Depois de muito tempo olhando para o espelho e não reconhecendo a imagem que eu via, sigo para o quarto e vejo ela lá, toda destruída, sem atenção: a guitarra.
Com marcas de batidas, tinta lascada, pedaços faltando. E aí penso: talvez seja isso que eu não esteja reconhecendo em mim — esse abandono. Colocando tantas coisas como prioridades, acabei virando um móvel estranho dentro da casa, onde a função — que é emitir algum som — não está mais presente.
Decido, então, que vou reformar a guitarra e não olhar para o espelho durante o processo. Anoto as peças que estão faltando ou quebradas e vejo o preço de cada uma. A pintura vai ficar essa mesma. As marcas são histórias — e histórias têm que ser mostradas de alguma maneira.
O dinheiro que recebo em um mês não vai dar conta de arrumar tudo, então coloco prioridades e vou comprando uma peça a cada novo pagamento recebido. É uma espera em que a ansiedade, às vezes, vem. Às vezes, dá lugar a um desânimo que me faz pensar: acho que fui tapeado.
Não. As primeiras peças chegam. Guardo-as com cuidado no meu guarda-roupa e decido que a guitarra ainda ficará lá, do jeito que está. Só irei mexer nela quando estiver com todas as peças.
Outras peças chegaram. Será que comprei certo? Não sei. Mas, enfim, vou seguindo meu plano. E, como um otimista, eu compro as cordas — ah, sim, a última parte, a que realmente dá significado. Mesma marca que comprava anos atrás, quando a fúria da juventude embalava os acordes simples de um cara que adora punk rock.
Decido, então, que todas as peças estão em casa. Vamos montar. Coloco a TV para passar qualquer coisa, apenas um barulho — não quero música, não nesse momento. Está tudo mudo, só o som das palavras que não entendo na TV.
Montei. Nossa, as peças couberam. Consegui montar. Vamos colocar as cordas. Momento de tensão, porque tudo que coloquei de novo na guitarra pode quebrar com a tensão das cordas. Porém, nada acontece. Apenas uns estalos — mas é tudo se acomodando novamente.
Não vou tocar ela agora. Vou apenas afinar de maneira básica, para deixá-la pronta. Vamos esperar um dia, para ver se ela não explode encostada ou se perde a afinação.
Para minha surpresa, no dia seguinte, antes de ir ao trabalho, ela está lá, olhando para mim, com todas as peças no lugar. Passo os dedos nas cordas — perdeu um pouco da afinação, mas nada anormal.
Trabalho pensando nisso, e contente comigo mesmo. Tirei fotos, enviei para pessoas. Ela está viva!
Volto do trabalho. Decido que vou tocar. Perdeu um pouco da afinação mesmo, mas ok, era esperado. Afino e começo a tirar alguma coisa aleatória. Meus dedos doem — perdi os calos —, mas seguimos.
Aí penso: poderia colocar alguma distorção. Mas não tenho cabo, não tenho amplificador ou local para ligá-la.
Mês que vem comprarei uma pedaleira, onde posso colocar o fone de ouvido. Ah, mês que vem não dá, já estou sem grana. Deixa para o outro.
Mas a guitarra está lá, inteira, com sua função ok.
Comprei o pedal. Tirei alguns sons. Sim, eu ainda sou capaz disso. Que maravilha! Agora é fazer com que ela fique mais minha.
Adesivos — sim, muitos adesivos. Vou fazer com que a cor da guitarra não seja mais vista, e sim todas as minhas influências. Tudo o que eu julgar legal.
Faço isso, ao mesmo tempo em que volto a me olhar no espelho e rever um velho amigo: você está aí. Sempre esteve. Só precisava trocar algumas peças, né?
E assim começou a reconstrução. A jornada de volta ao eu. Ao que eu gosto. Ao que eu sinto. E ao som que eu emito.
Música: Punks Not Dead – The Exploited

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