Durmo em uma cama de casal não praticante. Do lado em que antes havia alguém, hoje me acompanham um par de fones de ouvido, o controle da TV que quase nunca uso, o controle do Xbox — que não dá muita vontade de ligar quando meu moleque não está aqui —, meu maço de Lucky Strike, algo que deixo esquecido ali, como um laço de cabelo, uma bermuda ou calça jogada. Às vezes, bem raramente, um livro. Ah, e sim, o cinzeiro. Comprei um com tampa, pois era um saco tirar as cinzas de cigarro do lençol depois de bater, sem querer, no cinzeiro (a caneca que a ex deixou). E o celular, sempre à mão, para ver notificações de cobrança, e-mails de spam, e para ter o aplicativo de notas aberto para escrever o que penso — como estou fazendo agora.
A trilha sonora é sempre punk rock, ou algum outro estilo.
Meu quarto virou meu refúgio. Não trouxe ninguém aqui desde a separação — e isso já faz uns dois anos.
E não, não é por coisas mal resolvidas ou saudade.
Eu só não quero trazer ninguém para dentro da minha intimidade física. A mental, algumas pessoas já leem e ouvem por aí, no dia a dia.
Não uso mais a sala. A TV e as coisas estão todas aqui.
Consigo viver em dois cômodos de boa. Não é difícil quando se está sozinho — e com a vantagem da Alexa ter som suficiente pra casa toda.
Interessante pensar que durmo do lado direito da cama e nunca invado o lado esquerdo.
De certa forma, virou instinto natural deixar um espaço para a bagunça, para o vazio — o local onde havia alguém, e hoje há coisas.
Nas paredes do quarto estão meu violão e minha guitarra reconstruída, além de quadros e placas com referências diversas.
Como não fico muito em casa, ela é surpreendentemente limpa e organizada. No fim de semana, dá pra varrer, passar um pano, e tá tudo ok.
A foto do meu filho fica na escrivaninha, sempre virada em direção à cama, pra me ver vivendo como estou — sem filtros.
E pra eu poder, quando acordar, dar um "olá" pra ele todo dia.
Claro, me comunico com ele por WhatsApp, ligação, normal.
Mas queria ele aqui, pra eu poder levar pra escola, fazer dever junto, jogar um pouco — nada grandioso, enfim.
Tô vendo que o cigarro tá acabando.
Acho que vou lá no posto comprar uns dois maços — é mais barato lá.
Música: Fix Me – Black Flag
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