Queria montar uma banda, fazer um barulho. Nada de querer ficar tocando nos lugares, se organizando para apresentações. Não. Eu queria ter uma galera pra poder tocar, tomar cerveja e ficar bêbado nos ensaios, enquanto tocamos algumas músicas próprias e alguns covers mal feitos.
Mas é foda. Esse meu horário me faz ficar sempre trabalhando quando as pessoas normais já estão de folga, e eu fico de folga quando as pessoas estão trabalhando — o horário nunca casa.
Tem outro problema: a maioria das pessoas quer ser foda, rockstar, quer se apresentar com algo completamente absurdo de bom, tapinhas nas costas dizendo: “Nossa, vocês são do caralho, vamos gravar um álbum!”. É foda. Eu só queria fazer barulho.
Fico pensando, escrevendo, tendo ideias pra som. Mas, no fim, o dia de descanso que eu tenho, eu acabo tendo que escolher entre viver ou descansar para, no outro dia, voltar à rotina do trabalho.
No final, eu pego alguma backing track e toco por cima. Não tem muito mais o que fazer do que isso.
— “Ah, é preguiça!”
Porra, sim! É claro que é preguiça. Tenho que ficar vivendo entre egos todos os dias, ainda ter que montar uma banda onde vão querer se mostrar e ser a nova salvação do rock?
Ah, não. Não dá. Eu tô cansado. As coisas vão engolindo você pouco a pouco, a cada ponto batido no trabalho, a cada cliente filho da puta que vem me chamar de tudo quanto é nome porque não tá conseguindo carregar os stories na velocidade que quer.
Lembro da primeira vez em que toquei em um palco. Estávamos todos nervosos. Eu era o guitarrista e vocalista, porque no primeiro ensaio da nossa vida ninguém teve coragem de cantar nada. Eu fiquei irritado e peguei o microfone.
Voltando ao dia do primeiro som: era Dezembro de 2002. Íamos começar com Papai Noel Velho Batuta, dos Garotos Podres. Subimos no palco, ligamos os instrumentos, e naquele momento o som da guitarra ecoando em um lugar maior que uma garagem me pegou.
Por um momento o mundo ficou em câmera lenta. As pernas tremendo, a respiração rápida, o microfone na minha frente. Toquei de leve as cordas da guitarra e o som da distorção me bateu nas costas. E, ao mesmo tempo, fez com que as pessoas que estavam no local parassem de conversar entre si e virassem na nossa direção pra ver quem eram os moleques que iriam se apresentar.
Aquele momento foi um dos mais tensos da minha vida, e todos estavam esperando eu falar alguma coisa. Então cheguei perto do microfone, respirei fundo:
— Essa é a Mystery Machine. Se vocês gostarem do som, beleza. Se não gostarem, vão tomar no cu.
Os primeiros acordes vieram como um instinto, e o grito “PAPAI NOEL, FILHO DA PUTA!” ecoou. O som saiu. Sete músicas em quinze minutos.
Não tínhamos mais músicas, não sabíamos mais covers. E quando terminou o som, o baixista estava sem um tênis — que saiu voando e foi parar no meio da galera. O outro guitarrista todo suado, porque além de tocar, teve que por muitos momentos parar pra segurar a bateria, que andava pra frente a cada porrada do baterista.
E eu ali, mais uma vez na frente do pessoal, que estava com um ponto de interrogação sobre o que iria acontecer:
— Acabou.
Desliguei minhas coisas, desci do palco correndo, dei um gole na minha cerveja, acendi um cigarro e fui embora.
Música: Papai Noel, Velho Batuta – Garotos Podres
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