terça-feira, 8 de abril de 2025

A Biografia de um cara comum


O som do ar-condicionado, que precisa de manutenção, fica martelando na minha cabeça, enquanto espero mais um cliente chato ligar e falar que precisa de urgência, e passar o atendimento dele na frente de todos os outros pelo simples fato de ele dizer que depende da internet.

É como se eu repetisse os dias, do mesmo jeito, a mesma coisa, mas fazendo com que meu patrão, que viajou para o Nordeste no ano passado, viaje este ano para a Disney, enquanto eu penso em quantos dias de férias vou vender para poder ter algum extra, para me dar ao luxo de comprar alguma coisa legal — e sem sentido.

Enquanto isso tudo acontece, de forma silenciosa, meu cérebro fica me martelando: será que esse fim de semana meu filho vem pra casa?

Acontece que, durante toda a rotina, eu fico me perguntando o que estou construindo pra mim, tendo certeza de que estou construindo algo para os outros. É como se fosse uma espiral de humanidade moída, com doses de antidepressivos para me sentir minimamente humano e estável nesse sonho médio, onde eu sou um número em meio a muitos números, criando mais números para um número cada vez menor de pessoas que controlam a maioria das sequências numéricas.


Calma, eleve a sua postura, retire o boné com o símbolo da anarquia, pareça sério — o diretor está vindo mostrar como a empresa dele é maravilhosamente funcional. Então os “colaboradores” (palavra que sinceramente odeio, prefiro empregado ou trabalhador) têm que parecer sérios, pessoas que sabem exatamente o que estão fazendo... Como se fosse difícil viver uma repetição crônica de falas e ações e não saber o que está fazendo. Apesar de, se pararmos para pensar, ter real consciência do que se está fazendo ser muito mais do que o movimento robótico de uma rotina laboral.

O sorriso amarelo retribuindo o “Olá, pessoal” do engravatado que pensa: "Nossa, preciso de recursos humanos assim!" Não, ele não precisa de pessoas, mas sim de recursos humanos, que são tudo que a humanidade pode fazer — sem ser humano, é lógico.

E a tour pela área técnica termina com o diretor da empresa orgulhoso de mostrar a sala de descanso dos funcionários, onde há um videogame e as paredes pintadas de personagens clássicos de desenhos, onde por uma hora você pode — por muita consciência do patrão — desfrutar de uma sala que é praticamente a sua casa. Mas não é.


Não, eu não uso a sala de descanso, porque basicamente ela não serve pra porra nenhuma, a não ser parecer um momento de descanso — como se fosse um carregador ultrarrápido de um celular que fica ligado o tempo todo.

Não, eu fumo meu cigarro, volto para a minha baia e fico vendo as notícias de um mundo distante — aquele que acontece na rua de casa, lugar onde eu menos frequento durante a existência como ser produtivo da sociedade.

Em meio a isso, pensando: “Será que compro umas duas cervejas hoje?” O número curioso de duas cervejas não é uma aleatoriedade — é porque esse número é o suficiente para você ingerir algo diferente do pouco que se alimenta todo dia, e conservador porque você não faz ideia de onde virá algum gasto até o fim de semana.

Uma idiotice, se pararmos para pensar, já que passo a maior parte da minha vida — em que posso fazer algo de útil — no trabalho. Então, teoricamente, eu teria que ter menos gasto em casa. Mas não. O gasto é estranhamente alto, porque parece que só ter um dormitório longe da rotina massacrante é um luxo, quase sendo anunciado nas vagas de emprego: “ao fim do expediente, você pode voltar pra casa”.


Engraçado esse despertar, porque você percebe que não é alguém, e sim algo — como uma mesa, um computador, um vaso. Só é algo. Porém, o único algo que tem o compliance a seu “favor”. Porém, as únicas coisas que ficam em paz no ambiente são as mesas, vasos, cadeiras — menos o ar-condicionado ligado e fazendo barulho por falta de manutenção. Não, esse não.

Eu não preciso estar fazendo algo o tempo todo, eu preciso parecer que estou fazendo algo o tempo todo. E durante esse tempo, eu crio esse texto. Não sei se irei publicar de alguma forma, ou se irei deixar ele sem continuação — como toda e qualquer coisa que eu faça no âmbito pessoal. Mas o cliente, não. Esse eu tenho que solucionar o chamado. Eu sou medido pelo número de chamados que abro e pelo tanto de ligações que atendo. Todo o resto é apenas excesso de informação.


Mas a boa notícia é que eu comprei mais um boneco de pelúcia pro meu filho. Um vindo da China, já que aqui não tem muitas opções — e as que têm são absurdamente caras. Levando em consideração que são os mesmos que eu comprei da China, mas com uma taxa de vacilo por você não ser empreendedor o suficiente para abrir seu próprio negócio de bonecos de pelúcia de personagens difíceis de se encontrar aqui no Brasil.


Mas o trabalho não é ruim. Ele me permite que eu fique escutando as músicas que gosto entre os atendimentos — um resquício de identidade. Como se fosse uma mancha de óleo de pastel que cai na calça e não sai nunca mais, e que nem faço questão de tirar, já que uso a mesma calça por uma semana ou mais. Até porque as pernas ficam escondidas debaixo da mesa, onde posso me rebelar usando essa calça fodida e um All Star vermelho.

Porém, hoje vim pensando como, em tão pouco tempo de vida minha, eu posso ser tão tóxico com as pessoas. Sabe aquela coisa de ghosting, love bombing e todos os blá-blá-blás que as pessoas falam com seus termos em inglês, que em português só quer dizer um puta de um cuzão?

Então. Eu fiz todas essas coisas. E sim, penso nelas durante o dia, entre os barulhos dos teclados dos colegas de trabalho martelando as teclas e gerando seus números.

E não tem desculpa. Eu fiz. Isso é foda porque eu sei exatamente o porquê fiz, em relação a mim mesmo. Mas é foda que, naturalmente, quando você se coloca à frente — em primeiro lugar — alguém ficará de fora. E a crueldade de ser humano é lidar não só com as próprias expectativas vazias, mas também com as das pessoas.


Legal que eu escrevo isso tudo enquanto espero um cliente responder. Penso em todas essas coisas em meio a um controle uniformizado e diagramado com fórmulas genéricas de bom desempenho no trabalho. Ah, como a empresa aparece bonita no LinkedIn: #orgulhoempertencer.

Sou um ativo da empresa e inativo na minha vida durante a maior parte do tempo.


Interessante como a gente preenche o vazio de não ser produtivo quando sai do trabalho com algo completamente aleatório, e que só faz real sentido na nossa cabeça. Tipo gastar todo o dinheiro que você ganhou tentando ter um shape na academia, sabendo que só vai mostrar ele durante as férias programadas durante um ano inteiro, onde você decidiu ir para a praia mais barata que tem — e que está contaminada porque as políticas públicas estão pouco se fodendo para o litoral onde o hotel de luxo não tem parte da praia tomada pra si. Ou para aquele churrasco em que o famoso “kit churras” reina, e é o alívio social e uma das únicas maneiras de você ser você mesmo. Ou se acabar na bebida, jogando todo seu dinheiro nas rodas de um carro popular que custa mais que uma casa.


Mas esse texto não é sobre todos. É sobre eu — um cara comum, que observa com um olhar cansado. Um olhar de quem pensa o tempo todo em como seria muito mais legal se eu não pudesse ver toda a minha mediocridade em seguir o curso “natural” da humanidade — onde se gasta todo o tempo, gastando saúde para ganhar dinheiro, e rezando para não chegar à velhice e ter que gastar todo o dinheiro (que não tem) para ter alguma saúde.

Alguns chamam esse dia a dia de dignidade. Eu chamo de ausência, porque eu estou ausente das minhas coisas, da minha vida. Mas como uma hiena, comendo bosta e rindo dos memes que mandam no grupo de trabalho (o que não tem o chefe, porque se divertir pode gerar punição).


Poderia escrever páginas e páginas, e querer ter o ego inflado querendo lançar um livro com o título: A Biografia de um Cara Comum, mas quer saber? Eu estou tão longe desse lado da arte, que acharia um absurdo eu me colocar como alguém que faz as pessoas pensarem.

No fim, eu só tenho aqui minha rotina e minha lucidez, que são minha maior maldição — em meio a tantos benefícios de ser somente um cara tentando ser legal em um story de Instagram.

Cuspindo palavras para que tenham algum sentido apenas para mim, sabendo que tudo isso será mastigado — mas não se esqueça: não deixa de ser um sanduíche de merda só por você mastigar diferente.


E você aí pode se perguntar: por que ele não escreve sobre a rotina na casa dele? E eu te respondo: porque ela é tão irrelevante quanto a rotina de qualquer um. E, no final, eu só vivo a semana esperando chegar do trabalho na sexta à noite e ver que meu filho está lá. Estou torcendo para que o boneco de pelúcia dele chegue rápido, para que eu veja o brilho no olhar daquela criança que não espera que eu seja super-herói — mas somente pai dele.


Vou pegar um café, porque como está caro pra caralho comprar no mercado, eu vou tomar o máximo que posso no serviço.


Na vaga, poderia ter anunciado como benefício: Café à vontade.


Até amanhã.


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