quarta-feira, 3 de setembro de 2025

Na madrugada eu joguei: Dead Island 2

 Um jogo sobre ser zumbi em um mundo pós-apocalíptico depois da era do engajamento, da ostentação e da criação de conteúdo a qualquer custo.

Como um zumbi sem conseguir dormir, olheiras aumentando, eu peguei para jogar Dead Island 2. O jogo conta com uma gameplay divertidíssima, cenários muito bem construídos, história mais ou menos, porém com um pano de fundo que, apesar de raso como um simples jogo de zumbi, mostra muito mais do que uma ode à violência gratuita para fins de entretenimento.

Logo de início, você escolhe o personagem que vai controlar e mata todos os outros. Ou seja, já no começo, o jogo não é sobre uma escolha simples. É sobre quem você vai jogar no inferno da sobrevivência a qualquer custo e quem terá uma morte mais rápida e brutal, mas ainda assim menos lenta do que tomar milhares de mordidas de mortos-vivos que só querem se alimentar de um pedaço seu.

E mais uma vez não é uma análise técnica sobre frames, gráficos e jogabilidade, mas digo que todos são competentes, e a forma como o jogo é entregue sustenta o entretenimento e dá espaço para interpretações.

O palco dessa obra é Hell-A, Los Angeles, símbolo da ostentação, da desigualdade, do conteúdo midiático, paraíso da ganância, do egoísmo, o sonho do capitalismo, cidade dos anjos que, aqui, em seus vários mapas, se torna um personagem. Ela mostra como seríamos simplesmente aniquilados pela inocência de acreditarmos que seríamos protagonistas em um apocalipse.

Os zumbis vestindo suas roupas caras sujas de sangue, as mansões sendo invadidas e outras usadas como bunkers mostram a desigualdade do ego, colocando você não em dilemas morais, mas simplesmente jogado em um local morto por essência. Os que estão sobrevivendo, em sua maioria, ainda tentam ser relevantes para os outros, tentam subjugar o próximo, dar ordens, enquanto a população de zumbis está no caminho, não destruindo, mas consumindo tudo o que é vivo, só deixando a paisagem morta, os monumentos aos motivos que mataram todos.

Durante todo o tempo você vai se ver entrando em mansões com quartinhos cheios de câmeras, casas dos criadores de conteúdo. Ah, os influencers, sim, eles mesmos, com suas caixas de produtos recebidos de presente. E o que parece absurdo: os que sobreviveram fazendo lives zoando os zumbis, alguns pedindo para você acabar com eles de maneira estilosa, para manter o engajamento, manter a relevância.

O que vemos ali são os sobreviventes basicamente não aceitando que todo mundo morreu e que não têm mais influência sobre ninguém. Nós, zumbis, estamos ali comendo e destruindo todo o conteúdo que sobrou, somente para nos mantermos “vivos”. O jogo pode não ter essa premissa de ser crítico a uma sociedade vivendo no capitalismo tardio, mas é exatamente isso. A violência, o gore, o tosco e o conteúdo são jogados na sua cara, falando para você se entreter e se divertir com aquilo, enquanto você é o zumbi que faz de conta que é o protagonista do jogo.

Mais uma vez, os zumbis vestindo ternos, outros com roupas de praia, alguns bombados de academia, outros obesos, alguns com corpos padrão totalmente destruídos pelo vírus, que os faz ser apenas obstáculos em sua progressão. Enquanto isso, você recebe ordens de pessoas narcisistas e ególatras, que no final são as mesmas que dão ordens de verdade para aqueles que acham estar fazendo alguma diferença no mundo.

O jogo tem um clima festivo e carismático, personagens cheios de atitude, e tudo isso joga na sua cara que você acha graça em estar colocado em um mundo absurdo, onde, se olhar bem, não é tão absurdo assim.

O jogo é divertido, está no Game Pass, e você pode se alimentar sem pensar, como um zumbi jogando, se divertindo e podendo ser um “protagonista” nessa Hell-A, enquanto está de folga para estar preparado para agir como morto-vivo no dia seguinte.

Diversão garantida para zumbis e sobreviventes do capitalismo apocalíptico. Ou somos todos zumbis?

Melhor parar, pois logo vão me chamar de comunista de iPhone.

quinta-feira, 21 de agosto de 2025

Na insônia eu joguei - Robocop: Rogue City

 Um jogo sobre um robô, uma cidade podre e por que você também é um funcionário desumanizado

Comecei a jogar Robocop: Rogue City, e o jogo me fez revisitar uma nostalgia com um olhar menos imaturo sobre tudo o que o mundo dessa obra trata. Não quero ficar falando de gráficos, que são bons, apesar de eu estar jogando no Series S, ou seja, não tenho a melhor experiência gráfica possível. Normal. Isso não é um review de game de forma técnica convencional. Pode procurar sobre isso que vai achar. Também não vou falar sobre a jogabilidade, apesar de ela ser muito legal, levando em consideração o fato de o cabeça de lata ser pesado e não ter a movimentação frenética comum hoje nos games. As habilidades e evoluções são muito legais e ampliam a questão do controle e de como você vai interagir com o mundo de Detroit toda cagada.

Na verdade, o que eu quero dizer é como o jogo consegue capturar muito bem o clima da obra. Tudo que faz Robocop ser Robocop está lá. A violência, que por incrível que pareça é menor no jogo do que no filme, especialmente o primeiro. A crueza da merda toda da cidade. A banalidade da violência. O humor. Tudo está ali. Saliento o humor no exemplo em que, em dado momento do jogo, aparece uma criança escutando música na rua, e você passa por ela, podendo fazer a dança do robô e deixar a criança feliz por um momento. Isso mostra um pouco da galhofa que permeia todo o enredo.

Detroit de Robocop é toda lazarenta. A criminalidade impera, a violência é vendida como commodity, o pânico mora, o populismo barato serve para os poderosos mas custa caro para os moradores da cidade. Isso é reforçado nos comerciais de TV e rádio, sempre mostrando algo absurdo, algo que monetiza a merda. Basicamente, o mundo de Robocop é um mundo onde tudo foi privatizado, onde o lucro vem antes do bem comum, e em nome dessa evolução, dessa utopia onde o capital e o investimento vão tornar tudo perfeito, Delta City será construída nos escombros da velha e decadente Detroit.

Robocop é a representação do funcionário desumanizado. Ele chega como um homem normal, honesto e querendo fazer a diferença. É morto e depois revivido como máquina. Ou seja, o lucro destrói o funcionário, mata a humanidade dele, e o próprio capital o revive como ser funcional, em que ele vai executar a função de maneira robótica. A corporação, no caso a OCP, quer apagar a humanidade que sobrou no herói metálico, colocando essa humanidade que aparece em alguns momentos como defeito.

Aliás, no jogo isso é colocado logo de cara. O início já joga essa humanidade como fraqueza, como hesitação. Alex Murphy morreu e ressuscitou para salvar a cidade de seus próprios pecados, tendo que bater de frente com quem o criou e entrando em dilemas morais e humanos. Isso faz com que toda a obra seja muito mais do que um robô chutando bundas por aí. Toda a crítica, o tom anárquico da obra original, é exaltado e colocado de maneira absurdamente eficiente no jogo, onde você se sente na pele do protagonista. Os diálogos são bem construídos e a história convence quem já gostava do original (me recuso a falar do remake, que é uma merda). E ainda pode fazer novas pessoas quererem saber de onde aquilo vem, onde a história começou, e não ficarem tristes de acharem o jogo melhor, mas perceberem que o filme, principalmente o primeiro, é ainda melhor e dá muito mais profundidade à história.

Como jogo, ele diverte muito, pois é equilibrado na parte de investigação e na parte de tiroteio frenético. E convenhamos: poder aguentar tiro pra caralho, ir avançando e descendo bala em todo mundo é sensacional.

Algo que também compõe o universo do jogo e dá aquele gosto de “ah sim, os caras acertaram” é o fato de você encontrar documentos e neles ver que o caos é estrutural. Não é só a violência do tiroteio, dos crimes de rua, não é apenas sobre a postura das pessoas em um mundo fodido, onde elas não dão lucro. É ver o caos na delegacia por causa da burocracia, o lixo nas ruas, o emprego cagado, as pessoas morando mal, sem dinheiro pra comer. E com isso toda a sociedade passa a ter uma visão deturpada de justiça, o que faz com que você seja confrontado com dilemas éticos que, por mais superficiais que pareçam durante o jogo, mostram que todo o contexto é fodido.

Tudo isso acontece ao lado das obras da opulenta Delta City, dos outdoors com propagandas de marcas, das notícias e da violência banalizada e vendida como commodity, sendo veiculada na TV como um anestésico tão pesado quanto as drogas que rolam soltas na cidade. E, em meio a tudo isso, a figura do Robocop tentando ser capitalizada para essa glamourização da violência. Ele é, ao mesmo tempo em que herói, a imagem do populismo barato e de como o capital enxerga o ser humano que não dá lucro.

Todo esse texto é uma análise para dizer que o jogo é bom, muito bom e divertido. Ele inclusive está no Game Pass, uma ótima oportunidade de jogar “de graça” dentro do plano.

Poderia ficar horas e horas, páginas e páginas falando dos paralelos entre ficção e realidade, mas me chamariam de comunista. E eu só sou um robô fazendo 6x1, enquanto o capital tenta apagar a minha mente para tirar a minha humanidade.

Vale a pena conferir o game, porque no final é usar toda uma estrutura capitalista selvagem para se divertir com um jogo que mostra como o lucro acima de tudo fode a maior parte das pessoas. 

Às vezes, a ficção vira realidade.

terça-feira, 29 de julho de 2025

Escrevo por escrever

Escrevo por escrever, porque se não escrevesse, eu não escreveria.

Isso pode até soar maluco — e, sinceramente, acho que é muito maluco. Mas a grande questão é que simplesmente escrever por que sim virou algo absurdamente subversivo.
Porque todas as escritas precisam ter alguma intenção grandiosa por trás, um sentido único e inalterável de querer dizer alguma coisa para alguém — e que esse alguém seja atingido de uma maneira que valide o porquê de você escrever.

Mas, a partir desse pensamento, você não parte mais do princípio de que quer escrever por escrever. Sua escrita passa a ser controlada por quem vai ler o que você escreve.
E não — isso não quer dizer que eu tenha que escrever qualquer coisa, por mais imoral que seja, apenas para chocar. Porque aí você já cai na intencionalidade de chocar, o que também não é, no final, o escrever "porque sim".

Agora eu me vejo nisso tudo, e vai parecer absolutamente pedante eu dizer que escrevo completamente sem sentido.
O que não é verdade.

Porque, se não tem sentido eu escrever, então não precisaria escrever.
Mas o pulo do gato está aí:
eu escrevo para dizer o que penso.
Se eu — ou alguém — vai ler, pouco importa.
Estou registrando a minha existência e meu pensamento cru, sem métrica, sem algoritmo, sem a regra de querer ser mais do que sou — que é: eu mesmo.

E o que eu sou?

Não faço a mínima ideia.
Já que o fato de eu pensar porque existo não é por si só um sentido — mas sim, só uma dúvida. Simples e complexa.
O que me leva a escrever sobre isso.

Mas se eu não sei pra que existo, por que continuo a existir?

Porque somente existindo sem saber me faz escrever sem sentido.
Porque a possibilidade de tudo fazer sentido amanhã não me atrai — mas o fato de eu pensar amanhã o que não pensei hoje me deixa curioso.
E para lembrar o que pensei ontem, eu escrevo.
Para que as perguntas fiquem empilhadas no caos que é existir.

Eu sei, é uma maluquice gigantesca.
E, no final, estamos todos mais perdidos do que no começo dessa escrita.
E a graça está justamente nisso.

Ninguém precisa ter um monte de sentido para sentir o que sente.
Estamos todos errados de acordo com o ponto de vista de alguém.
E vamos continuar estando errados.

O que me faz mais feliz do que se eu encontrasse um monte de pessoas dizendo que estou certo.

No final, os pontos de vista mudam. As opiniões também.
E, a não ser que eu interrompa minha vida, vou continuar existindo enquanto me for permitido, biologicamente.

Estou preso a um mundo onde certezas mentirosas vendem muito mais do que dúvidas sinceras.
E, dentro do que isso me permite ser livre, eu sou.

Não na arrogância de me bastar, mas na humildade de saber que não sei quem eu sou. 

segunda-feira, 28 de julho de 2025

Não uso marcadores de livro

O meu ritmo de leitura é tão aleatório quanto qualquer coisa que eu faça que não seja vir trabalhar todo dia. Não fico naquela de “ah, quantos livros eu li na vida”, “ah, quantos livros eu li esse mês”. Acho muito mais honesto ler quando tenho vontade, e quando não tenho, não ler. Simples.

Ando com vários livros na mochila. Não sei quando vai me bater a vontade de ler algum deles. É como jogar videogame: uma hora você quer e joga a noite toda, e quando vê, o dia tá amanhecendo. No outro dia, você nem lembra que o videogame existe.

“Nossa, vá ler livros! Tudo fará sentido, você ficará mais inteligente.” Mas esquecem que os idiotas também sabem escrever — basta ver isso que você está lendo agora, o que eu estou escrevendo. Até porque, com o tanto de gente que lê pra caralho, que diz que é inteligente, e o mundo continua a mesma merda... E isso nem é pra dizer que ler é ruim, não é. Mas tentar entender o que está escrito é algo que não dá pra ficar monetizando. Aliás, dá — é só ver o tanto de canal de resenha de livro, gente escrevendo e pedindo pra youtuber reagir, comentar, ler — e não dizer o que acha realmente, mas falar pros outros comprarem.

Peguei um ódio por livros na adolescência. Era muito ruim ficar ouvindo que, se eu não lesse Machado de Assis, eu não passaria no vestibular. Não, eu não passei no vestibular — mas não foi por causa do Machado de Assis. Ele nem sabe o que eu fiz. Sempre achei essa imposição de ter que ler esse ou aquele cara obrigatória uma bosta.

Hoje você tem um CEO de qualquer coisa que ganha uma grana violenta e nunca leu porra nenhuma — e geralmente é o cara que lança um livro (ghostwriter) com a fórmula para o sucesso.

Os livros que eu leio não uso marcadores de página. Pelo menos, não os comprados ou brindes — eu os perco todas as vezes. Então uso um pedaço de papel qualquer, geralmente um pedaço do maço de cigarros. Não fico tratando livro como algo sagrado — já tem maluco demais fazendo isso com a Bíblia, e olha o que tá acontecendo.

Não sou adepto da canalhice intelectual de querer dizer que sou inteligente e profundo porque leio tal autor, porque entendi outro. No final, eu li Machado de Assis, mas só quando mais velho. E penso: ainda bem que me dei esse tempo. Porque é uma leitura chata pra caralho. O cara é genial? Óbvio. Mas é chato pra caralho de ler. É realmente o tipo de leitura que aquele acadêmico que exibe todos os seus cursos gosta. Mas um adolescente realmente vai preferir Harry Potter e Jogos Vorazes.

Eu até ia ler alguma coisa hoje, mas perdi a vontade.

Música: O Equivocado — Ratos de Porão

domingo, 27 de julho de 2025

Pensando dentro da caixa

Vejo por aí as pessoas procurando respostas para as perguntas — e se contentando com o que lhes oferecem. Isso faz com que a religião tenha o poder que tem, e que a astrologia seja o "pensar fora da caixa". Sei lá, me dá a impressão de que as pessoas tentam se identificar com as outras pelas certezas, quando na verdade são as perguntas que fazem com que não estejamos sozinhos.

É tipo você sair por aí meio perdido, encontrar alguém também perdido, e ficar feliz por não ser o único maluco que não tem certeza de porra nenhuma — que não é um sujeito de alta performance (termo absurdamente idiotizado hoje, tipo “alta performance dermatológica”), mas sim alguém que veio para esse mundo sem saber o que era pra fazer, sem escolher porra nenhuma, e mesmo assim tem que achar um sentido.

Certezas vendem cursos, criam gurus, salvadores… e justificam toda a bosta que vemos por aí — tipo produzirmos comida pra caralho, mas ter gente que não tem o que comer. A certeza é aquela que faz você repetir, validar, e não dizer nada sobre o absurdo do “a comida está à venda por tal preço, se você não tem o dinheiro, que se foda”.

Parece que você está sozinho procurando algo que ninguém tem como te ajudar a achar. Parece que você é um simples maluco que pensa demais em tudo, quando o melhor seria simplesmente ter a certeza de que alguém disse — e viver feliz para sempre, dopado com as "verdades" ditas por quem se esconde atrás de alguma questão moral. E você, no meio de tudo isso, silenciando todos os pensamentos, todas as dúvidas… porque o que vende, o que é bom, quem é foda, é quem tem certeza de tudo — como se a vida fosse uma planilha editável, e não um caderno de rascunho, cheio de rabiscos e rasuras.

No final, você é visto como arrogante por ficar quieto em vez de falar qualquer merda. Porque geralmente, falar merda é só confirmar algo que alguém já disse — naquele eterno teatro das pessoas que não procuram conversar, mas sim confirmar o que já pensam.

“Ah, mas você tem que pensar fora da caixa.”
Mas que caixa?

Se eu tenho que pensar fora dela, então o que tá dentro?
E se eu pensar algo fora da caixa que todo mundo concorda… então é dentro da caixa?

Pensar fora da caixa é meio que pensar em outra caixa — aquela onde quem pensa te elogia por ter sido “brilhante”. Porque a primeira caixa é o que chamam de normalidade, e o “fora da caixa” é o que chamam de criatividade. Mas o real fora da caixa? Esse é o que chamam de absurdo, irritante, feio, sem sentido… e logo colocam na caixa do erro.

Ou seja: pra humanidade, você nunca vai pensar fora da caixa. Sempre que você pensar algo novo, alguém vai te dizer que tal pessoa já pensou isso antes.

Esse círculo vicioso vai matando a vontade de falar qualquer coisa.
Você começa a guardar pra si tudo que parece não fazer sentido, e isso te coloca em diagnósticos, em rótulos, em mais caixas. A ponto de você preferir o silêncio. Mas esse silêncio também fode, porque às vezes você era o único que podia mostrar pra outro perdido que ele não tava sozinho nessa merda toda.

E assim as pessoas se conectam com as certezas fáceis, deixando o real de lado.
Você acaba sendo aquele que era quieto demais, que não quis ser foda, não quis ser notado, não quis gritar certezas pra ser amado.
E acaba sendo odiado — porque a sua dúvida incomoda a certeza subjetiva do outro.

Ninguém pensa fora da caixa.
Porque, no final, tudo é caixa e nada é caixa.


Música: “All Moving Parts (Stand Still)” – Black Sabbath

sábado, 26 de julho de 2025

Três acordes

A guitarra hoje já não recebe a fúria do moleque que amplificava a revolta em três acordes, onde o som rasgado era parte da voz silenciada pelos adultos ao redor — era o incômodo aos ouvidos dos vizinhos, o som merda no ouvido daqueles que nunca tiveram coragem de subir em um palco e dar a cara a tapa, se expor aos julgamentos, não sem medo, mas com a fúria maior.

Não. Hoje ela é apenas um instrumento, tocado no silêncio dos fones de ouvido, como uma lembrança de quem fui, do que fiz — já que a vida comum se torna obrigatória, suprimindo os momentos em que você pode ser você, fazendo com que sua essência seja dosada a conta-gotas, enquanto se vê sozinho em um mundo onde todo mundo faz a mesma coisa.

Os versos das músicas punk não são mais entoados, mas sim imaginados ou lidos enquanto se escuta a velha guitarra reformada dizendo que ainda está ali, se precisar — onde o moleque revoltado ainda é alguém que pode usar as lembranças para se sentir parte de algo, para poder quebrar o silêncio do “fazer o que se tem que fazer” com um Ramones mal tocado.

O menino revoltado cresceu.
A sua revolta não ficou menor — apenas foi tendo que ser colocada em uma prateleira cheia de prioridades mais importantes: do tipo comer, pagar as contas e ser, de alguma forma, socialmente aceito. Um sujeito que produza para o bem maior, para fazer com que tudo aquilo que o moleque odiava continue funcionando como um ciclo eterno de absurdos, que, de tempos em tempos, é aumentado pelas facilidades do avanço tecnológico — da comodidade dos produtos que “facilitam a vida”, mas que, no final das contas, só fazem com que você se sinta mais dopado, com uma falsa noção de preenchimento.

Hoje o homem pratica suas pequenas revoltas e sua identidade escondido dos olhos dos chefes, da família — pois que homem maduro gostaria de passar o tempo tocando som alto de três acordes, bebendo cerveja, fumando cigarro e dando risada com os amigos, falando de como estar na merda pode ser engraçado?

A vontade do corpo não é mais de querer mudar o mundo.
O mundo não merece ser mudado.
Ele está aí, servindo de playground para os que, de alguma forma, conseguem dominar o outro.
O físico não quer mais sair e dizer que está tudo uma merda — até porque isso pode queimar o filme e fazer com que se perca o emprego e o sustento.

Daquela época sobraram alguns vícios:
O cigarro — que algumas pessoas adoram dizer que têm nojo, que faz mal para a saúde, que quem fuma é maluco porque vai te matando.
Engraçado que falam isso após beber todas no happy hour e irem para casa dirigindo.
Se não são esses, são os que pegam carona no carro do bêbado só para chegarem em casa mais rápido.
O videogame — que foi refúgio para a solidão, e hoje já não é tão utilizado, porque lembra o filho que só vai vir jogar com você novamente daqui 15 dias.
O punk — que nunca morre, vira tatuagem.
E o pior de todos os vícios: pensar demais.
Aquele vício que é combustível para a própria mediocridade.
O que faz escrever textos como esse.

E o mais cruel não é o vício de pensar certo.
É o vício de pensar demais — que faz com que, no final, as overdoses e a destruição do romantismo do “sonho médio” virem patologias que, ironicamente, só são tratáveis se você tiver dinheiro para poder pagar um psiquiatra ou um psicólogo.
Com sorte, os dois.
Sendo alguém de sucesso, digno de um TED Talk, se puder — além dos dois — comprar os remédios para dormir, acordar, regular o humor, ajeitar a dopamina, tratar a doença que nem o pior dos cigarros pode causar: te tornar incapaz de sair sorrindo todo dia para fazer da sua vida o que quiser, segundo os coaches, e não fazer nada de fato, segundo você mesmo.

O cigarro acabou.
E o texto também.

Música: “Cala a Boca” – Inocentes

sexta-feira, 25 de julho de 2025

Puta que pariu!

A solidão sempre foi uma companheira de vida, e os momentos de ausência me deram tempo para pensar.

Não fui o cara de ficar lendo milhões de coisas, estudando, querendo construir uma vida confortável no que se diz em ter um bom emprego, uma vida estável.

Sempre vi a loucura que era não ter ninguém em casa a maior parte do tempo — e, quando tinham tempo, não faziam nada além de ajeitar as coisas para que a casa funcionasse durante a semana de ausência.
Eu não queria fazer parte disso.
Claro que era um pensamento de criança que não entendia que, para você ser minimamente alguém, tem que vender seu tempo, sua felicidade, sua convivência com quem você ama, para, nas férias, quem sabe, fazer alguma viagem legal — e ficar endividado o resto do ano seguinte, até as próximas férias.

Eu tento, durante o tempo que tenho com meu filho, ficar junto com ele.
Não precisa ser aquele "estar fazendo a mesma coisa que ele", mas ser o que, por um lado, eu não tive — aquele adulto do lado ou por perto, para quando eu virasse o rosto, não me sentisse sozinho.

Eu mostro as minhas falhas, eu mostro que dá pra rir das merdas que acontecem, ao mesmo tempo em que também me mostro triste, chateado, cansado, sei lá...
Não teria sentido eu me mostrar como um super-herói, o cara que não chora, o macho alfa — porque isso seria uma canalhice sem tamanho com a pessoa que mais precisa da minha humanidade.

As poses ele vai aprender.
Algumas delas eu ensino, mas sei lá... isso vai ser tacado na cara dele de todo jeito.
Eu só quero mostrar que, comigo, ele pode cair, falhar, vir machucado, triste, com ódio, que eu vou ouvir.
Se ele precisar de algo, eu vou falar.
Se não, a gente liga o videogame e distrai a cabeça.

Eu falo pra ele sobre algumas coisas que me aconteceram quando criança.
Não dá pra se ter muita ideia do que estou fazendo como pai — meio que faço o que bate na hora na minha cabeça.
Óbvio que não o tempo todo, não sou um inconsequente.
Claro que existe uma linha natural, que é meio que pai, mas eu acho que o terror e a diversão de nunca saber direito o que é que você vai fazer é o que torna tudo mais sincero.

Quando ele era pequeno e estava aprendendo a falar, estávamos eu, ele e a mãe dele — minha ex-esposa, com quem fui casado oito anos — naquele ritmo de domingo.
Eu ali jogando, ela vendo o celular, e ele brincando e vendo eu jogar.
Tudo normal.

Até que eu morri no jogo.
Aquela frustração, aquele momento onde você meio que desliga e mandei um “puta que pariu” sincero.
Quando olho pra ele, vejo que estava reparando no jogo, aí ele aponta pra tela e fala:

Pupa pi paiu.

Eu dei risada porque ele mandou um “puta que pariu”, peguei ele no colo e dei um beijo, rindo — até que olho pro lado e vejo minha ex olhando brava pra mim, como quem diz:
"Você reparou o que você fez?"

Automaticamente, novamente sem pensar, falei alto:

Caralho, falei palavrão perto da criança!

Ela olhou de novo pra mim, naquele tipo “PARA!”.
Eu com os olhos arregalados, mas querendo rir pra cacete por causa daquela situação, olhei outra vez pro meu filho — e ele começa a rir.
Eu não aguentei, comecei a rir também.
A minha ex também não aguentou, e riu no final das contas.

Anos se passaram, e agora, quando ele vem pra casa, manda vários “puta que pariu” — e rimos juntos.
Mas, fora dali, ele não fica falando palavrão.
Pelo menos, não de forma mal-educada.

Música: "Trash" – The Wip

quinta-feira, 24 de julho de 2025

1994

Quando eu tinha meus 8 anos, eu ia para a escola que era perto do trabalho da minha mãe. Eu estudava à tarde. Lembro bem do ano e de quantos anos eu tinha: era 1994. Ano do tetra, ano da morte do Ayrton Senna e ano da morte de uma tia minha.

Eu ia para o trabalho com a minha mãe, pois ela entrava às 11 da manhã, e ali ficava com ela até chegar a hora de ir para a escola. E depois que saía, por volta das 18h, eu voltava ao trabalho dela e passava essa última hora lá, até podermos voltar juntos para casa. Foi uma época legal, onde eu aprendi a pegar o ônibus. Grande parte das vezes, eu ia para um restaurante simples, o nome era Trivial, e lá, como minha mãe tinha conta, o dono do restaurante marcava a minha comanda do almoço para ela pagar na hora que fosse almoçar. Geralmente tinha batata frita, um arroz e feijão básico, e um bife. Sempre que podia, pegava o molho rosé, e de sobremesa, pegava chantili puro e comia. Eu sempre fui muito magro e não comia muito, então as contas não eram altas nem absurdas. Era uma boa vida.

Sempre fui alto, muito branco, meio pálido e magrelo. Isso, aliado ao meu estilo com cabelão, era meio esquisito, pois eu era aquela criança que usava um tênis vermelho, roupas de uniforme e uma mochila velha em dois tons de azul da Hang Loose que meu irmão havia me dado, já que ele tinha comprado uma nova da Ocean Pacific no lugar.

A escola era normal. A grande questão é que, naquela época, não existia limite de série por turno. Então era do primeiro ano ao terceiro colegial juntos, o que fazia com que sempre os mais novos ficassem com medo.

Como eu almoçava antes de ir, não levava lanche, e também não pegava merenda. Não porque eu não gostasse, nem nada disso — era só o fato de não estar com fome mesmo.

Não havia nada de extraordinário nessa dinâmica. Era meu dia a dia. O único grande porém era que eu ficava sozinho a maior parte do tempo. Sempre fui muito quieto nessa questão e não tinha aquela coisa com os amiguinhos. Eu ficava sentado na aula, ouvindo, tentando aprender, sempre com aquela dúvida sobre a tabuada — que foi resolvida por um tempo, porque meu irmão me deu um lápis que tinha toda a tabuada nele. O problema é que, de tanto apontar, já era: não tinha mais onde consultar caso tivesse dúvidas. E eu tinha esquecido de pedir outro pra ele.

Tudo sempre igual. Eu não me divertia na escola, nunca me diverti. Só estava ali porque tinha que estar. Afinal, era obrigação de toda criança ir pra escola, obedecer os pais, tirar boas notas, ser comportado, e nos tempos vagos, poder jogar um videogame ou ir para o parquinho.

Nesse contexto todo, um dia começa o recreio — sim, recreio, porque eu tinha 8 anos. “Intervalo” é para os mais velhos. Estava eu ali, tranquilo, o sinal tocou e eu desci as escadas de madeira do velho edifício. Uma escadaria que lembra a de Resident Evil, mas em tamanho reduzido. Segui para o pátio, e a quadra ficava aberta. Lá o pessoal ficava jogando bola, e o resto do pessoal, sentado na volta toda da quadra.

Encontrei um lugar para sentar e fiquei de pernas cruzadas, com a mochila em cima das pernas, só observando tudo e esperando o tempo passar para voltar para a aula. Ali, vendo tudo acontecer, aparecem dois alunos mais velhos na minha frente, me olhando com curiosidade. E logo um deles me pergunta:

— Você é menino ou menina?

Eu olhei meio assustado com a pergunta, porque nunca tive que responder isso antes. Eu meio que senti um frio na espinha. Achei que iam me bater, sei lá, muita coisa passou na minha cabeça. E eu só respondi:

— Eu sou menino.

Os dois se olharam, deram risada e saíram. Por um momento, fiquei ali com aquele frio na barriga e, ao mesmo tempo, sentindo que eu fui zoado pra caralho. Afinal, não dava pra saber se eu era menino ou menina. Daquele dia em diante, eu comecei a me esconder mais no recreio. Ficava com medo, só usava o banheiro nos horários de aula, porque comecei a ficar com medo de usar no horário do recreio. Eu não sabia processar aquela pergunta de maneira inteligente, sei lá, fiquei pensando nisso.

Quando saí da escola e falei com a minha mãe, eu falei que estava tudo bem. Eu não queria dar trabalho, nem nada disso. Então, de alguma forma, eu guardei aquilo pra mim.

Cortei o cabelo tempos depois, o que a minha mãe adorou. Mas cada vez que eu cortava o cabelo quando criança e ela falava empolgada “como ficou lindo”, eu dava um sorrisinho sem graça — mas, por um lado, ficava feliz por ter agradado ela.

E quando adolescente, quando cheguei naquela fase em que todos os amigos estão falando de beijar, de sair com alguém, de xavecar, eu olhava como se estivesse de fora. Lembra a cena do filme O Virgem de 40 anos, quando ele fala sobre mulheres, e os caras sabem que ele tá mentindo, desconfortável em falar daquele assunto?

Passei a adolescência me questionando, mas ao mesmo tempo colocando as coisas de lado. Porque eu queria tocar, queria escutar música. Não tinha realmente muitos amigos — nunca tive — então esses momentos em que você se vê preso a uma dinâmica adolescente, só para não ser o cara que ficava sozinho o tempo todo…

A diferença é que, adolescente, eu conseguia ficar mais em paz comigo mesmo em alguns momentos. Porque eu fumava escondido da minha mãe. 












Música: Não é Permitido - Inocentes

quarta-feira, 23 de julho de 2025

Sentimentos sinceros

Em mais um surto de pensamentos aleatórios da madrugada, regada a quetiapina que não fez efeito e Lucky Strike (filtro vermelho, por favor), me pego pensando em um assunto que, por muitas vezes, já me passou como se eu visse uma árvore na lateral da pista — mas eu estivesse em um carro em alta velocidade. Só identifiquei que era uma árvore, mas não sabia qual era, nem onde estava.

Mas, nessa madrugada especialmente fria, me pego mais uma vez ruminando as coisas, mastigando meus cacos de vidro.
Aqui estou eu, mais uma vez, com essa troca de porradas comigo mesmo — onde eu bato na minha própria cara enquanto dou risada com a gengiva sangrando, os dedos inchados, a mão doendo — para chegar a uma conclusão completamente sem sentido… ou com muito sentido, a depender do ponto de vista. Do quanto você bebeu. Do cigarro que fuma. E, mais importante, do quanto você já se fodeu.

A raiva é o único sentimento honesto. O único que realmente faz com que a ação não seja totalmente vazia.
Estava aqui pensando… o amor é a Síndrome de Estocolmo dos que já ficaram presos em uma paixão durante tanto tempo que, quando ela morre, você fica tentando reviver aquele cadáver.

(O que eu falo é sobre o amor romântico, não o maternal ou paternal — esse foge a qualquer regra. E só quem tem filhos consegue entender.)

O ódio é como uma bomba que vai cair e destruir tudo. Ela não caiu, mas está no caminho.
Não há o que possa detê-la: são toneladas de pólvora direcionadas a um local que, embora calculado, não tem previsão do impacto real.

E a paixão, como dito antes, é um sequestrador.
Ela te mantém refém.
A negociação é truncada.
A razão não transita.
É como se, em vez da bomba do ódio, estivesse uma arma apontada direto pra sua cabeça.

A raiva, no entanto, é o atrito entre o que se é e o que se quer ser.
É o meio desconfortável.
É aquela vontade de ir embora de um rolê chato pra caralho — e que seria a melhor decisão se você não odiasse parecer chato.
Ou se não fosse refém da performance social.
Ou, ainda, se já não sofresse da Síndrome de Estocolmo e ficasse ali por amor às pessoas que não merecem.

Talvez esse meu pensamento seja apenas resultado da insônia.
Talvez seja algum delírio.

Acho que vou fumar outro cigarro.

Música: Human – Rag’n’Bone Man

terça-feira, 22 de julho de 2025

Diversão garantida!

Estava aqui me lembrando das vezes em que fui para festas, confraternizações, eventos sociais diversos, onde o intuito era se divertir, tomar algumas cervejas, bater papo e voltar pra casa — o que, até aí, é muito válido.

Porém, começo a lembrar que, independente de qual evento social seja, ele sempre vai se fragmentar em grupos menores: as panelinhas.

As pessoas começam sempre a se dividir em grupos, com seus diplomatas que circulam entre eles — geralmente a pessoa "da galera" ou, em evento de trabalho, algum supervisor. Nada anormal.

Dentro dessa dinâmica curiosa, que sempre tem (não adianta dizer que não), eu me vejo como o cara ali, parado nos corredores, dando espaço para os supervisores, enquanto fumo meu cigarro, tomo minha cerveja, como meu petisco, observando cada um dos grupos — e me culpando internamente por não conseguir estar em nenhum deles de verdade.

Claro que, em alguns momentos, eu até entro em algum grupo onde tem alguém com quem converso mais. Mas é só para ficar sorrindo e balançando a cabeça afirmativamente enquanto alguém fala.

Ou, às vezes, dá certo de algum infeliz puxar papo comigo — e aí dura horas, eu falando de alguma coisa com conexões absurdas, como estou fazendo agora. E vejo nos olhos da pessoa que ela já não está entendendo mais nada. Mas sigo no monólogo. E, em cada pausa para um cigarro novo, fico mentalmente me chamando de idiota por estar fazendo isso, pensando dentro de mim: por que estou falando tanta coisa só porque a pessoa pareceu querer ouvir?

Aí eu saio de cena e volto para o limbo entre grupos, com a imagem mental de eu me dando tapas na cara. Isso faz com que eu questione toda a minha presença física naquele lugar: a roupa que estou vestindo, o tanto que bebi, o quanto fumei, que horas são, que horas seria apropriado ir embora sem parecer rude — ao mesmo tempo em que sei que ninguém vai perceber a hora que eu sair. Mas, mesmo assim, fico.

Fico nesse limbo mental e físico de não pertencer nem a mim mesmo. Jogando tudo de um lado para o outro, como se estivesse numa brincadeira de pular corda, esperando o momento para entrar, pular e me divertir. Sempre hesitando. Não porque não sei a hora de entrar, nem porque não sei pular — mas porque fico projetando a queda, as risadas, o julgamento. E me vejo estatelado no chão igual um saco de bosta, tendo que rir da própria desgraça pública.

Enquanto isso, continuo bebendo uma cerveja atrás da outra e fumando um cigarro atrás do outro. Sempre compro dois maços quando vou para algum lugar assim — já que o álcool me faz querer fumar muito mais. Além disso, tem o fato de beber para parecer mais social, ou para criar coragem de colocar todos os pensamentos de lado e simplesmente aceitar ser ridículo.

O foda é que eu não me acho melhor que ninguém. Na verdade, todos ali naquele ambiente são mais legais que eu, são mais sociais, se vestem melhor para a ocasião, têm os melhores assuntos, o sorriso mais bonito, os melhores cortes de cabelo. E, mesmo achando tudo isso, eu insisto em ir. Quase como um sadomasoquista — não porque gosto das pessoas ou dos ambientes, mas porque preciso sair da minha própria caverna, onde mal escuto minha própria voz, exceto durante a jornada de trabalho.

E ali, eu paguei para entrar — ou recebi de graça o convite para a confraternização. Então, que filho da puta sou eu, que não me divirto? Que não tenho esse dever moral de gostar? Quem eu penso que sou?

No final, eu vomito na mesma privada, sozinho, em casa. A mesma privada que vou ter que limpar amanhã pela manhã, já que, de tanto beber, não consegui acertá-la em tempo.

Música: Hogjaw – Swamp

segunda-feira, 21 de julho de 2025

Líquido não newtoniano

Eu me sinto denso em meus próprios pensamentos, como se vivesse nesses embates existenciais aos quais me reconheço, mas sobre os quais tenho pouco ou nenhum controle. É como se eu estivesse de frente com um líquido não newtoniano: se dou um soco de raiva, bato em um muro meio esquisito de verdades e regras que não consigo ultrapassar; mas, se fico em cima dele sem fazer nada, afundo e corro o risco de me afogar nessa dualidade horrível.

Ao mesmo tempo, me sinto em paz com isso. Porque sei que, enquanto ando em volta e vejo esse líquido aumentar de volume conforme a minha idade avança — já que as regras de um corpo velho vão colocando cada vez mais limitações físicas e mentais sobre o que sou — percebo que eu não sou só aquele líquido, mas também o cara que dá o soco nele, e o que fica parado em pé ali. Todos ao mesmo tempo.

Chega a ser uma viagem fodida pensar nisso. Até eu me pego surpreso com o que isso quer dizer, afinal, não sou tão inteligente assim pra ficar fazendo esse tipo de constatação filosófica. Eu não li Platão, não gosto do Pondé, acho o Cortella piegas e o Karnal chato. Isso me coloca numa ralé intelectual — daqueles que são censurados quando pensam, mesmo quando pensam certo. E talvez essa minha pirraça seja a essência de tudo.

O pensamento que estou tendo agora, nesse momento, talvez seja o mais abstrato que já tive na vida — ou talvez seja o mais lúcido. Não sei. Mas o que eu realmente quero dizer é que sei que a vida é uma merda por essência. Afinal, nascemos em eventos aleatórios que alguém pode até chamar de milagre, mas é tão aleatório que, se você não acreditar em nada, você enlouquece. Talvez algumas pessoas. Não todas.

Ser maluco é apenas uma visão oposta a ser são: é ser esse líquido não newtoniano que não é líquido, nem sólido, nem normal, nem comum — mas que existe. E serve como experiência legal pra ensinar na escola ou pra algum youtuber usar como conteúdo.

Não adianta. Por mais que as pessoas ignorem, eu existo. Nesse momento. Aqui. Fisicamente, mentalmente. E não há como qualquer um me dizer que eu não sou ninguém. Afinal, eu sou eu. Não preciso ser mais que isso. Os rótulos que colocam durante as fases da vida são apenas checkpoints para poder, de alguma forma, te encaixar num senso comum de existência — onde a destruição é coletiva e a culpa, individual.

Esse pensamento, no final das contas, talvez seja a coisa mais vergonhosa que eu já fiz até hoje. E eu escrever exatamente como sinto é, sim, de uma arrogância absurda — já que parece que penso demais, e que me gabo por isso.


Música: The pretender - Foo Fighters

domingo, 20 de julho de 2025

Com que roupa eu vou?

Nunca fui um cara que chama a atenção quando vai para os lugares. Sabe, aquele que se veste bem, aquele cara bonito, que faz as pessoas olharem com curiosidade? Não. Eu sempre fui o mais comum possível: calça jeans, tênis e alguma camiseta de banda.

Quando deixei de ser vestido pela minha mãe — que fazia questão de me colocar como aquele “menino bonitinho, bem cuidado, nossa, que criança linda” —, o que, na minha visão, era chato demais, comecei a me vestir de maneira simples. Não por uma questão estilística, mas por pura preguiça mental de ter que ficar mudando de roupa para cada ocasião. Isso era engraçado porque, quando eu era criança, eu odiava calça jeans. Achava incômoda. E, como sempre fui magrelo, tinha a impressão de que eu ficava horrível com elas.

Porém, com uma certa maturidade, vi que as calças não se limitavam aos modelos que a minha mãe queria que eu usasse. E aí veio a liberdade de usar calças baratas, mas que me deixavam confortável. O que era foda por um lado, já que meu irmão era o completo oposto de mim. Quinze anos mais velho, ganhava bem, e sempre estava com roupa de marca, bom sapato e um bom perfume — o que criava basicamente dois extremos: ele sendo o filhinho da mamãe, que mesmo adulto se vestia para agradar a todos, e eu, que na minha inutilidade e identidade, me vestia de forma simples, sendo basicamente o mesmo em todos os lugares.

Nunca levei a roupa como identidade — pelo menos não como uma fantasia social. Sempre me vesti da maneira que me sentisse confortável. O mesmo vale para cabelo e barba: sou do tipo que deixa o cabelo crescer durante anos e, do nada, raspa tudo.

Claro que esse tipo de postura nunca é muito aceita. Fora de casa, você vira o fantasma — a embalagem de alguém não interessante, que não merece ser atendido em uma loja, que não tem o olhar correspondido em uma balada, que na escola está à margem. Porém, dentro de casa, cada parte do meu visual sem intenção era julgado. Por muitas vezes, minhas camisetas de banda sumiram, porque “não eram músicas de Deus”. Ou minha calça rasgada era motivo de censura: “Como você ousa usar uma roupa desgastada, sendo que tem tudo o que quer?”

Sempre segui vendo essas coisas calado. O máximo que eu fazia era comprar outra camiseta, rasgar outra calça ou usar um tênis fodido no lugar de um novo. E, por causa da minha fobia social, esse limbo de não ser interessante me protegia de interações não solicitadas. Cresci assim: nunca quis ser protagonista de situação nenhuma. Quando falavam comigo, eu respondia — como um NPC de videogame.

Hoje, já sei que a roupa é uma forma de expressão, de personalização, e também uma forma de opressão e despersonalização (vide os uniformes). Fatalmente, tudo que você veste — por escolha ou falta dela — é, para o contexto geral, uma embalagem de como o mundo te vê. Ou, ao menos, julga.

Depois de velho, percebi que nada do que eu visto representa de fato o que penso ou sinto. São apenas maneiras de vestir uma armadura confortável para encarar o absurdo de, mesmo querendo ser nada, acabar sendo um monte de coisas — não porque você pensou sobre isso, mas porque pensaram por você.

Então, já que eu vou ser embalado de qualquer forma, que se foda o que eu visto. Estando confortável, já era.

Música: Freak – Silverchair

sábado, 19 de julho de 2025

Eu não sou um personagem bom

É como se eu fosse uma paródia de um personagem ruim de algum livro esquecido, que foi lido por meia dúzia de pessoas. Como se eu visse a minha vida de dentro e de fora, em um roteiro mal escrito.

Uma construção completamente sem pé nem cabeça, em um mundo absurdo criado pela cabeça de alguém aleatório, que mistura tantas referências que não se refere a coisa nenhuma.


E, nesse mundo, eu fico quieto a maior parte do tempo, onde não tem fala — só monólogos intermináveis escritos em páginas e mais páginas que deixam quem lê com a pergunta: "Sobre o que esse filho da puta tá falando?"


Entendo que as coisas são complexas, e eu sou complexo. Mas vejo tudo isso de uma forma muito simples, muito tranquila. Eu nunca falo do palco do ódio — da raiva, sim, do ódio, não.

Até porque não há como eu odiar a eterna derrota de não me sentir parte, de não me sentir algo ou alguém. Talvez, quando fosse mais jovem, mais adolescente, eu tivesse ódio.

Mas hoje, vendo as pessoas mais novas e analisando seus comportamentos, eu penso, na verdade, em quanto eu era burro, inocente — em acreditar que, na minha vitalidade de querer, o poder estava nas minhas mãos e eu poderia fazer da minha vida o que eu quisesse.


Nesse sentido, eu vejo que, quando mais novo, o ódio interno nunca foi combustível pra espernear como uma criança, ou pra procurar um sentido a qualquer custo pro caos que é parte de tudo que me cerca.


O chato, o cara de canto, o que não tinha a vibe do rolê, mas que, ao mesmo tempo, as pessoas achavam legal o suficiente porque falava sobre quase tudo com um conhecimento de causa que gerava um certo tipo de espanto — quando, na verdade, era só um teatro meu pra não ser totalmente engolido pela minha lucidez patológica que faz eu me considerar o mais burro dos seres humanos.


Sim, burro. Porque eu nunca me achei mais inteligente que a maioria, porque eu sempre via os sorrisos, as relações das pessoas, e me perguntava: quando vai ser a minha vez?

Quando eu iria me sentir assim? Quando eu iria simplesmente parar de mapear toda e qualquer coisa que acontece ao meu redor?

Parar de ficar como um robô, como uma entidade ali — a qual não julga ninguém, mas que pensa na hora que não é pra pensar, não se diverte na hora que é pra se divertir, e não acha graça em algo que todos deram risada.


Geralmente, meus relacionamentos, sejam eles quais forem, não são marcados pela presença constante, pelo afeto performático — mas sim pela ausência, pela crueza que muitas vezes as pessoas não entendiam e não entendem até hoje.

Fica parecendo sempre que eu sou o cara que sabe demais das coisas, que em algum assunto aleatório eu tenho algo pra falar, mas fico quieto de um lugar de arrogância —

quando, na verdade, é o silêncio de quem já viu aquele assunto sendo tratado milhares de vezes e todas iguais, mudando apenas o personagem que fala sobre aquilo.

Mas o pensamento, a apresentação e a conclusão do que está sendo dito... é padrão. É igual.


É um sentimento de autoexclusão, de se colocar fora de tudo porque simplesmente não consegue se ver minimamente dentro de nada.

Então fica nesse teatro: trabalho duro, responsabilidades da vida — quando, na verdade, queria mesmo era correr pelado na rua, gritando, xingando todo mundo e pedindo pra ser dopado pra que a cabeça pare de escrever, de pensar, de sentir.


As coisas que mais me deixam irritado são as pessoas que tentam colocar tudo em caixinhas:

"Ah, mas você é bipolar, é border, é isso, é aquilo..."

Porque ouviram um podcast falando sobre sentimentos e, como médicos formados pelo ChatGPT, te dão um diagnóstico —

quando, na verdade, não conseguem olhar a complexidade de uma pessoa como simplesmente complexidade.


Não tem que ser um conjunto de fatores esses, que somados são iguais a isso — uma equação simples que te coloca num balaio onde há mais um monte de gente que não faz a mínima ideia do porquê está ali.

E outras que acreditaram que seus sentimentos e formas de pensar formaram padrões que fazem com que tudo tenha sentido.


Tudo isso em um personagem que ninguém faz real questão de ler — só quando você paga por 50 minutos, que nunca são suficientes pra você dizer quem realmente é.

Até porque você não sabe.

A pessoa que te ouve também não sabe quem você é.

E, mais ainda: ela também não sabe quem ela é.


Música: The man who sold the world - Nirvana