quarta-feira, 23 de abril de 2025

Uma esmola por caridade

Cena comum: uma pessoa em situação de rua chega e pede um trocado para alguém. A pessoa diz que não tem e segue seu caminho. Aí solta o famigerado comentário:
"Ah, ele vai pegar o dinheiro pra comprar cachaça."

Não seu otário do caralho. Ele vai pegar os seus cinquenta centavos e investir na bolsa, né? Porque você não deu o peixe, você ensinou a pescar. Tanto que, com esse trocado que você deu (e fez questão de postar no story que é alguém de bem), ele vai ter sucesso, vai abrir a própria empresa e logo estará se apresentando como case de sucesso no programa do Primo Rico, pra mostrar que só é fodido quem quer.

Ah, sim, o mundo dá muitas ferramentas pra você "mostrar seu valor".
A geração de valor.
A geração que acredita que todos saíram do mesmo lugar.

Estufa o peito pra mostrar suas conquistas, fazendo dancinha no TikTok na frente do carro importado que vale mais que uma casa. Ah, é... mora de aluguel. Mas é uma casa extremamente instagramável.

Você tem muito orgulho de si. De poder comprar as coisas. De reclamar do Bolsa Família. E de negar um trocado pra alguém na rua porque o cara vai comprar Corote.

É, meu amigo, você é o sucesso encarnado. A consciência em pessoa. Alguém de real valor — porque seu pastor disse. Porque sua rede social valida.

Enfim... você só esquece que, no mundo real, você é só um outdoor de campanha — e a imagem que você tem da pessoa na rua, é a mesma que quem realmente tem dinheiro tem de você.

"Dá um trocado pra esse otário comprar um HB20 a um preço que a gente acha justo."
Porque no final, ele vai comprar mesmo. Você acha que ele vai deixar de desfilar orgulhosamente com o carro por causa do preço?
Claro que não. Esse aí é consciente. Ele sabe o valor do dinheiro. Ele não dá trocado pra mendigo.

É isso.
No final, você é tão otário que esquece um princípio básico de quem tá na rua e não sabe se vai comer:

A cachaça disfarça a fome.
Engana o estômago.
E te faz viajar o suficiente pra aguentar o fato de viver num mundo onde existe lixo como você — que não enxerga um ser humano, só um peso de carne bêbado que está naquela situação porque "quis".

Tchau.
Não esquece o dízimo, pra ajudar seu pastor a comprar mais uma casa em Miami.

Música: Kill The poor - Dead Kennedys 

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