Como eu não gostaria de ter motivos para escrever, como eu queria poder ficar de boa e viver uma vida onde eu não tivesse essa necessidade patológica de dizer o que sinto através de palavras escritas.
Isso iria me poupar de topar com figuras que dizem que tudo tem que ter poesia, onde o bem escrito é mais importante que escrever por si só; ter que bater de frente com os literários que tratam seus textos como maravilhas, algo tão importante que todos deveriam ler, todos deveriam mergulhar na profundidade de seus dizeres.
Como eu gostaria de não ter que ficar cuspindo cada derrota, cada pingo de ódio, cada tristeza nas linhas da minha biografia não autorizada. Eu odeio escrever, escrever é chato pra caralho, escrever demanda analisar a própria merda e dizer como ela fede, como ela parece, qual a textura. Isso é horroroso, é desgastante, é um atrito eterno do que eu penso com o que querem que eu pense.
Mas, ao mesmo tempo, como é divertido ver alguém ficar puto com o que eu escrevo. Puta merda, é como se, em meio a tantas derrotas, tantas merdas, eu pudesse, desse tamanho minúsculo que sou, incomodar quem faz da sua obra uma fortaleza. É como se, a cada resquício de ódio, de tristeza e podridão jogada na cara, mostrasse para o escritor: “é disso que você é feito”.
Ah, a liberdade de podermos pensar que não somos especiais, não somos únicos, não somos o ápice da humanidade, não somos seres dotados de uma luz que ilumina o caminho dos ignorantes. Isso é sensacional. É, por vezes, o que me faz escrever: o não ser especial. Só ir jogando migalhas, batendo cinzas de cigarro pelo caminho. Pelo cheiro de nicotina, já passei por aqui.
Mas, como falei no início, ter motivos para não escrever seria sensacional, porque se eu não tivesse, eu poderia estar fazendo algum curso, indo pra academia, fazendo ioga, controlando a alimentação, vivendo como um ser humano saudável e feliz. Poderia estar colocando a minha vaidade no carro popular que comprasse, poderia colocar minha vitória nos quilos a mais que levanto no supino, colocar minha saúde na alimentação sem açúcar ou colocar todo meu conhecimento e minha erudição em um poema lindamente escrito sobre amores possíveis, aqueles que, de tão sensacionais, virariam tema de filme: uma comédia romântica onde, no final, tudo dá certo.
Podia tentar ser um cara que escreve coisas para as pessoas viajarem em uma história muito bem escrita, onde há um arco de construção de personagem, utilizando um método literário incrível, para que, no final, as pessoas que terminarem o livro olhem para o vazio, suspirem e pensem: “que obra maravilhosa, que história incrível”.
Não. Eu fui condenado a pensar enquanto vivo, mas não o pensamento romântico, o pensamento com sentido ou o diagnosticado por um profissional. Não, é o pensamento imbecil, podre, idiota, de alguém que está no meio da merda, sente o cheiro, fica com nojo, mas não consegue sair, não consegue fazer de conta que tudo vai acabar bem. O pensamento de quem vê que está todo mundo incomodado com a bosta, mas não entende por que ela não é limpa, e ao mesmo tempo sabe que faz parte do coletivo que não tem pá e nem vassoura pra recolher a bosta e jogar no lixo.
Esse fluxo constante de pensamento, que não é algo que grita, mas são como páginas escritas em tempo real, me faz observar cada pequeno tique do mundo, cada gatilho apertado com a intenção de fazer alguém sentir algo, mesmo que seja ruim. E essa dinâmica me faz escrever mais páginas, mais coisas. Vou escrevendo exatamente como está aqui: cada bom dia robótico, cada “tudo bem” por conveniência, cada pessoa olhando hipnotizada para a sua tela e vendo as aleatoriedades junto com o trabalho.
Como eu queria ter motivos para não escrever sobre quase tudo que penso. Puta que pariu, é horrível, é uma sensação horrorosa saber que você está cuspindo os dentes depois das porradas que a vida te dá, e, para sair bem no story, o mundo oferecer uma dentadura a preço injusto, mas, pelo menos, na foto você vai ter um sorriso bonito.
Música: I Against I - Bad Brains




