Quantas vezes eu já olhei para o espelho e não me reconheci, fiquei pensando em que merda é essa que está aparecendo?
Ainda acontece hoje, ainda olho para o espelho e não me vejo, me sinto bonito, penso "nossa, que sensação boa", e isso não é normal.
Mas aí eu corro para a autossabotagem, acendo o meu cigarro e me coloco a entrar no ritmo de trabalho, onde eu tenho que escovar os dentes, tomar um banho (odeio pensar que estou fedendo), não pentear o cabelo, separar a camisa do uniforme e, aos poucos, voltar ao normal, como colocando o traje espacial para uma caminhada fora do seguro, fora do local onde a garantia de vida é maior.
A calça e o tênis são os mesmos faz uma semana, não tenho que parecer bonito, tenho que parecer funcional, e assim toda aquela estranheza do acordar bem vai sumindo e dando lugar ao que realmente importa: sobreviver mais um dia.
Talvez uma foto? Para parecer um cara que não liga pra porra nenhuma, enquanto liga pra caralho em não chegar atrasado.
Enfim, sigo o ritual da normalidade forçada, coloco o tênis, percebo que a sola está descolando. Nenhum tênis legal é feito para andar. Eu vou e volto do trampo a pé, e parece que os tênis não foram feitos para isso. A caminhada a pé sem ser para postar como cuido da saúde não vale.
Pare, volte para o ritual da normalidade. Coloque a blusa na mochila. Já dobrei tantas vezes que agora só enfio ela dentro da mochila e tá bom, vou usar só à noite mesmo.
Tomou seu remédio? Se não tomou, é melhor tomar. Os dois que a psiquiatra prescreveu para a ansiedade não passar do nível "ficar mexendo as pernas sem parar".
Quase tudo ok. Não tomei café da manhã, mas é normal, desconto para ter um tempo a mais na cama ou no banho. Aliás, banho quente, porque esse papo de coach de tomar banho gelado é coisa de babaca. Tem que ser um banho quente, confortável, pois as próximas 12 horas serão de puro suco de rotina — esse sim, frio e também coisa de babaca.
Bom, chegou a hora. Melhor conferir se o celular está no bolso? Ok, ele está sim, com a tela trincada, mas foda-se, vai ser usado até a hora que parar. E o mais importante: pegue a mochila, confira se o cinzeiro portátil está lá, o isqueiro ainda funciona e tenho cigarros que duram até a hora do almoço.
Acho que é isso. Acho que está tudo uma merda, ou seja, tudo normal.
Até a noite!
Música: Broken Toy – SNFU
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