quinta-feira, 22 de maio de 2025

Entre o Presente Passado e o Passado Presente

Queria montar uma banda, fazer um barulho. Nada de querer ficar tocando nos lugares, se organizando para apresentações. Não. Eu queria ter uma galera pra poder tocar, tomar cerveja e ficar bêbado nos ensaios, enquanto tocamos algumas músicas próprias e alguns covers mal feitos.

Mas é foda. Esse meu horário me faz ficar sempre trabalhando quando as pessoas normais já estão de folga, e eu fico de folga quando as pessoas estão trabalhando — o horário nunca casa.

Tem outro problema: a maioria das pessoas quer ser foda, rockstar, quer se apresentar com algo completamente absurdo de bom, tapinhas nas costas dizendo: “Nossa, vocês são do caralho, vamos gravar um álbum!”. É foda. Eu só queria fazer barulho.

Fico pensando, escrevendo, tendo ideias pra som. Mas, no fim, o dia de descanso que eu tenho, eu acabo tendo que escolher entre viver ou descansar para, no outro dia, voltar à rotina do trabalho.

No final, eu pego alguma backing track e toco por cima. Não tem muito mais o que fazer do que isso.
— “Ah, é preguiça!”
Porra, sim! É claro que é preguiça. Tenho que ficar vivendo entre egos todos os dias, ainda ter que montar uma banda onde vão querer se mostrar e ser a nova salvação do rock?
Ah, não. Não dá. Eu tô cansado. As coisas vão engolindo você pouco a pouco, a cada ponto batido no trabalho, a cada cliente filho da puta que vem me chamar de tudo quanto é nome porque não tá conseguindo carregar os stories na velocidade que quer.

Lembro da primeira vez em que toquei em um palco. Estávamos todos nervosos. Eu era o guitarrista e vocalista, porque no primeiro ensaio da nossa vida ninguém teve coragem de cantar nada. Eu fiquei irritado e peguei o microfone.

Voltando ao dia do primeiro som: era Dezembro de 2002. Íamos começar com Papai Noel Velho Batuta, dos Garotos Podres. Subimos no palco, ligamos os instrumentos, e naquele momento o som da guitarra ecoando em um lugar maior que uma garagem me pegou.
Por um momento o mundo ficou em câmera lenta. As pernas tremendo, a respiração rápida, o microfone na minha frente. Toquei de leve as cordas da guitarra e o som da distorção me bateu nas costas. E, ao mesmo tempo, fez com que as pessoas que estavam no local parassem de conversar entre si e virassem na nossa direção pra ver quem eram os moleques que iriam se apresentar.

Aquele momento foi um dos mais tensos da minha vida, e todos estavam esperando eu falar alguma coisa. Então cheguei perto do microfone, respirei fundo:

— Essa é a Mystery Machine. Se vocês gostarem do som, beleza. Se não gostarem, vão tomar no cu.

Os primeiros acordes vieram como um instinto, e o grito “PAPAI NOEL, FILHO DA PUTA!” ecoou. O som saiu. Sete músicas em quinze minutos.
Não tínhamos mais músicas, não sabíamos mais covers. E quando terminou o som, o baixista estava sem um tênis — que saiu voando e foi parar no meio da galera. O outro guitarrista todo suado, porque além de tocar, teve que por muitos momentos parar pra segurar a bateria, que andava pra frente a cada porrada do baterista.
E eu ali, mais uma vez na frente do pessoal, que estava com um ponto de interrogação sobre o que iria acontecer:

— Acabou.

Desliguei minhas coisas, desci do palco correndo, dei um gole na minha cerveja, acendi um cigarro e fui embora.

Música: Papai Noel, Velho Batuta – Garotos Podres

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