando nisso, vou me ausentar por cinco minutos para fumar um cigarro.

É mais honesto do que ir pro banheiro e demorar pra caralho, fingindo uma cagada remunerada.

Música: Can I Borrow Some Ambition? – Guttermouth

terça-feira, 17 de junho de 2025

Email à Lucky Strike

Queridos fabricantes da minha ruína pulmonar,

Escrevo para contar um pouco da minha história com a marca. Sempre fiquei encantado com a logo nas motos — ah, Randy Mamola era foda demais! Aquele bullseye vermelho sempre me chamou atenção. Mas, como eu era criança… bom, não preciso explicar.

Tempos depois, comecei a colecionar maços de cigarro, tinha muitos, mas o branco sempre se destacava para mim. Até que, um dia, eu comecei a fumar. Não vou contar aqui o porquê, não compensa. Mas é curioso: depois que comecei a sustentar meu vício, os Lucky sempre foram os meus preferidos.

Hoje ainda fumo, embora esteja meio merda de achar eles por aqui. Tento, ao menos, manter a fidelidade à marca. Durante muitos momentos merdas, pude sair um pouco, respirar — ou melhor, tragar — cinco minutos de fumaça. O cigarro virou personagem das minhas histórias, dos meus escritos. É interessante ver como, nesse mundo onde todos falam que isso ou aquilo faz mal, o cigarro destrói meus pulmões, mas me mantém, de certa forma, tranquilo… para não entregar os pontos.

O cigarro é, pra mim, muito mais tranquilo que a bebida — não gosto de me sentir bêbado, mas gosto muito de fumar meu filtro vermelho. Até porque, um filtro light só serve pra eu me enganar, achando que estou errando menos.

Não sou exemplo de moral — também não pretendo ser. Por isso escrevo essa carta: porra, vocês podiam ao menos me mandar um adesivo pra eu colar na minha guitarra, já que sou fiel a uma marca capitalista pra caralho, fumando enquanto falo mal do capitalismo… Hahahaha!

Irônico ou não, sei que não vão me responder — até porque esse e-mail é meio absurdo mesmo.

Mas convido os senhores a lerem meus textos no Substack: seminfluencia.substack.com. Vão ver que os cigarros estão lá, em todos eles.

Provavelmente, inclusive, esse e-mail será postado no meu Substack.

Grato,
Marcelo Moraes Bianchi
ou
Sem Influência

(Obs.: meus textos não são propaganda, mas, sim, prefiro um Lucky Strike a qualquer outro).

(Obs. 2: nunca escolho os maços que falam de impotência).


Sim, eu realmente enviei esse email.

Musica: No Cigar - Millencolin

segunda-feira, 16 de junho de 2025

Dor de Cabeça

Cara, estou com uma dor de cabeça esquisita. Não é aquela dor que realmente incomoda por doer, mas incomoda pela sensação que ela dá — uma sensação de corpo doente, meio enjoado, meio inquieto.

Bom, é uma dor de cabeça meio existencial, meio como se fosse um incômodo, um lembrete de que estou preso na rotina, no caos. Não é algo tão físico, mas sim algo abstrato. Mas, lógico, tem a dor física também — dependendo da posição que fico, ela vem.

Engraçado que eu estou enjoado do cigarro, estou fumando menos, e tudo isso me faz pensar: será que eu estou pegando gripe ou com outra coisa?

Tem a questão que é sexta-feira, fora que é o fim de semana que meu filho não vem. Então já vi que vai ser vazio, silencioso, chato pra caralho. E essa dor de cabeça esquisita me faz pensar… pensar no que eu vou fazer à noite, quando chegar em casa.

Recusei convites pra sair, essa semana foi intensa. Algumas coisas me deixaram meio mal. Recusei alguns rolês porque eu realmente não estou com saco pra ouvir o problema das outras pessoas enquanto bebo.

Porra, será que não dá pra ser mais ameno? Não dá pra sair pra falar merda, coisas tranquilas, sem um propósito por trás de tudo?

Eu sou um cara tranquilo, apesar de sentir as coisas de modo intenso, de pensar sobre elas… mas sei que às vezes o melhor é só seguir o nada, o absurdo, dar risada, beber e ficar bêbado, transar por transar. Não precisa que tudo tenha um significado absurdo, uma conexão profunda… às vezes preciso ser raso.

A vida já cobra pra caralho o tempo todo. E essa dor de cabeça me cobrando também está me enchendo o saco, porque eu tenho vontade de fumar, mas estou enjoado, não querendo sentir o cheiro da fumaça, não querendo comer muito… só queria realmente me divertir um pouco.

Talvez, chegando em casa, eu peça alguma porcaria pra comer pelo iFood e jogue um pouco de videogame.

O importante é sobreviver mais um dia sem pirar, sem cair, sem mandar todo mundo pro inferno.

Música: Festa Punk — Replicantes

domingo, 15 de junho de 2025

Papai Punk

Último fim de semana que meu moleque veio aqui, eu e ele começamos a conversar sobre algumas coisas — entre elas, palavrões, redpill, desafios perigosos de internet.

Ele tem 9 anos e está sujeito a todas essas coisas, simplesmente exposto a isso, e há um limite do que eu posso controlar. Por isso, tento tratar dos assuntos de maneira tranquila, engraçada, e da maneira que é — sem filtros —, o que é a maneira que eu sou também: normal.

Mas esse último fim de semana, em especial, conversamos sobre as coisas, e aí eu comecei a contar as merdas que eu fiz — obviamente, as merdas de moleque. Aquelas merdas que viram ralados, histórias de sala de espera de hospital, essas coisas… todas com o puro e simples intuito de se fazer uma merda, aquela que seus amigos vão falar: “Caralho, ele é maluco, ele é legal”, e, no final, rirem da sua cara por causa de um braço quebrado ou de você chorando todo fodido, com a cara e o corpo ralado.

Enfim, fui contando pra ele e vi o quanto ele prestava atenção e ria das merdas que eu fiz, como quem diz: “Nossa, pai, você era muito burro.” E eu, no meio disso tudo, tentando passar pra ele que as histórias são engraçadas só quando você está vivo para relembrar delas com alguma nostalgia.

Um método meio esquisito de falar pro filho: olha, não se mate tentando fazer alguma merda só porque você vai achar que todo mundo vai te adorar por isso. Mas foi isso que eu disse a ele: falei que todos fazemos merdas, mas fazemos merdas porque decidimos fazer.
Se algum dia ele se sentir pressionado a fazer algo, simplesmente não faça, dê as costas e vá embora. E, se alguma merda gerar dúvida, que fale comigo. Eu já vi bosta demais pra saber o que realmente vale a pena uns ralados ou não.

Algumas das histórias ele riu absurdamente, e é muito bom. Mas, ao mesmo tempo, muito estranho isso, porque, enquanto eu falava, eu lembrei exatamente do meu pai me contando as histórias dele — e o quanto isso me influenciou. Não sei se de forma positiva, mas, com toda certeza, negativa não foi, já que, se hoje curto muita coisa, é por causa das histórias que ouvi do meu pai.

Ensinei meu filho a xingar — com classe e sem classe. Mandei alguns contextos pra exemplificar. Fiz certo? Sinceramente, não sei. Mas acho que paternidade é meio que isso: nunca ter certeza do que se está fazendo para que o seu filho se torne alguém legal. E nem é o “legal” de ser foda — é o ser legal de ser legal, de ter a liberdade de ser e, ao mesmo tempo, dar a liberdade para os outros também serem.

Mas o que realmente eu sei que estou fazendo certo é fazer meu filho reconhecer um redpill, um incel, e meter um murrão na cara desses filhos da puta.
Política? Bom… deixa isso pra depois. Mas já mostrei quem ele tem que mandar se foder também.

Música: Them and Us – Bad Religion

sábado, 14 de junho de 2025

Apenas um Adolescente Revoltado

A revolta sem sentido, o caos pelo caos — apenas um adolescente revoltado. É isso que pode parecer. Engraçado, porque eu tenho 39 anos, e as coisas que me incomodavam quando adolescente começaram a fazer parte da minha rotina, a ponto de hoje transitar em um misto de verdades incômodas e desejos inocentes.

Foda porque as pessoas hoje adoram não aparentar a idade que têm. E não é uma questão de expressão, de gostar de algo e simplesmente vestir. Não. É uma harmonização facial, uma edição para mostrar o "nossa, pareço um adolescente, mas penso como adulto". Isso não é fantástico?

Às vezes eu desanimo no sexo porque, na maior parte das vezes, eu realmente gostaria que a pessoa tivesse um pouco mais de pelos — pra eu poder pensar que estou com alguém da minha idade. E isso, além de parecer estranho pra caralho de falar, vai ter gente com uma puta ideia errada, justificando que é higiene, que isso, que aquilo… mas, no final, é uma vaidade onde, lá no fundo, está o desejo de não se ter a idade que se tem.

Falar a merda da maneira que ela vem à cabeça, sem filtro, apenas com o cigarro na boca e a tela na sua frente, não é rebeldia adolescente. Pode parecer para quem se utiliza de metáforas demais para florear a própria revolta — aquela mesma que deseja mandar todo mundo tomar no cu como um adolescente revoltado — mas que, como um adulto evoluído, dotado de um vocabulário vasto, experiência de vida, um olhar apurado sobre tudo, escreve algo bonito, palatável… algo que eu não consigo realmente nem pensar. Porque nada é mais bonito que um “vai para a puta que pariu” bem dado.

Ah, mas é um personagem, alguém que faz tipo, alguém que quer parecer ser algo. E claro que eu sou um personagem, assim como qualquer um é um personagem. O tempo todo somos personagens. Alguns são muito bons de edição — e outros, como eu, são uma merda. E tá tudo bem. O que seriam dos fodões se não existissem os fodidos?

Pode parecer apenas um adolescente revoltado — e isso irrita muita gente. Realmente faz com que os que escrevem maravilhosamente bem e tentam se validar a vida inteira pensem: “nossa, que vazio”. Mas, no final, todo mundo gostaria de reclamar como um adolescente revoltado. Xingar algum autor filho da puta que te obrigaram a ler no ensino médio só pra dizer que, se você não entendesse o que ele queria dizer, você tiraria zero.

Eu visto camisetas de bandas que eu gosto. Fiz a maior parte das tatuagens depois dos 36. Pude olhar no espelho e rever um pouco do adolescente revoltado podendo falar merda à vontade. E, ao mesmo tempo, sentir o orgulho da idade que eu tenho hoje.

Já fiz a besteira de passar creme depilatório no saco e ficar com as bolas pegando fogo por dias, porque fiquei pensando que seria muito melhor — mais higiênico — transar depilado.

Hoje, pelo menos, consigo, a duras penas, com toda minha vida de adulto funcional e produtivo, pensar em poder pagar as contas, receber um salário merda e, no fim do mês, tomar cerveja, fumar meu cigarro, reclamando como um adolescente revoltado.

Música: Velho Punk - Gritando HC

sexta-feira, 13 de junho de 2025

Drama

O peso das expectativas alheias é foda. Você se vê em um turbilhão de sentimentos que não são seus, mas que se juntam aos seus — e, mesmo sem entender porra nenhuma, mesmo sem dizer nada, vira responsável por algo que nem imagina.

Cansei dessa performance babaca de ter que querer algo para responder alguém. Parece que tudo tem que ter um interesse obscuro, parece que tudo tem que ter um porquê. E quando você tira isso, quando tira totalmente o jogo de interesses, sobra apenas a frustração, a própria pequenez, onde você é confrontado com um espelho que não te julga, não te aponta o dedo — apenas retorna a sua própria imagem e semelhança.

Talvez o preço a pagar por tentar ser relevante seja carregar um puta monte de coisas que não são suas, um monte de bagagem colocada com seu nome, mas que você mesmo não lembra de ter feito.

E, se você não liga para essa bagagem, você é um filho da puta, porque tem seu nome ali — obviamente, você é responsável por ela.

Poderia xingar meio mundo por ficar jogando as próprias frustrações na vida dos outros, mas, no final, não adiantaria de nada. Eu só estaria mantendo essa engrenagem girando da mesma maneira.

Também não vou dizer aqui que “ah, sou muito melhor porque não sigo da mesma maneira”. Óbvio que não. Eu sou escroto, idiota, imaturo, sem meias palavras — sou isso mesmo. E não é de boa ser tudo isso, é uma merda gigante, porque ver toda essa bosta incomoda pra caralho e faz com que você não tenha capacidade de jogar no outro o peso de ser quem é.

Eu só estou cansado. E isso, por si só, já é um peso. E poder falar isso é uma virtude — por mais besta que seja.

Mas o foda é que você não pode estar cansado, porque essa performance, esse jogo de expectativas — do que você espera que seja e do que realmente é — não perdoa. É o tempo todo com algo a mais.

Esse pode ser o texto mais sem sentido que eu já escrevi, mas talvez um dos mais relevantes pra mim mesmo. Porque eu estou, em linhas e linhas, dialogando comigo mesmo, mostrando a contradição de que me importo pra caralho com como as coisas me atingem, pra no final, você — que está lendo esse texto e tentando entender o todo — eu só ter uma coisa pra te dizer:

Vai se foder.

Música: Drama — L7

quinta-feira, 12 de junho de 2025

Hoje eu Cai

Hoje as coisas estavam andando em câmera lenta. Nada fez muito sentido, só uma tristeza, uma ressaca, sei lá. Você vê o mundo cinza. Não tem cor, tem cansaço. Tem um esgotamento. Preocupação. Apenas um dia cinza.

Minha mente está nublada. A vontade é que o dia acabe logo e que essa sensação passe. Não é vontade de não existir, nem nada disso — essas coisas eu já conheço. É só um desânimo, sem muito sentido, sem muito porquê. As coisas parecem mais apagadas. O ritmo está estranho, meio como se tudo estivesse rápido e eu lento, mas ao mesmo tempo tudo lento e eu rápido.

Estou no trabalho, e hoje as coisas ficaram automáticas. Nada profundo. Não lembro quem ou quantas pessoas atendi. Só fiz o que precisava ser feito e segui, como se nada estivesse acontecendo. Tudo normal.
Mas, ao mesmo tempo, parece que tudo mudou. À volta, as pessoas, os comportamentos... estão todos diferentes. Mesmo que só de leve.

Talvez seja só cansaço. Talvez a depressão esteja voltando a bater forte. Ou talvez seja só um dia mais triste.
Na real, começou ontem. Um momento em que me peguei assistindo às minhas próprias ações, me vendo de longe, como num filme com um roteiro bem ruim.

Acordei hoje com a sensação de que preciso sair um pouco da rotina. Quebrar o padrão.
Viver só indo e voltando do trabalho está me dando nos nervos.
O foda é que quase tudo precisa de dinheiro pra acontecer. E o dinheiro, bem... não tá presente. Afinal, sou só um proletário. 6x1 em um emprego comum.

Incrível que eu consiga escrever exatamente o que está passando na minha cabeça nesse momento, mas não consiga pensar numa solução real.
Pensei em beber, em assistir a um filme.
Mas tudo soa meio chato. Meio incompleto. Meio sem cor, como disse antes.

É foda, porque no meio de tudo isso eu penso: quando você tem alguma folga, precisa escolher entre viver ou descansar. As duas coisas não dá.
Com só uma folga por semana, você sempre tem que pensar em como vai se apresentar pro trabalho no dia seguinte.

Enfim.
É isso que me ocorre agora.
Porque passei o dia todo ontem e hoje assim.
Não consigo jogar, tô com preguiça de um monte de coisa.
É foda.
Pra qualquer coisa que eu queira fazer, parece que preciso de um milhão de condições juntas pra ter oportunidade.

Vou tentar pensar em algo pra fazer. Algo que me deixe melhor.

Música: Nervous Breakdown – Black Flag

quarta-feira, 11 de junho de 2025

Tudo Bem

Às vezes me pego encarando a cartela de remédios e fico pensando: como foi que eu cheguei nisso?
Como foi que eu acabei tendo que tomar remédios pra dormir, pra acordar, pra ansiedade?

É bem mais fácil lembrar quando as coisas aconteceram, quando você bateu no fundo do poço e ficou morando lá por um tempo. Mas é esquisito, porque às vezes eu esqueço quando tudo começou.

O mais estranho, mesmo, é lembrar. Pensar nas primeiras coisas que me fizeram perder o sono, nas primeiras vezes que tive que esconder o que sentia. E aí me pego lembrando que, quando moleque, eu via as coisas acontecendo no mundo dos adultos, entendia um pouco do que estava rolando. Claro que não vou dizer que eu era um gênio que sacava tudo, mas o foda mesmo era perceber que eu não podia perguntar o porquê das coisas. Estavam sempre todos muito preocupados, ocupados. E isso me fazia sentir que eu não deveria dar mais preocupações. Então, eu me fechava jogando videogame, escrevia as coisas... E quando me perguntavam se estava tudo bem, era só uma resposta genérica: "tá sim", e voltava a olhar para o jogo.

As noites eram longas, e eu pensava e repensava em tudo o que tinha ouvido por tabela, tudo o que tinha visto entre uma pausa e outra do jogo.

Incrível como o ser humano se adapta a qualquer situação — mas não sem um custo, não sem uma conta pra pagar nos anos seguintes, nos anos em que sua voz começa a ser ouvida e você só responde com um genérico: "tudo bem".

Aí você volta pra caixa de remédios e pensa: “não vou tomar hoje, isso não está fazendo efeito nenhum. Todas as coisas ainda estão aqui”.
E substitui o "tudo bem" por quetiapina e paroxetina, e se sente um impostor, alguém quimicamente modificado. Porque tudo ainda está ali, mas você suprime a cada comprimido.

Mas aí, depois de hesitar, de ir ao banheiro dar uma mijada, depois de fumar um cigarro, você se olha no espelho e percebe que as olheiras diminuíram. Que, apesar de todas as coisas darem a impressão de te quebrar, você ainda está ali — não inteiro, não totalmente bem, mas melhor do que se ficasse respondendo genericamente pra você mesmo: "está tudo bem".

Claro, a ansiedade te joga milhares de preocupações irreais na cabeça. Te faz pensar, inclusive, no que o remédio está fazendo.

É estranho se conhecer. E depois dar risada sozinho porque esse comportamento é completamente previsível — porque você sabe que, no final das contas, se conhece muito melhor do que quando tudo começou, do que quando ia empurrando com a barriga.

E no final, com um copo de café, eu tomei meus remédios e me preparei pra ir trabalhar.

Música: The Kids Aren’t Alright – Offspring

terça-feira, 10 de junho de 2025

Poema em Linha Torta

Eu não sou um ator, que decora a fala,

Em meio a tantos inteligentes e pessoas incríveis, a minha boca se cala.

Diante de tantos poemas tão lindos, a minha rima para,

Que, vendo a profundidade de todos, a minha vida fica rasa.


Amplifico meus defeitos a cada ausência.

Entre estrelas conscientes, eu tenho consciência

De todos os meus erros — e não quero ser salvo.

Mas a falta do personagem me torna um alvo


Que não é visto em meio a milhões,

Que no ódio concedido à recusa dos perdões,

Em que minha palavra, que não é lida, ressoa.

A única verdade que eu gostaria de dizer?


Vai se foder, Fernando Pessoa. 

segunda-feira, 9 de junho de 2025

Com ele Aqui

Incrível como, quando meu molequinho está em casa, as coisas mudam.
O ar tem outro cheiro, o som é mais animado, as risadas tomam conta, e eu não fico sozinho pensando tanto nas coisas.

Amanhã ainda vou trabalhar, o que significa que ele foi dormir na casa da avó.
É tranquilo — moro na casa dos fundos — e não seria justo fazer ele desligar o videogame, parar de jogar e vir pra cá tentar dormir, sendo que, quando ele vem, é pra se divertir, ficar feliz e poder ser quem ele é, sem hora pra acabar.

Além disso, ele não precisa ficar pilhado com a minha insônia.
Hoje tomei o remédio para dormir, mais tarde do que de costume, só pra não correr o risco de dormir antes de curtir o máximo de tempo possível com ele aqui comigo.
Na próxima noite, aí sim: poderemos ficar até altas horas acordados, sem medo, sem culpa e sem compromissos da minha parte.
Aí vem a gritaria dos jogos que jogamos, as risadas que damos, e que se virem os vizinhos.

A sensação de ansiedade vai embora quando ele está aqui — e só retorna no domingo, dia em que ele vai. Mesmo falando que não quer ir, eu não posso incentivar ele a ir a contragosto.
Então, todo domingo a gente conversa sobre como é importante a dinâmica com os dois, pai e mãe.
Acho isso normal — pelo menos pra mim.
Saber que ele está bem lá, que eu e a mãe dele temos uma relação de amizade real e honesta.
Porque no fim, os dois ganham tendo um filho mais feliz e seguro.
E ele ganha ainda mais, já que, no final, ele é a parte mais importante de tudo.

Com ele aqui, eu realmente me sinto feliz.
E, mesmo que esteja tudo uma merda, que eu não seja o cara mais foda, nem tenha dinheiro pra caralho, nem acerte o tempo todo… meu filho gosta de mim.
E essas risadas sinceras valem um mundo inteiro de rotinas e supressões de identidade que eu, como adulto, tenho que viver.

Não fumei desde que cheguei do trabalho.
Acendi um cigarro agora, enquanto penso que, em meio a tantas coisas que eu não pedi pra ser, ser pai é o que mantém tudo em pé.

Não sei quanto tempo vou demorar pra dormir.
Mas sei que amanhã não vou precisar me preocupar com isso.
Então, só vou fumar meu cigarro, apagar a luz e deixar o tempo correr…
Pra que amanhã à noite chegue logo.

Música: I Don't Wanna Grow Up – Ramones

domingo, 8 de junho de 2025

Refluxo

 As coisas que eu escrevo não são feitas para ter ordem, para ter cadência literária, para ser algo profundo. Não. As coisas que eu escrevo são apenas sentimentos colocados em palavras de uma forma que faça o mínimo sentido.

A intenção nunca foi ser escritor, nunca foi ser lido, mas apenas escrever enquanto fumo, enquanto penso, como um cuspe mal-educado na rua, onde ele se mistura com o asfalto e seca, não tendo mais vestígios de que um dia esteve ali.

A profundidade não está em querer passar algo bonito, está no abismo que está durante o caminho. Quantas bitucas de cigarro já joguei nele, quantas vezes cuspi nele, quantas vezes gritei só para ouvir o eco distante da escuridão do fundo.

É um movimento natural da minha cabeça escrever páginas e páginas de um assunto qualquer, ou sobre o nada, e sempre uma música no local querendo me dar um empurrão.

Não é ser complexo, pelo contrário, é ser bastante simples. O problema é que o mundo todo é um teatro onde o que você parece ser é muito mais do que você é de fato.

Teoricamente eu sou um cara legal, uma boa companhia, um amigo leal, mas só teoricamente, porque eu sou bem pior do que as pessoas imaginam que eu sou.

As culpas, os traumas, os diagnósticos, todos eles são etiquetas na carne, que está pendurada nesse freezer que é a natureza humana. É como se fosse um aviso na caixa de cigarros: “Cuidado, faz mal”, e as pessoas insistem em chegar perto.

Não quero ser salvo, não quero o alguém certo, até porque não existe — só o erro menor, o arrependimento sincero, a dúvida de perdão, nesse eterno embate do que eu acho que eu sou e quem eu sou de fato.

O que eu escrevo são pensamentos crus, que escapam da minha cabeça, mas não mostram totalmente quem eu sou — só algumas coisas que penso — e isso não tem problema nenhum. Eu não tenho vergonha das merdas, assim como não tenho orgulho das virtudes.

Isso aqui é apenas fluxo de pensamento aleatório escrito, documentado, de um cara comum, com nada de especial, com uma vida absolutamente sem embalagem bonita, um parafuso meio solto em uma engrenagem que funciona mal, mas que ainda funciona.

O cigarro é um vício que pode me matar, mas como já estou vivo, qualquer coisa pode me matar.
Mas nada mais me mata do que eu mesmo.

E essa é a maior virtude que um ser humano pode ter: não é a liberdade de como viver, nem a escolha de como vai morrer, mas a consciência de que o caminho é fodido, e não tentar florear ele com metáforas recheadas de expectativas — de quem te olhar veja só a profundidade, e não o abismo.

Música: Blew – Nirvana

sábado, 7 de junho de 2025

Nada a Declarar

Com uma vontade esquisita de escrever algo, mas sobre o quê? Sem ter algo pra escrever. Aí sigo pensando: por que não escrevo sobre o não ter o que escrever?

Simples — porque seria loucura montar um texto apenas pensando em não ter o que escrever.
Mas é uma madrugada. Mais uma madrugada que vai seguindo, que faz com que eu tenha liberdade de pensar o que não penso durante o dia.
Mentira deslavada. Você pensa qualquer merda a qualquer hora. A madrugada é só uma hora em que o mundo fica em silêncio e você pode escrever sobre não ter o que escrever.

Acende o cigarro e dá um trago. Sinta a fumaça preencher os pulmões e escreva.
Será que amanhã passarei o dia com sono?

Importante entender como o pensamento é formado — e assim eu consigo documentar, mesmo que seja o nada.

Acho que vou dar um tempinho de escrever, porque, apesar de eu ter assunto todo dia, escrever todo dia é um saco. Fica parecendo que eu tô querendo ser lido, e isso é meio esquisito.
Como se tudo que eu colocasse no “papel”, eu quisesse que alguém lesse.

Melhor eu me concentrar no cigarro e não fazer outro buraco no lençol.

Música: Got Lot to Say – Ramones

sexta-feira, 6 de junho de 2025

Fazer Nada (Drops)

Ela: O que você gosta de fazer?
Eu: Eu gosto de fazer nada.
Ela: Você não gosta de nada?
Eu: Não disse isso. Eu disse que gosto de fazer nada.
Ela: E o que você faz quando não faz nada?
Eu: Eu não faço nada.
Ela: Então você não gosta de fazer nada?
Eu: Não, eu gosto de fazer nada.

quinta-feira, 5 de junho de 2025

Piloto Automático

Já tive fases bem obscuras na minha vida, tempos onde desliguei todos os instintos, todas as vontades, e me coloquei no piloto automático. Simplesmente seguia o fluxo.

E é absurdo pensar em quanto esse piloto automático vai fodendo com a cabeça, porque você começa a ser enganado pelas visões que a sua posição como ser social te impõe. Pouco a pouco, você vai desligando também o senso de individualidade, vai caminhando mais pra perto das lâminas do liquidificador das expectativas de fora, e vai se tornando parte dessa vitamina pastosa e sem gosto — como um whey da sociedade que se fortalece nas bases daqueles que caminham na fé cega de que, se eu fizer tudo direito, vai acabar bem.

A depressão te coloca como um cadáver — e não como uma metáfora, mas sim como algo real. Você dorme mal, come mal, não se cuida, e a sua imagem no espelho, cada vez mais morta, te faz alimentar ainda mais esse ciclo. É absurdamente difícil quebrar isso. Sempre tem algum discurso, alguma coisa do tipo “você não está sozinho”... mas sim, está.
O que incomoda não é a sua situação, mas como ela reverbera na rotina dos outros.

Fiquei muito tempo me alimentando dessas coisas. Não escondo que perdi o princípio mais básico da vida, que é se manter vivo. Nada mais fazia sentido — e não no sentido filosófico, mas biológico mesmo. Por muitas vezes, pensei que a minha morte seria um alívio para todos ao redor, pra mim mesmo. Mas, além disso, vem a culpa gigante de pensar isso.
Você não deixa de sentir — pelo contrário, sente demais. E isso satura. Te deixa num estado catatônico.

Hoje, penso muitas coisas, porque eu não me curei. E acho que não tem cura. Mas, ao mesmo tempo, penso nessas coisas não como parte de mim, mas como um caminho. Hoje eu olho com bom humor para o abismo e mando uma cuspida só pra ver se escuto o barulho de onde o catarro bate. Mas não escuto nada.

Já tentei por algumas vezes acabar com tudo. Pedi socorro. Mandei a pessoa calar a boca e me ajudar. Não me julgar. Não pensar no que está acontecendo. Está acontecendo. Então cale a boca e me ajuda, caralho.
Deu certo. A pessoa teve que engolir o que queria dizer. E essa pessoa foi a minha mãe — religiosa, que julgava pra caramba muitas coisas.

Depois disso, as coisas foram melhorando. Não na hora, não na velocidade que eu queria, mas o pensamento era: bom, já que fodeu tudo, vamos esperar um pouco.
Estava desempregado, recém-separado, todas as derrotas sociais em cima. E eu realmente não estava conseguindo fazer nada.

Conforme as coisas foram melhorando, fui voltando a escrever. Tentei me relacionar outras vezes e, claro, em todas elas eu fodi alguém e me fodi no processo — já que eu estava num momento completamente estranho.
Mas meu cigarro sempre me acompanhou. Nos dez minutos antes das consultas no psiquiatra ou psicólogo, nas horas antes de dormir e logo depois de acordar.
Além, é claro, da minha mãe, que ficou ali em silêncio, apenas acompanhando. E eu, sem saber o que ela pensava.

Pode parecer que está tudo bem. Não está. Tá tudo uma merda. Ainda derrotado, sozinho, tomando remédios, fumando pra caralho (pelo menos sozinho, de porta aberta, enquanto cago e ouço música — liberdade).
Tudo continua um lixo. Mas meu moleque vem pra casa e nos divertimos. E isso é sensacional.

Não tem final feliz pra isso. Só mais um cigarro, mais um fim de semana com meu filho… e outro fim de semana na solidão, sem ele.
E assim seguimos: fodidos, quebrados, feridos, chorando — mas escutando punk rock.

Música: Bad Disease – Stiff Richards

quarta-feira, 4 de junho de 2025

Caminhada

Faz uns cinco anos que minha carteira de motorista venceu. Não tenho carro, não sinto falta. Na maior parte das vezes eu saio a pé, ou, quando vou pra algum rolê ficar bêbado, vou de Uber — poder encher a cara sem precisar me preocupar com a volta é bom.

Mas enfim, eu gosto de andar a pé. Vou e volto do trabalho assim. Claro, é perto de casa — tenho esse privilégio. Mas uma das coisas que mais gosto no ato de andar é colocar as mãos no bolso e seguir vendo a vida acontecer, ao mesmo tempo em que penso. Muitas das coisas que escrevo vêm dessas caminhadas — uma construção de pensamentos a cada passo — onde, por incrível que pareça, caminhar fumando meu Lucky Strike me dá paz. É um momento onde, realmente, as preocupações, as ideias e tudo o que compõe a minha absurda contradição seguem um caminho com destino — ou casa, ou trabalho, a depender da hora.

Às vezes, perdido nos pensamentos, eu piso na bosta de cachorro na calçada — algo que, ultimamente, estou tendo mais atenção, já que o All Star vermelho está com a sola fodida.

Durante o caminho eu penso em um monte de coisas: o que aconteceu, o que pode acontecer, nas coisas, nas pessoas — e sempre no meu filho. Em alguns momentos eu olho o celular: será que tem alguma notificação? Não, não tem. Então, vamos seguindo. Construindo pensamentos, filosofando, ou apenas jogando algumas merdas à luz do pensamento.

Não uso fones de ouvido na rua — acho ruim pra caralho. Fora que é um chamariz pra ladrão. Engraçado que eu escuto música a maior parte da minha vida, mas quase nunca com fones — eles me incomodam.

No fim, é isso. Pensamentos vão passando como páginas de um livro na minha cabeça. Em alguns momentos, eu lembro de escrever sobre eles; outras vezes, eles vão embora da mesma maneira que chegaram — ao acender outro cigarro.

Aliás, preciso comprar mais, porque o meu está acabando.

Música: A Walk – Bad Religion

terça-feira, 3 de junho de 2025

Solidão - Versículo 3

Não é que eu não acredite no amor romântico, nem que eu esteja fechado pra ele. Sei lá… estou em uma fase em que estou bem comigo mesmo. Não vejo sentido em ficar sempre gostando de alguém, pulando de paixão em paixão.

Eu estaria errado em dizer: "ah, eu não vou me apaixonar". Aí eu estaria sendo burro pra caralho.

O que estou dizendo é que não tenho interesse em ninguém, não tenho interesse em querer me mostrar como uma pessoa interessante, alguém pegável. Consigo andar na rua, indo e voltando do trabalho, pensando em inúmeras coisas, me colocando em um lugar de afeto próprio — um lugar que passei a vida inteira negando. E nem é narcisismo. É apenas olhar e pensar: "porra, está legal assim".

Me interesso em sair com pessoas pra tomar uma cerveja, fumar, falar bosta e dar risada. Sem uma obrigação social, sem a carga da paixão que cansa, que faz a gente ficar cego, se colocar em último lugar.

É um papinho bem merda esse, mas sei lá… eu sinto falta do convívio com meu filho, sinto falta da animação pra jogar um jogo legal, de querer assistir a um filme, de sair pra beber — mas não de um romance.

Quero ir dormir a hora que eu quiser, mesmo que eu tenha insônia. Quero poder cagar de porta aberta. Quero poder fumar meu cigarro. Quero poder combinar uma saída com meu filho no dia que eu quiser, sem ninguém me enchendo o saco, sem um contrato afetivo em forma de amor romântico.

Acho que eu precisava desse tempo — que, aliás, já estou vivendo há alguns meses — pra poder colocar as coisas no lugar. Não em relação ao que eu quero (que, apesar de na superfície ter muitas coisas), mas nas camadas internas eu ainda não faço ideia do que quero ou de como fazer.

Engraçado, porque parece que tenho tanta certeza do que eu quero… Mas às vezes não é sobre o que se quer, e sim sobre o que não se quer.

Quebrei gente no processo de chegar onde estou agora. Me quebrei pra cacete também. Sigo fodido em um monte de coisa, mas pelo menos ciente de que estar fodido é um estado permanente da vida.

No final, vamos existindo nas ações de desfoder tudo — o que obviamente eu não vou conseguir. Mas dá pra ir fumando meu cigarro e cuspindo pensamentos que começam de uma maneira e terminam de outra completamente diferente.

Música: Living Life – CIV

segunda-feira, 2 de junho de 2025

Epitáfio do Invisível (Poema)

Pegadas de meus passos
Trilham para o meu túmulo,
Onde, em momentos escassos,
Se mostraram o cúmulo.

Só cheguei onde cheguei por causa do olhar:
Perceber que, pela janela, não há como enxergar
A penumbra que me veste,
A tristeza que entristece,
A idade que me renova
E que me sentencia à minha cova.

Não que eu espere algo depois que eu me for.
Não há felicidade plena, nem um fosso de dor.
Apenas há palavras de que eu um dia fui
Em uma mente que sente e conclui:

Que o abraço que pedi,
O acolhimento que nunca senti,
Eram desejos de uma vida
Em que nunca consegui.

Onde, no meu epitáfio, eu li:
"Por favor, me ignorem,
Pois eu não estou aqui."

domingo, 1 de junho de 2025

Com quem pensa que está falando?

Durante a minha vida, já vi algumas pessoas que olham para as outras com desdém, com aquele olhar de “ah, eu estou melhor que você”.

Um exemplo:
Aquela pessoa que entra na empresa para melhorar os resultados, otimizar processos, e se julga maior que todos.
Pois bem, essa pessoa quer que todos sejam filmados sorrindo, com aquele orgulho de vestir a camisa da empresa — mas esquece que a pessoa do outro setor tem que aguentar gente chata falando na orelha o dia inteiro.

Aquele tipo que quer que tudo pareça um sonho, mas olha do palco, porque consegue pagar as prestações do carro e se vangloria por ter limite maior no cartão.

Pois bem, esse tipo de gente está em todo lugar — na vida, na arte, na educação.
Essas pessoas que se colocam como detentoras do seu destino, aquelas que te olham com soberba.

Eu as vejo o tempo todo.
E elas me veem também.
Eu geralmente não faço nada, mas as irrito só por existir, só por andar.
E da mesma maneira que o olhar delas diz “performance a todo custo”, o meu diz:
“Foda-se a performance, foda-se o teatro. Estou aqui para fazer o que tenho que fazer e sair fora.”

É prazeroso poder ter esse embate silencioso com essas pessoas.
Porque, no fim, o medo maior é delas.
Já que, como alguém tão “baixo” ousa me enfrentar?

É aquela coisa:
Pode até me olhar de cima, mas, se vendemos nosso tempo para produzir algo para alguém em troca de dinheiro, sinto muito em dizer, mas somos todos proletários.

Enfim, continuarei saindo a cada hora, hora e meia, para fumar o meu cigarro.
E tomara que o seu nojo por mim aumente.

Enquanto isso, eu não me importo.

Música: Give You Nothing – Bad Religion