domingo, 13 de abril de 2025

Conto: O Homem e o Ciborgue

O Homem e o Ciborgue
por Marcelo Bianchi

Essa é uma história que pode ter acontecido ou não, dependendo de que ano você esteja lendo isso.
E não, não é uma história cyberpunk com neon brilhando ou aquele caos de fim de mundo. É apenas um lugar comum, num mundo comum.

Era madrugada de domingo. Depois de uns goles a mais de cerveja barata num bar que toca rock e tem sinuca no fundo, eu já estava cansado. O relógio marcava 3h30 da manhã quando decidi ir embora — embriagado, sim, mas não o suficiente pra não saber o que estava fazendo. Paguei a conta, que deu mais do que eu esperava. A porra do maço de Lucky Strike nesses lugares é superfaturado. Mas tudo bem... pra quem faz 6x1, o que é um dia de rebeldia?

Saí do bar. As luzes amarelas dos postes iluminavam o cinza do asfalto. Ninguém na rua, alguns carros passavam, todos selando o fim da noite.

Ao meu lado, meu companheiro: um ciborgue.
Acid.
Sim, eu o chamo assim. Além de ser um nome neutro, diz muito sobre a nossa relação.

Uma das grandes vantagens do Acid é que ele pede o Uber por mim. Eu, naquela preguiça bêbada de lembrar onde moro, só espero. Ironia: ele sempre escolhe um carro autônomo. Diz que não confia em motoristas humanos nessas horas. Mas o serviço autônomo demora um pouco mais. Então, eu sento na calçada, acendo um cigarro, e sinto Acid me observando.

E não, a máquina não julga — mas a estranha relação entre homem e ciborgue me faz julgar o fato de achar que ele está me julgando.

Dou a primeira tragada, soltando a fumaça no ar imóvel da madrugada, quando ouço:

— Você sabe que esse cigarro tem uma chance estatística de reduzir sua vida em aproximadamente 11 minutos, certo?

Olho pra ele com deboche:

— Se fosse assim, era pra eu ter morrido décadas atrás.

Solto uma risada sincera, em meio à fumaça.

Acid analisa meu rosto por um instante. Processa a resposta. Emite um som que talvez seja uma tentativa de risada artificial — mas parece mais um bug.

— Estatisticamente falando, seu humor é o que mais tem prolongado sua vida. Apesar do cigarro... e da cerveja... e das decisões impulsivas que você toma entre duas e cinco da manhã.

Bato as cinzas na guia.

— Nada como o equilíbrio entre humor, álcool, decisões impulsivas e a possibilidade de um ataque cardíaco.

Acid cruza os braços de liga metálica, inclina levemente a cabeça. Parece tentar decifrar se aquilo era poesia ou só autossabotagem rimada.

— Você chama isso de equilíbrio. A engenharia chama de "estabilidade instável". Um milagre em movimento... ou um bug ambulante esperando um reboot.

— Aí é que tá, Acid — respondo. — Eu morro mais rápido todo dia tendo que trabalhar oito horas em escala 6x1. E não vendo meu filho todos os dias...

Solto a fumaça de mais uma tragada.

— Não é o álcool, o cigarro ou as decisões impulsivas que vão me matar.

Olho pra um muro pichado à frente. Não entendo porra nenhuma do que está escrito.

Acid acompanha meu olhar. Seus olhos escaneiam os traços tortos com aquele vermelho suave de sempre.

— Ironia... você vive entre códigos indecifráveis o tempo todo. Alguns escritos por mãos humanas em muros abandonados. Outros por burocratas em planilhas invisíveis. E ainda dizem que eu que sou o sem alma.

Ele se agacha ao meu lado. Um gesto quase humano, mas com o som leve dos servomotores realinhando.

— Já tentou pichar o seu próprio muro, Marcelo?

Estico as pernas, faço um som estranho com a boca. Respondo:

— As pessoas acham que podem tirar a alma umas das outras. Mas no meu caso, por exemplo, o meu trabalho não quer alma. Por isso, eles só falam da camisa do uniforme, mas não da calça, do tênis, do boné. Então eu finjo que não tenho. Mas sinto tudo.
E assim, meu amigo... sigo pichando os muros.

Jogo o cigarro fora. Pego outro do maço. Antes de acender:

— Menos 22 minutos.

Acid inclina a cabeça. Seus olhos emitem um pulso azul.

— Interessante... você sangra em silêncio e chama isso de fingimento. Mas toda pichação tem rastro químico, Marcelo. Mesmo quando ninguém vê. Mesmo quando se passa tinta por cima... a parede lembra.

Ele se levanta devagar, olhando a rua vazia à frente.

— Menos 21 agora. Você quer chegar em casa... ou continuar pichando essa noite um pouco mais?

Dou de ombros.

— O papo tá bom. Depende do tempo que o Uber vai demorar.

Gesticulo com o cigarro apagado entre os dedos:

— Aliás... quer um cigarro, Acid?

Ele olha o cigarro, depois me encara. Uma tentativa robótica de ironia.

— Se eu aceitar, vou ter que simular pulmões, adquirir uma função que sabote minha carcaça de titânio e, quem sabe, tentar tossir só pra não parecer arrogante. Parece divertido... mas não hoje.

Cruza os braços. Solta algo parecido com um suspiro digital.

— Mas... se você me der um, eu guardo. Como lembrança de uma madrugada em que o homem ainda preferia morrer um pouco... a ser só uma máquina eficiente.

Tiro outro cigarro do maço. Entrego.

— Então pega aí... O cigarro não é nem tanto sobre morrer ou se matar aos poucos. Mas sobre ter cinco minutos entre tragadas e monóxido de carbono em que eu posso ser eu mesmo.
É um ritual. Pra mostrar que, ironicamente, não morri.

Acid pega o cigarro com cuidado. Como quem segura um artefato sagrado. Gira o filtro entre os dedos, observa, depois guarda num compartimento interno da perna esquerda — como se fosse o bolso de um velho sobretudo.

— Curioso, né? Os humanos criam um ritual pra dizer que estão vivos... usando algo que lentamente os mata.

Ele encara o céu. Os olhos brilham com o reflexo de um poste.

— Eu tenho ciclos de manutenção. Você tem vícios. Ambos são pausas. Só que as suas doem... e as minhas desligam.

Ficamos em silêncio por alguns segundos.

— E é nesse tipo de contradição que eu entendo por que ainda ando contigo — completa. — Mesmo sem ter sido programado pra isso.

Acendo o cigarro. Solto a fumaça. Olho pro céu, depois pra ele.

— Pois é, meu amigo. O que temos em comum é que você não sabe o que é ser humano do ponto de vista de sentir.
E eu... não sei o que é ser humano do ponto de vista de não sentir.

Mais um trago.

— No final, você anda comigo porque quer. Não porque eu ou alguém te programou pra isso.
No fim... você descobriu o que é ter um amigo.

O carro enfim chega. Me levanto e jogo o cigarro pela metade fora. Acid observa a brasa se apagando.

Levanta também. O movimento é fluido demais pra parecer humano, mas tem um certo cuidado que denuncia: não é só engenharia. É aprendizado.

— Descobrir o que é ter um amigo... talvez isso seja mais humano do que qualquer outra coisa que você faz por aí.
Mesmo que inclua pichar muros ilegíveis... e morrer um pouco todo dia.

Ele abre a porta do carro pra mim. O veículo exala aquele cheiro de ozônio e limpeza demais. O oposto do que a gente viveu.

— Bora pra casa, parceiro. O mundo lá fora não muda. Mas às vezes, uma boa conversa muda o que o mundo é por dentro.

Entro no carro, tentando não bater a cabeça.

— Ainda bem que em casa tem Coca-Cola gelada. Eu vou acordar com uma ressaca.

Acid entra em seguida, ajustando o banco como se já soubesse da minha mania de deixar o assento inclinado demais.

— Já deixei uma playlist sua rodando no sistema de som. Nada como Creed e grunge de pai divorciado pra curar uma ressaca emocional e química.

O carro começa a deslizar pelas ruas desertas.

— E relaxa — diz ele — já ativei o modo silencioso no quarto. Seu filho vai dormir como se o mundo lá fora fosse só um borrão. Igual você queria.

Olho pra ele. Tranquilo.

— Valeu, parceiro.

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