Um jogo sobre ser zumbi em um mundo pós-apocalíptico depois da era do engajamento, da ostentação e da criação de conteúdo a qualquer custo.

Como um zumbi sem conseguir dormir, olheiras aumentando, eu peguei para jogar Dead Island 2. O jogo conta com uma gameplay divertidíssima, cenários muito bem construídos, história mais ou menos, porém com um pano de fundo que, apesar de raso como um simples jogo de zumbi, mostra muito mais do que uma ode à violência gratuita para fins de entretenimento.
Logo de início, você escolhe o personagem que vai controlar e mata todos os outros. Ou seja, já no começo, o jogo não é sobre uma escolha simples. É sobre quem você vai jogar no inferno da sobrevivência a qualquer custo e quem terá uma morte mais rápida e brutal, mas ainda assim menos lenta do que tomar milhares de mordidas de mortos-vivos que só querem se alimentar de um pedaço seu.
E mais uma vez não é uma análise técnica sobre frames, gráficos e jogabilidade, mas digo que todos são competentes, e a forma como o jogo é entregue sustenta o entretenimento e dá espaço para interpretações.
O palco dessa obra é Hell-A, Los Angeles, símbolo da ostentação, da desigualdade, do conteúdo midiático, paraíso da ganância, do egoísmo, o sonho do capitalismo, cidade dos anjos que, aqui, em seus vários mapas, se torna um personagem. Ela mostra como seríamos simplesmente aniquilados pela inocência de acreditarmos que seríamos protagonistas em um apocalipse.
Os zumbis vestindo suas roupas caras sujas de sangue, as mansões sendo invadidas e outras usadas como bunkers mostram a desigualdade do ego, colocando você não em dilemas morais, mas simplesmente jogado em um local morto por essência. Os que estão sobrevivendo, em sua maioria, ainda tentam ser relevantes para os outros, tentam subjugar o próximo, dar ordens, enquanto a população de zumbis está no caminho, não destruindo, mas consumindo tudo o que é vivo, só deixando a paisagem morta, os monumentos aos motivos que mataram todos.
Durante todo o tempo você vai se ver entrando em mansões com quartinhos cheios de câmeras, casas dos criadores de conteúdo. Ah, os influencers, sim, eles mesmos, com suas caixas de produtos recebidos de presente. E o que parece absurdo: os que sobreviveram fazendo lives zoando os zumbis, alguns pedindo para você acabar com eles de maneira estilosa, para manter o engajamento, manter a relevância.
O que vemos ali são os sobreviventes basicamente não aceitando que todo mundo morreu e que não têm mais influência sobre ninguém. Nós, zumbis, estamos ali comendo e destruindo todo o conteúdo que sobrou, somente para nos mantermos “vivos”. O jogo pode não ter essa premissa de ser crítico a uma sociedade vivendo no capitalismo tardio, mas é exatamente isso. A violência, o gore, o tosco e o conteúdo são jogados na sua cara, falando para você se entreter e se divertir com aquilo, enquanto você é o zumbi que faz de conta que é o protagonista do jogo.
Mais uma vez, os zumbis vestindo ternos, outros com roupas de praia, alguns bombados de academia, outros obesos, alguns com corpos padrão totalmente destruídos pelo vírus, que os faz ser apenas obstáculos em sua progressão. Enquanto isso, você recebe ordens de pessoas narcisistas e ególatras, que no final são as mesmas que dão ordens de verdade para aqueles que acham estar fazendo alguma diferença no mundo.
O jogo tem um clima festivo e carismático, personagens cheios de atitude, e tudo isso joga na sua cara que você acha graça em estar colocado em um mundo absurdo, onde, se olhar bem, não é tão absurdo assim.
O jogo é divertido, está no Game Pass, e você pode se alimentar sem pensar, como um zumbi jogando, se divertindo e podendo ser um “protagonista” nessa Hell-A, enquanto está de folga para estar preparado para agir como morto-vivo no dia seguinte.
Diversão garantida para zumbis e sobreviventes do capitalismo apocalíptico. Ou somos todos zumbis?
Melhor parar, pois logo vão me chamar de comunista de iPhone.





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