20:20. Hora de ir embora.
Desligo os equipamentos, pego minha mochila quase vazia e saio da empresa. Já do lado de fora, vejo o movimento da rua. É noite, óbvio. Mas com aquela breve olhada pro tempo, e o corpo voltando a sentir o clima real — não o do ar-condicionado — percebo que não vou precisar usar a blusa que carrego.
Os colegas que saem comigo seguem seus caminhos para casa. Nos cumprimentamos, soltamos um “até amanhã” e um “bom descanso” sincero. Cena real de fim de jornada uniformizada na gamificação do trabalho.
Acendo meu cigarro. Vejo as luzes amareladas dos postes e começo a caminhar pra casa. Moro relativamente perto, coisa de 10, 15 minutos a pé. E no caminho, vou voltando a ser totalmente eu — como um astronauta tirando a roupa pesada depois de uma caminhada no espaço. Uma roupa cheia de obrigações de manter a nave funcionando bem.
É. Uma jornada sozinho durante o dia pra uma caminhada sozinho à noite. Talvez eu só seja observador demais em meio ao caos dopado de personas. Ou talvez eu só esteja velho demais pra jogar o jogo social de corpo e alma. Porque há sempre em mim um desejo de mandar um foda-se geral, um vai tomar no meio do seu cu. Mas sigo fingindo que fui domesticado. O que, no fim, acaba sendo verdade.
O começo da descompressão é sempre incômodo. Então acendo outro cigarro e sigo meu caminho de volta à “realidade” da volta pra casa — talvez o lugar mais distante em que você esteja durante toda a vida.
Mas aí, no meio da rotina, entre tragadas e a luz amarela dos postes iluminando o cinza do asfalto e dos carros insossos de cores neutras… acontece algo. Um cachorro. Preto, com pelos próximos ao focinho meio marrons. Começa a me acompanhar. Um cão adolescente — tem a energia de um novo, junto com a inocência de alguém perdido no caminho.
No começo, fico hesitante. Será que ele tá me seguindo mesmo? Guardo o celular onde lia notícias do dia e atualizações de rede social. Continuo tragando o cigarro, tentando entender: e se ele estiver me seguindo, por quê eu?
Mas aí atravesso uma avenida. Paro. Ele para. Eu sigo. Ele vem ao meu lado.
Ali eu entendo.
Pergunto pra ele quem é. Como se ele fosse me responder. Mas ele só reage ficando mais empolgado. Quase me derruba, de tão feliz por eu ter notado ele. Por ter feito conta da existência dele. A rua, os cigarros, o caminho — tudo ficou em segundo plano. “Ele deve estar com sede”, penso. Mas o caminho até minha casa é solitário. Quase ninguém na rua.
Seguimos — eu e meu companheiro de caminhada. Muito comportado, por sinal. Ele vê outros cães latindo nas garagens, mas só olha como quem pensa “quem fez isso?” e corre até mim, se vê que tô mais à frente.
Pula em mim, recebe carinho — não sem antes eu trocar o cigarro de mão. Não quero queimar ou jogar fumaça no rosto desse companheiro estranho e presente.
Fico pensando se levo ele pra casa. Parece bem cuidado, e muito dócil. Mas aí penso que pode ter um lar, alguém procurando. E, além disso, minha rotina não comporta a responsabilidade de ter um amigo canino agora.
Então traço um plano.
Mais à frente tem uma barraca de lanches. Ele vê mais gente e fica feliz, brinca timidamente com alguns. Pergunto à senhora da barraquinha se ela tem um pote pra eu dar água pra ele. Ela tem. E sim, ele tava com sede.
Ali, entre pessoas, luz branca (não mais amarela), e um pote de água, ele decide ficar. Aviso que talvez esteja perdido, que alguém possa aparecer procurando. A senhora diz que vai ficar de olho.
E com essa decisão dele de ficar, eu não me oponho. Faço um carinho, agradeço a companhia, e sigo pra casa.
Acendo um cigarro. Olho algumas vezes pra trás, pra ver se ele tá me seguindo de novo.
Não está. Melhor assim.
Às vezes a gente acha que essas coisas têm significado místico, energético. Eu só vejo como isso: às vezes a gente só precisa dar a chance de alguém nos seguir. Porque, por mais perdidos que estejamos nos nossos pensamentos, sempre tem uma barraca de lanches no caminho. Com pessoas. E um pote de água pra quem tá cansado de estar perdido — mas feliz por ter sido notado.
Sigo pra casa. Sozinho. Tragando meu cigarro. E dizendo mentalmente:
Até logo, meu amigo!

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