sexta-feira, 30 de maio de 2025

Um Maço por Dia

24 horas — isso é o quanto dura um maço de cigarros. Às vezes dura algumas outras a mais, outras vezes menos, mas esse é o cálculo.
Eu baseio meu salário também no consumo de cigarros, afinal, não quero passar uma noite sem fazer absolutamente nada. Pelo menos cultivar um pulmão preto é uma das coisas básicas.

Mas esse mês vou passar apertado. Comprei um quadro de presente pra minha mãe — Dia das Mães, né? Pois bem, nada muito caro, mas juntando com as outras contas, realmente faz a gente ter que apertar o cinto. Comprei outro pro meu pai. Ele veio aqui em casa e ficou hipnotizado pelo quadro dos Beatles atravessando a Abbey Road — foto clássica. Ficou um tempo contando como foi ouvir os caras pela primeira vez. E sim, ele ouviu no lançamento. Enfim, me contou um pouco da história, e eu perguntei se ele queria um, ao que prontamente respondeu que não.
Mas eu encomendei mesmo assim. Vamos ver qual vai ser a cara do velho quando chegar.

Enfim, voltando aos cigarros. Segui pela rua. Hoje estava mais frio, decidi colocar a blusa — mas é aquele frio filho da puta que, sem blusa, é muito frio; com blusa, você fica suando (vou ter que tomar outro banho).
Cheguei na conveniência, o caixa estava meio atolado nas notas, alguns clientes na fila. Sentei em uma cadeira, deixei as pessoas irem embora, e aí pedi dois maços de Lucky Strike. Olhei para a prateleira de cigarros e já vi que não tinha.
Não esperei o cara ir ver se tinha pacotes fechados — ele já tava muito enrolado. Pedi três maços de Winston vermelho. Sim, é uma merda, mas não ia perder a viagem.
Ele pediu desculpas pela demora. Eu falei que estava sem pressa.
Paguei os maços, recusei a sacolinha e fiz o caminho de volta pra casa.

Acendi o penúltimo cigarro do maço que eu já tinha e segui andando.
Durante o caminho, vi um cara coberto até a cabeça, dormindo embaixo do toldo de um comércio. A rua era deserta. Ele podia dormir ali até amanhã de manhã.
Olhei a cena e segui.
Por um momento, parei. Abri um dos maços, tirei uns cinco cigarros, mais ou menos — não contei. Coloquei junto com o maço que eu já tinha, voltei e me aproximei da pessoa.
Ela estava dormindo pesado.
Deixei o maço de cigarros ali e segui meu caminho.
Não sem antes acender outro e voltar pra casa.

Música: Don't Bother Me – Bad Brains

Nenhum comentário:

Postar um comentário