quinta-feira, 21 de agosto de 2025

Na insônia eu joguei - Robocop: Rogue City

 Um jogo sobre um robô, uma cidade podre e por que você também é um funcionário desumanizado

Comecei a jogar Robocop: Rogue City, e o jogo me fez revisitar uma nostalgia com um olhar menos imaturo sobre tudo o que o mundo dessa obra trata. Não quero ficar falando de gráficos, que são bons, apesar de eu estar jogando no Series S, ou seja, não tenho a melhor experiência gráfica possível. Normal. Isso não é um review de game de forma técnica convencional. Pode procurar sobre isso que vai achar. Também não vou falar sobre a jogabilidade, apesar de ela ser muito legal, levando em consideração o fato de o cabeça de lata ser pesado e não ter a movimentação frenética comum hoje nos games. As habilidades e evoluções são muito legais e ampliam a questão do controle e de como você vai interagir com o mundo de Detroit toda cagada.

Na verdade, o que eu quero dizer é como o jogo consegue capturar muito bem o clima da obra. Tudo que faz Robocop ser Robocop está lá. A violência, que por incrível que pareça é menor no jogo do que no filme, especialmente o primeiro. A crueza da merda toda da cidade. A banalidade da violência. O humor. Tudo está ali. Saliento o humor no exemplo em que, em dado momento do jogo, aparece uma criança escutando música na rua, e você passa por ela, podendo fazer a dança do robô e deixar a criança feliz por um momento. Isso mostra um pouco da galhofa que permeia todo o enredo.

Detroit de Robocop é toda lazarenta. A criminalidade impera, a violência é vendida como commodity, o pânico mora, o populismo barato serve para os poderosos mas custa caro para os moradores da cidade. Isso é reforçado nos comerciais de TV e rádio, sempre mostrando algo absurdo, algo que monetiza a merda. Basicamente, o mundo de Robocop é um mundo onde tudo foi privatizado, onde o lucro vem antes do bem comum, e em nome dessa evolução, dessa utopia onde o capital e o investimento vão tornar tudo perfeito, Delta City será construída nos escombros da velha e decadente Detroit.

Robocop é a representação do funcionário desumanizado. Ele chega como um homem normal, honesto e querendo fazer a diferença. É morto e depois revivido como máquina. Ou seja, o lucro destrói o funcionário, mata a humanidade dele, e o próprio capital o revive como ser funcional, em que ele vai executar a função de maneira robótica. A corporação, no caso a OCP, quer apagar a humanidade que sobrou no herói metálico, colocando essa humanidade que aparece em alguns momentos como defeito.

Aliás, no jogo isso é colocado logo de cara. O início já joga essa humanidade como fraqueza, como hesitação. Alex Murphy morreu e ressuscitou para salvar a cidade de seus próprios pecados, tendo que bater de frente com quem o criou e entrando em dilemas morais e humanos. Isso faz com que toda a obra seja muito mais do que um robô chutando bundas por aí. Toda a crítica, o tom anárquico da obra original, é exaltado e colocado de maneira absurdamente eficiente no jogo, onde você se sente na pele do protagonista. Os diálogos são bem construídos e a história convence quem já gostava do original (me recuso a falar do remake, que é uma merda). E ainda pode fazer novas pessoas quererem saber de onde aquilo vem, onde a história começou, e não ficarem tristes de acharem o jogo melhor, mas perceberem que o filme, principalmente o primeiro, é ainda melhor e dá muito mais profundidade à história.

Como jogo, ele diverte muito, pois é equilibrado na parte de investigação e na parte de tiroteio frenético. E convenhamos: poder aguentar tiro pra caralho, ir avançando e descendo bala em todo mundo é sensacional.

Algo que também compõe o universo do jogo e dá aquele gosto de “ah sim, os caras acertaram” é o fato de você encontrar documentos e neles ver que o caos é estrutural. Não é só a violência do tiroteio, dos crimes de rua, não é apenas sobre a postura das pessoas em um mundo fodido, onde elas não dão lucro. É ver o caos na delegacia por causa da burocracia, o lixo nas ruas, o emprego cagado, as pessoas morando mal, sem dinheiro pra comer. E com isso toda a sociedade passa a ter uma visão deturpada de justiça, o que faz com que você seja confrontado com dilemas éticos que, por mais superficiais que pareçam durante o jogo, mostram que todo o contexto é fodido.

Tudo isso acontece ao lado das obras da opulenta Delta City, dos outdoors com propagandas de marcas, das notícias e da violência banalizada e vendida como commodity, sendo veiculada na TV como um anestésico tão pesado quanto as drogas que rolam soltas na cidade. E, em meio a tudo isso, a figura do Robocop tentando ser capitalizada para essa glamourização da violência. Ele é, ao mesmo tempo em que herói, a imagem do populismo barato e de como o capital enxerga o ser humano que não dá lucro.

Todo esse texto é uma análise para dizer que o jogo é bom, muito bom e divertido. Ele inclusive está no Game Pass, uma ótima oportunidade de jogar “de graça” dentro do plano.

Poderia ficar horas e horas, páginas e páginas falando dos paralelos entre ficção e realidade, mas me chamariam de comunista. E eu só sou um robô fazendo 6x1, enquanto o capital tenta apagar a minha mente para tirar a minha humanidade.

Vale a pena conferir o game, porque no final é usar toda uma estrutura capitalista selvagem para se divertir com um jogo que mostra como o lucro acima de tudo fode a maior parte das pessoas. 

Às vezes, a ficção vira realidade.

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