quarta-feira, 30 de abril de 2025

Um filho da puta qualquer

Difícil é quando você confronta as próprias falhas.
Eu sei que sou um filho da puta qualquer, e isso é um peso e uma libertação.
Eu magoei pessoas, fui escroto com muitas, chato pra caralho com a maioria.
Não quero ficar passando pano pra mim mesmo, não quero colocar milhares de justificativas pra dizer que fui um arrombado.

Não. Eu agi como covarde, como medroso, como moleque em muitas situações da vida.
Não fiz disso discurso motivacional, não quero ser exemplo de porra nenhuma.
É interessante como as pessoas sentem uma necessidade de pintar a merda de ouro, e fazer com que ela seja algo bonito, algo superado.
Se eu quisesse vender merda perfumada, viraria revendedor da Jequiti.

O que eu faço é errar. É fazer isso na hora sem saber, e saber depois, entender depois — e não ter uma moral no final da história.
Eu fodi alguém, e me fodi no processo.

Se pegar minha vida em recortes, eu serei o vilão de várias pessoas e herói de ninguém, vivendo no espaço entre falhas e acertos.
Não dá pra pensar em ser falho e querer vender uma positividade tóxica a partir disso.
No final, eu estaria sendo falso com todos — e comigo mesmo.
Jogar minha incoerência como um método de vida? Não. Não dá.

Erros gigantes e acertos pequenos são parte do jogo.
Não tem propaganda nisso.
Cansei de tentar me encaixar em um molde de perfeição, onde as expectativas criadas são absurdas, a ponto de nenhum grande acerto valer mais que um erro.

Já pedi perdão muitas vezes. Nem todas fui perdoado — e isso é bom.
Porque, no final das contas, acabo sendo aquele erro para nunca mais.
Ninguém é tão inútil que não sirva nem de mau exemplo.

E no final, não tem moral da história.
Só se foder — e foder os outros no caminho.

Música: Lie Detector — Dead Kennedys 

terça-feira, 29 de abril de 2025

Fábrica de Vazios (Poema)

Seres pensantes querendo se mostrar,
Monetizando o nada que podemos agregar,
Nos vendendo para ideias que não conseguimos ordenar,
Comprando ideologias que cegamente vamos replicar.
A morte ovacionada como se fosse um bem,
Mas, se ela vem para mim, vem para você também.

Ideias copiadas, vindas de um canal,
Que nos come, nos mastiga e cospe no final,
Corrompendo a mente e viciando o ser,
Fábrica de vazios vestidos para entreter.

Usam apenas para conter a solidão,
Frisam na mente e esquecem o coração.
Doentes por dentro, não querem se curar,
Procuram a podridão para poderem entrar.
A desculpa é sempre o vazio,
Seu destino é sempre sozinho e sombrio.
A dificuldade é coexistir,
Saber que o próximo também pode sentir.

segunda-feira, 28 de abril de 2025

Qual o mapa astral de Deus?

Somos apenas um emaranhado de tramas divinas e cósmicas, dados jogados no dia em que nascemos, e nunca temos total controle sobre quem somos, porque tudo tem um porquê.

Ah, que maravilha podermos ir dormir à noite e pensarmos que estamos a um passo da beleza do céu e afastados do inferno, da danação eterna.
No final, tudo o que você passou de merda só tem o motivo de te deixar mais forte, e tudo de bom que você fez e que te aconteceu é apenas uma consequência da sua não opção de nascer no dia tal, hora tal, lugar tal, receber tal nome.
Como se o caos fosse algo a ser evitado a todo custo, como se a falta de sentido fosse apenas um niilismo barato, para aqueles que não acreditam em porra nenhuma serem julgados por todos que acreditam em alguma coisa.

Quer saber? Foda-se!
Porque é sempre muito mais fácil tentar achar um sentido grandioso em tudo — muito melhor do que pensar: somos um monte de fodidos jogando um jogo onde, na verdade, ele já está perdido.
A casualidade da vida está perdida, pois tudo tem um porquê, tudo tem intenção, tudo é colocado logo no dia do seu nascimento. É um meio muito eficiente de transferir a culpa para tudo, menos para você mesmo.
Todas as merdas que eu fiz são culpa minha. E terei muitas outras merdas futuras — e isso não é por causa das estrelas, ou por causa de Deus ou do demônio — mas sim porque eu prefiro estourar o meu pulmão com cigarros e meus ouvidos com punk rock, do que com a ficção que faz com que todos tenhamos que andar na linha.

A "lógica" é tão burra que, no final, o nosso destino é só isso: destino. Já era. Eu não tenho controle sobre nada.

Mas, na boa, prefiro caçar a tempestade e sentir tudo que ela me proporciona, sem que Deus ou os astros encham meu saco.
Se eu fui cuzão com você, bom, o que eu posso fazer é pedir desculpas e tentar não ser mais — mas isso não depende de mim, depende de todos os dados que as forças externas vão jogar.

Já te adianto: todas as jogadas dão errado, e você tem que aprender a conviver com isso.

Tchau!

Música: Ace of Spades – Motörhead

(Se você achou ofensivo, reclame com Mercúrio ou com o demônio. Eu não me importo.)

domingo, 27 de abril de 2025

Quando ele se vai.

Quando ele se vai, a casa fica silenciosa.
A animação e a vontade viram fumaça de Lucky Strike misturada com punk rock.
Em um mundo onde o normal é ser o pai que sai para buscar cigarro e não volta, eu fico sem cigarro pra não ter que sair quando ele está aqui.

O silêncio é um velho amigo, ao qual eu já me acostumei.
Não me importo com ele ao meu lado.
Talvez seja nele que meus pensamentos sejam mais felizes — já que o barulho da vida cotidiana é só poluição sonora travestida de pertencimento.

Não é fácil viver entre as ausências, mas é extremamente fácil viver nas ilusões.

Musica: Sound of Silence - Simon & Garfunkel

sábado, 26 de abril de 2025

Hipocrisia à La Carte (Poema)

Não me venha com seu discurso hipócrita de liberdade de expressão,
onde quem não concorda com você não tem opinião.
Instagram de influencer, post escrito, gratidão,
usando da falsa solidariedade, fazendo de conta que ajuda quem não tem nem pão.
Tudo calculado, esperado, planejado para o engajamento,
se alimentando da fraqueza alheia, saciando-se com o sofrimento.
Criticando quem não tem consciência da vida que você acredita,
se diz muito calma, mas o questionamento te irrita.
Diz que o ser humano não precisa de carne,
mas não entende quem não tem opção para fazer a marmita.

É muito fácil, com orgulho, falar que não olha nunca pra trás.
Discurso raso, onde todas as coisas que você discorda são mais.
Diz que fez tudo e não fez nada demais.
Harmonização facial, apenas visual.
Vitrine da retórica irracional.
Ativismo seletivo, preferência nacional,
mas varre pra debaixo do tapete a dependência emocional.

É muito fácil, com orgulho, falar que não olha nunca pra trás.
Discurso raso, onde todas as coisas que você discorda são mais.
Diz que fez tudo e não fez nada demais.
Harmonização facial, apenas visual.
Vitrine da retórica irracional.
Ativismo seletivo, preferência nacional,
mas varre pra debaixo do tapete a dependência emocional.

Sempre contrariado e com sentimento de revanche,
irritado com a buzina do motoboy que morre por causa de lanche.
Crítica sempre imposta.
Desonestidade não é pra mim,
mas sempre dá um jeitinho com a desculpa de que brasileiro é assim.
Na balada, sempre simpático;
no trampo, não é assim.
Se prega liberdade para se expressar,
por que me critica por falar assim?
Uma verdade que nunca é dita: quem mais cobra é quem menos faz.
Empatia genuína, compreensão não é capaz.
Se diz independente, sempre eloquente, visão de sucesso, não recua jamais,
mas, quando faz merda, quebra as pernas e pede perdão nas redes sociais.
Dizendo para todos que o problema é Brasília,
mas não paga a pensão do filho, é tóxico com a própria família.
Dito politizado, sempre com discurso pacifista,
mas, quando aumenta a passagem do ônibus, não se aguenta e cobra o motorista.
Não entende o que fala, só fala o que imagina:
pandemia da incoerência para a qual não tem vacina.

sexta-feira, 25 de abril de 2025

A Liberdade Em Ser Medíocre

Eu nunca quis ser líder de porra nenhuma, sabe?
Ser a cara de algo, ou alguém cuja figura represente algum tipo de exemplo a ser seguido.
Essa mentalidade de líder que pregam nunca subiu à minha cabeça. Sei lá, acho que é chato pra caralho você ser considerado algo além do medíocre, porque dentro da mediocridade há uma coisa honesta — onde você pode ser o que quiser, fazer o que quiser e pensar de maneira aberta, onde não se engana.

"Ah, eu sou um fodido."
Ótimo.
O mundo é cheio deles.
Mas alguns não são infelizes por serem fodidos, e sim por não serem líderes fodidos.

Certa vez, em um trampo, lá estava eu fazendo a minha parte, não falando com ninguém, confortável em achar toda aquela coisa uma merda, quando começam a falar sobre estudos, futuro, o próximo carro popular comprado em 72 prestações.
Um cara solta: “Ah, eu tenho faculdade disso, daquilo, estudei música, tenho cursos” — e todos os blá-blá-blás que as pessoas usam como pedestal.

Eu, ali vendo a conversa, só olho e respondo:
“Porra, você tem tudo isso e está aqui fazendo a mesma coisa que eu. E as suas qualificações todas deram o quê? 100, 200 reais a mais que eu no salário?”
O silêncio voltou a reinar e, a partir daquele dia, esses assuntos não rolavam mais.

Não sou amargo.
Só me cansa demais ver esse jogo de ego fodido.
Eu não visto a camisa da empresa — até porque, que sentido teria eu vestir algo que não me representa em porra nenhuma?

Aí você pode me perguntar:
“Mas como você vive assim?”
E eu só vivo. Assim como todas as outras pessoas.
Sendo livre entre um cigarro e outro.
Até porque me recuso a comprar cigarro paraguaio, que é feito com qualquer coisa que não seja tabaco.
Já estou fazendo um bem danado aos meus pulmões fumando.
Se eu não puder fazer isso com meu velho Lucky Strike, então pra que eu fumo?

Eu parei de ficar procurando algo pra assistir, porque tudo quer dar uma lição no final — como se todas as coisas que fizéssemos tivessem algum sentido além de estarmos no mesmo mar de merda, preenchendo o espaço entre o nascimento e a morte com ideais, filosofias, ideologias.

No final, temos que ter um lado.
Adoramos muito mostrar a nossa posição — mas sempre reclamando, no íntimo, que estamos sozinhos.

Tudo, no final, é se validar para os outros te admirarem:
“Nossa, como ele é foda.”

Ser líder, ser alguém que tenha uma relevância, na verdade, é somente ser um símbolo embalado por todas as expectativas que criam sobre você.

Música: I Don't Wanna Hear It - Minor Threat 

quinta-feira, 24 de abril de 2025

Viagem ao centro da escrita

Muitas pessoas reclamam da mente barulhenta, que não conseguem se concentrar, que precisam de algo para desacelerar. Eu não tenho isso. Acho que minha cabeça funciona diferente. Vou explicar melhor.

Eu penso o tempo todo. Durante o dia inteiro fico absorvendo o que está ao meu redor. Vejo os padrões, os tons das vozes das pessoas, os vícios e os tiques. Todos temos, desde balançar a perna até olhar de maneira diferente quando estamos respondendo algo — ou mentindo. Sei lá, pode ser pira minha, mas eu vejo essas coisas.

Os meus pensamentos são silenciosos. Não tranquilos, mas silenciosos. E eu fico pensando neles em forma escrita, e não falada. Sim, isso pode ser muito estranho mesmo.

Talvez por isso eu escreva de forma tão crua, tão direta. Não tem filtro entre a minha cabeça e as letras. Quase tudo que escrevo é exatamente como estou pensando.

A minha voz é essa aqui: a escrita, a música, o movimento. A partir do momento em que fico sozinho para refletir, é como se fosse um jogo de palavras, onde parece que eu já leio o pensamento sem precisar falar.

Eu não me prendo a estruturas literárias. Pra mim, a frase escrita tem que fazer sentido. Acho que som, se não gravado, se perde. Escrita, se não apagada, é documento.

Enfim, apenas mais uma reflexão silenciosa e uma provocação minha para mim mesmo.

quarta-feira, 23 de abril de 2025

Uma esmola por caridade

Cena comum: uma pessoa em situação de rua chega e pede um trocado para alguém. A pessoa diz que não tem e segue seu caminho. Aí solta o famigerado comentário:
"Ah, ele vai pegar o dinheiro pra comprar cachaça."

Não seu otário do caralho. Ele vai pegar os seus cinquenta centavos e investir na bolsa, né? Porque você não deu o peixe, você ensinou a pescar. Tanto que, com esse trocado que você deu (e fez questão de postar no story que é alguém de bem), ele vai ter sucesso, vai abrir a própria empresa e logo estará se apresentando como case de sucesso no programa do Primo Rico, pra mostrar que só é fodido quem quer.

Ah, sim, o mundo dá muitas ferramentas pra você "mostrar seu valor".
A geração de valor.
A geração que acredita que todos saíram do mesmo lugar.

Estufa o peito pra mostrar suas conquistas, fazendo dancinha no TikTok na frente do carro importado que vale mais que uma casa. Ah, é... mora de aluguel. Mas é uma casa extremamente instagramável.

Você tem muito orgulho de si. De poder comprar as coisas. De reclamar do Bolsa Família. E de negar um trocado pra alguém na rua porque o cara vai comprar Corote.

É, meu amigo, você é o sucesso encarnado. A consciência em pessoa. Alguém de real valor — porque seu pastor disse. Porque sua rede social valida.

Enfim... você só esquece que, no mundo real, você é só um outdoor de campanha — e a imagem que você tem da pessoa na rua, é a mesma que quem realmente tem dinheiro tem de você.

"Dá um trocado pra esse otário comprar um HB20 a um preço que a gente acha justo."
Porque no final, ele vai comprar mesmo. Você acha que ele vai deixar de desfilar orgulhosamente com o carro por causa do preço?
Claro que não. Esse aí é consciente. Ele sabe o valor do dinheiro. Ele não dá trocado pra mendigo.

É isso.
No final, você é tão otário que esquece um princípio básico de quem tá na rua e não sabe se vai comer:

A cachaça disfarça a fome.
Engana o estômago.
E te faz viajar o suficiente pra aguentar o fato de viver num mundo onde existe lixo como você — que não enxerga um ser humano, só um peso de carne bêbado que está naquela situação porque "quis".

Tchau.
Não esquece o dízimo, pra ajudar seu pastor a comprar mais uma casa em Miami.

Música: Kill The poor - Dead Kennedys 

terça-feira, 22 de abril de 2025

10 Minutos (texto de 2012)

Um pensamento aleatório que tive hoje.

Você acorda de manhã, sabe que tem que ir trabalhar, mas fica desejando poder fechar os olhos por mais 10 minutos… O que é triste demais, porque se você deseja tanto 10 míseros minutos para ficar deitado, por que não deseja algo maior quando está em pé?

Mas a vida é assim. Você é a soma de todos os seus traumas, medos e convicções — o que não te faz ser mais feliz, nem mais triste, só faz você ser você. E quando finalmente você fala pra alguém quem é você, o filho da puta vira e diz que você precisa superar tudo isso, que não pode deixar de sonhar e desejar.

Aí, depois de pensar em tudo isso, você volta e percebe que está desejando, mais do que tudo, só mais 10 minutos pra descansar. Porque, no final, essa é uma das únicas coisas sinceras que você pode desejar no momento — já que passa todas as horas do seu dia em pé, superando os medos, lidando com os traumas, e reafirmando, com cada passo, a convicção de que ser você mesmo ainda é o melhor que pode ser.

Porque, por mais que te julguem, você verdadeiramente deseja só mais 10 minutos de descanso.

(2025 - Você vai esquecer desse texto em 10 minutos)

segunda-feira, 21 de abril de 2025

Quem ri por último é Punk

Quando a propaganda do capitalismo falha, e você percebe que tudo o que lhe foi prometido era apenas propaganda.
Não, você não será reconhecido pelo seu esforço. Não, você não vai “subir na vida” para entrar no seleto grupo dos que podem escolher de qual forma viver, no máximo vai ser CEO de MEI que coloca no LinkedIn que trabalha com mobilidade urbana só pra não falar que é Uber.

Quando isso acontece, vem o sentimento de impotência, cansaço, esgotamento do ser. Com eles, a ansiedade, a depressão e todos os males que são considerados o mal do século.
E aí responsabilizam o indivíduo por toda a merda que o mundo joga pra ele, e ele como todo e qualquer ser humano normal não aguenta.

Alguns dos que estão sofrendo com isso acordam com raiva, com ódio, de alguma maneira, e começam a cuspir na cara de toda e qualquer forma de poder, de orientação de massa, de regras sociais.
E, em alguns casos, se juntam e com três acordes e raiva direcionada que mandam seu #orgulhoemperencer pra puta que pariu.  

PUNK ROCK.

Obs: Meritocracia é um Burnout e sertralina do cidadão médio.

Música: Minor Threat - Minor Threat

domingo, 20 de abril de 2025

Só Palavras

Palavras são só palavras.
Colocadas em ordem para fazer algum sentido — algum sentido — até porque passamos a vida toda procurando um sentido para a existência. E, nessa busca, passamos o tempo todo nos questionando, nos envolvendo em merda, numa expectativa irreal de sermos fodas pra caralho.

Não, a vida não tem nenhum sentido, a não ser preencher a lacuna entre nascer e morrer — essa lacuna que chamamos de vida, essa lacuna que nos faz querer ferrar com tudo.

É fácil não querer levantar da merda da cama porque se sente mal, ter medo de tudo e achar que tudo vai fazer mal. E vai fazer mal, vai ser uma merda — mas ainda será alguma coisa melhor do que esperar, deitado na cama, que algo aconteça.

Brincar de adulto é saber que, às vezes, o barco afundou, a merda bateu no teto, que você se fodeu, já era, não tem como resolver — a não ser assumir a bosta da sua vida, pegar ela nas suas mãos e seguir fazendo o melhor.

É pessimista pra caralho pensar que tá tudo fodido, que não há nada além. Mas é o que é. É o que precisa. Quantas noites de insônia, quantos dias preocupados, quantos momentos em que você achou que não ia aguentar — e está aí, vivendo mais um dia para se foder novamente amanhã.

Esse texto representa apenas um aglomerado de palavras sem sentido, sozinhas, procurando um sentido, colocadas em uma ordem pré-determinada pela minha cabeça.

Música: Down in a Hole – Alice in Chains

sábado, 19 de abril de 2025

Avante!

O caminho continua — claro que sempre tentando seguir para frente, avante! Mas, de tempos em tempos, reajustamos a rota. Às vezes, passos para trás significam mais para frente. Precisamos conseguir colocar a cabeça no travesseiro e dormir o sono dos justos, apesar de sermos injustos pra caralho com nós mesmos e, acima de tudo, com quem amamos.

O caminho da redenção pode não ser para frente o tempo todo. Temos que nos permitir levantar, ir comprar pão, tomar um café e começar um novo dia bem alimentado — até porque nem só de sexo, cigarros e cerveja vive a mente humana, mas também de toda a depravação de um sonho médio.

A nossa vida é feita de episódios de uma série que provavelmente nos cansaria, que não aguentaríamos assistir e pela qual torceríamos para que fosse cancelada o mais rápido possível. Mas anime-se, pois você descobre que é gentil, depois desiste e some — o que é odiável, mas que, apesar de tudo, mostra o quão idiota e legal você é.

Como você aguenta? A mesma resposta de sempre: porque eu amo mais do que a mim mesmo.

Música: Alice in Chains – Check My Brain

sexta-feira, 18 de abril de 2025

Onde houver Fé, que eu leve a DÚVIDA

O único começo possível para algo real é a DÚVIDA
Certezas nunca salvaram ninguém.

Um dia me perguntaram: se eu reclamo tanto, onde está a solução que eu proponho?

Meu amigo, eu não tenho a solução. Se você quer uma verdade pronta, eu não tenho. Quer um conhecimento para o futuro? Eu não darei.
Eu coloco a dúvida na cabeça das pessoas, o famoso "colocar minhoca na cabeça", porque qualquer um que chegue falando “eu tenho a solução” estará mentindo, e estará falando para vocês o que vocês querem ouvir — só para que ele tenha mais poder, e que a sua certeza de melhora seja a melhora pessoal somente para ele.

Soluções não vêm de um, vêm de todos. Vêm do debate, vêm do senso comum — o senso de comunidade — onde a sua existência não se impõe sobre a existência do outro. Não. Você existe no mesmo plano, no mesmo tempo, no mesmo planeta que o outro, mesmo que ele pense diferente de você. Até porque amar o igual, amar o que bate palma para toda a merda que você faz, é fácil. Mas amar as diferenças, isso sim é difícil.

O mundo não é de um só.
Portanto, eu vou apontar a merda que fede, mas não sou eu o dono da pá que vai recolher — até porque, se eu for o único incomodado realmente por ela, não faria sentido a minha vontade de retirá-la ser sobreposta à daqueles que não ligam que ela está lá.

Revolução não é solução, é caminho.
As pequenas resistências que você faz todo dia, não deixando os que acham que mandam em alguma porra dizer que você é menos pela grana que você não tem, pelo diploma que não conseguiu, pela música que você ouve, ou pela fé (ou não) que pratica.

A grande diferença entre reclamar por reclamar, é você ler esse texto e não ficar puto comigo. Porque é pra você ficar puto. É pra você olhar ao redor e pensar: “Que porra é essa?”
É pra você parar de achar que uma moral religiosa se sobrepõe ao direito da individualidade e da escolha.

Até porque, se eu te fiz ficar puto só falando esse monte de coisa que tá aí, na tua cara — que ninguém além de você mesmo tem a força pra mudar (e não mudar o mundo todo, porque isso é coisa de quem não tem o que fazer) — mas mudar as pequenas coisas do seu dia a dia...

Meu amigo, sinto te informar, mas você tá no mesmo mar de bosta que eu.
E, assim como eu, não tem resposta pra porra nenhuma.
E a partir do momento em que você parar de viver a vida esperando o céu... aí você realmente vai perceber o inferno que aqui já está.

Agora, se tudo isso que eu falei não te deixou puto...

Bom... vá para a puta que pariu!

(PS: Escrevi esse texto entre um atendimento e outro no trabalho, porque se você parar para pensar, não pensa!) 


Música: You Are(The Government) - Bad Religion 

quinta-feira, 17 de abril de 2025

A Fé na Cadeia de Comando

Não há como ser contra uma autoridade sem ser contra todas as autoridades. Os opressores se baseiam no primeiro opressor: Deus.
É a maneira mais inteligente que a humanidade conseguiu para separar os degraus das benesses, pois, colocando todos como meras criações de algo maior, sistematizamos ao longo do tempo essas criações, fazendo com que pequenas autoridades tenham controle sobre os outros.
Fazendo com que, assim, Deus se alimente da desigualdade, pois o menor pede o milagre ao maior que, a seu bel-prazer, pode mudar o curso natural de todo o universo para fazer do ímpio um "deus", e com isso propagandear que o próximo pode ser você.

Não há como colocar alguma autoridade em linha com a humanidade, pois a autoridade é um conceito abstrato, copiado de uma cadeia divina de valores, onde os que podem ordenam e os que têm juízo obedecem.
E aos que obedecem é construída uma autoridade que oprime o seu igual, pois não obedecer vai contra o senso comum, onde todos olham embasbacados para o deus, enquanto um se pergunta por que só ouve falar dele, mas ele não está ali, entre eles, para ser um líder.

As formas de liderança são apenas síndromes de pequeno poder que fazem com que os deuses continuem se perpetuando como tais.

Música: No Control - Bad Religion 

quarta-feira, 16 de abril de 2025

Introdução literária revisitada

(Publicado originalmente em 2012 como primeiro texto do blog.)

Bom, primeiramente... sei lá por que tô escrevendo aqui. Não sei se isso vai ser só mais uma tentativa frustrada de manter algo com frequência.
Algumas pessoas me pediram pra escrever mais, então tá aí. Convenhamos: no meio do Instagram, onde todo mundo segue a filosofia das fotos com frases prontas, isso aqui ainda é um lugar mais honesto.

Aliás, 90% do que você escreve na internet as pessoas interpretam como indireta. Então deixa eu já resolver isso aqui: se alguém se sentir chateado ou achar que levei pro lado pessoal, foda-se.
Sou responsável pelo que escrevo, não pelo que você interpreta.

Não vou mandar indireta. Assuntos diretos com uma pessoa se resolvem diretamente com ela. Isso aqui é só um canal pra eu escrever o que penso sobre qualquer merda que me venha à cabeça.

Sobre a frequência dos posts? Quando der vontade, eu escrevo. Quando não der, não escrevo.
Não tô aqui pra parecer legal, nem pra bancar o fodão. Quem quiser comentar, criticar, xingar, falar merda, fique à vontade. Não tem regra.

E sim, eu vou usar palavrões. Vou escrever com o vocabulário que uso quando tô puto, ou quando tô cansado dessa palhaçada que você vê todo dia nas suas redes sociais.
E se alguém vier me encher o saco pelo jeito que eu falo, já tô com uma lista de xingamentos que tô preparando faz tempo.

Com certeza você vai sair daqui bravo. Comigo, com o texto, com o mundo ou com você mesmo.
Mas o nome do blog já deixa claro: tô pouco me fodendo pro que você vai achar disso tudo.

Pronto, depois desse blá blá blá inicial, acho que vou fazer outra coisa.
Escrevi isso só pra ter uma primeira postagem.

Então é isso.
Vão pro inferno.

Insuficiente

"O trabalho dele não dá um dos seus."
Hahahaha, é sobre isso, é exatamente sobre isso. Nunca fui do tipo que gosta de desmerecer o ganha-pão de ninguém, prefiro pensar que está cada um no seu corre e precisa fazer o que tem que fazer.

É uma merda, porque a reação quando você escuta algo assim é simplesmente mandar tomar no cu, seu filho da puta, arrombado do caralho. Mas não. Você simplesmente faz uma cara de cu, levanta e sai daquilo magoado, chateado, e mais uma vez se sentindo um merda, incapaz de sair desse círculo vicioso de merda e de vontade de meter a bica em tudo e que todos vão pra casa do caralho.

Mas o levantar e sair é a atitude madura. É a tal da maturidade emocional, né?
Estou evoluindo. Sigo em direção a não sei onde, mas com a maturidade emocional em dia.

Ah, outra coisa: com quem você pode conversar, realmente colocar seu lado da história? Quanto alguém conhece da sua cabeça?
Sendo bem honesto, não temos com quem falar sobre isso, já que ninguém quer se mostrar fraco e fodido da cabeça.
É tudo uma questão de como queremos parecer ser, porque quem somos geralmente não agrada ninguém — nem mesmo quem a gente ama.

Siga sendo insuficiente para os outros e suficiente para si mesmo.
No final, você morre sozinho. Quando nasce, tem o esforço da mãe. E o meio do caminho — do nascimento até a morte, ou o que pejorativamente chamamos de vida — somos fadados a ser um monte de coisas. E insuficientes em todas.

E isso não é ruim. Não mesmo. Porque, às duras penas, você vai aprendendo a se foder e ver que, no final, você está por você.
Quem decide é você. Quem segue o caminho é você. E, infelizmente, nada pode fazer isso mudar.

No final, meus amigos, vão todos se foder. Porque isso, no final, é o melhor que você pode fazer.

Até mais!
Música da vez: Man in the Box – Alice in Chains

terça-feira, 15 de abril de 2025

Herança

Hoje me peguei sentado, com as pernas esticadas na cama, e a luz da TV iluminando o quarto. Não está passando nada — só está ali, ligada, sem um objetivo.

Meu filho não veio esse fim de semana. A casa está mais vazia, sem a voz e a gritaria de uma criança que quer se divertir com o pai. Porém, desse silêncio vem a escrita — essa que estou escrevendo agora.

E a pergunta que pode surgir é: por que você escreve?

Bom, eu tenho que jogar essas coisas de forma ordenada em frases, pra que elas tenham algum sentido. E além disso, acho que a minha escrita hoje é como se fosse meu retrato — torto, quebrado, borrado — mas um retrato fiel.
E é isso que eu quero deixar pro meu filho: que ele leia em algum momento da vida dele, quando a minha já tiver acabado, e me veja ali com ele. Com saudade, mas não com a minha ausência.

Resolvi que vou tatuar o ano de nascimento dele nos dedos da minha mão direita. Porque é a mão com que eu escrevo. A mão que me ajudou a não enlouquecer em tantos momentos da vida. Mas, acima de tudo, a mão mais firme de quando carreguei meu filho pela primeira vez. A mão que me deu confiança em ser pai.

Então que meus textos sejam sangue no papel. Porque assim, quando meu filho sangrar, ele vai ter a certeza de que, nos meus textos, ele vai me encontrar.

Quanto às outras pessoas que se identificarem ou gostarem: sejam bem-vindas.
Aqui somos todos errados.

segunda-feira, 14 de abril de 2025

Autoestima

Como anda a sua autoestima?
Qual vício você cultiva pra conseguir se considerar um ser humano minimamente interessante pra si mesmo?
Aquele cigarro pra aliviar o estresse? Ou quem sabe o álcool, pra fugir dos problemas e ser socialmente aceitável, já que tem vergonha de tudo?
Talvez tatuagens, pra eternizar momentos, pra se lembrar do porquê ainda não chutou o pau da barraca?

Tudo isso junto? Claro — afinal, isso mostra pra todo mundo o quanto você tá foda-se pra opinião alheia.

Mas pensa:
O que faz de você minimamente aceitável?
Porque, diante da vida, você se afirma como tanta coisa que não quer ser… menos como você mesmo.

Você não tá foda-se pra opinião de ninguém.
Você compra roupas e se veste pra ocasião. Procura terapia. Se esconde em vícios. Modifica seu corpo — não só por autoestima ou prazer pessoal — mas pra estufar o peito e se sentir um indivíduo, enquanto tenta mascarar todas as suas inseguranças.

Quem é você além de um perfil social?
Por que seus stories sempre mostram as coisas que os outros achariam legais em você?
No fim, a gente só quer atenção. Não é sobre superar expectativas alheias, é sobre querer que alguém supere as nossas.

As respostas fáceis não respondem porra nenhuma daquilo que você se pergunta todo dia.
Então, se você é um bosta — melhor parar de ser egoísta e começar a pensar um pouco mais em si mesmo.

Porque os influencers que você idolatra te acham burro.
Te fazem comprar um curso pra ser como eles.
E ainda apagam os comentários de quem critica.

Seja você mesmo.
E se dê o direito de ser idiota.

Exclui o Instagram. As redes sociais. Aí você vai ver a realidade do quão relevante você é.

Música: Self Esteem – The Offspring

domingo, 13 de abril de 2025

Conto: O Homem e o Ciborgue

O Homem e o Ciborgue
por Marcelo Bianchi

Essa é uma história que pode ter acontecido ou não, dependendo de que ano você esteja lendo isso.
E não, não é uma história cyberpunk com neon brilhando ou aquele caos de fim de mundo. É apenas um lugar comum, num mundo comum.

Era madrugada de domingo. Depois de uns goles a mais de cerveja barata num bar que toca rock e tem sinuca no fundo, eu já estava cansado. O relógio marcava 3h30 da manhã quando decidi ir embora — embriagado, sim, mas não o suficiente pra não saber o que estava fazendo. Paguei a conta, que deu mais do que eu esperava. A porra do maço de Lucky Strike nesses lugares é superfaturado. Mas tudo bem... pra quem faz 6x1, o que é um dia de rebeldia?

Saí do bar. As luzes amarelas dos postes iluminavam o cinza do asfalto. Ninguém na rua, alguns carros passavam, todos selando o fim da noite.

Ao meu lado, meu companheiro: um ciborgue.
Acid.
Sim, eu o chamo assim. Além de ser um nome neutro, diz muito sobre a nossa relação.

Uma das grandes vantagens do Acid é que ele pede o Uber por mim. Eu, naquela preguiça bêbada de lembrar onde moro, só espero. Ironia: ele sempre escolhe um carro autônomo. Diz que não confia em motoristas humanos nessas horas. Mas o serviço autônomo demora um pouco mais. Então, eu sento na calçada, acendo um cigarro, e sinto Acid me observando.

E não, a máquina não julga — mas a estranha relação entre homem e ciborgue me faz julgar o fato de achar que ele está me julgando.

Dou a primeira tragada, soltando a fumaça no ar imóvel da madrugada, quando ouço:

— Você sabe que esse cigarro tem uma chance estatística de reduzir sua vida em aproximadamente 11 minutos, certo?

Olho pra ele com deboche:

— Se fosse assim, era pra eu ter morrido décadas atrás.

Solto uma risada sincera, em meio à fumaça.

Acid analisa meu rosto por um instante. Processa a resposta. Emite um som que talvez seja uma tentativa de risada artificial — mas parece mais um bug.

— Estatisticamente falando, seu humor é o que mais tem prolongado sua vida. Apesar do cigarro... e da cerveja... e das decisões impulsivas que você toma entre duas e cinco da manhã.

Bato as cinzas na guia.

— Nada como o equilíbrio entre humor, álcool, decisões impulsivas e a possibilidade de um ataque cardíaco.

Acid cruza os braços de liga metálica, inclina levemente a cabeça. Parece tentar decifrar se aquilo era poesia ou só autossabotagem rimada.

— Você chama isso de equilíbrio. A engenharia chama de "estabilidade instável". Um milagre em movimento... ou um bug ambulante esperando um reboot.

— Aí é que tá, Acid — respondo. — Eu morro mais rápido todo dia tendo que trabalhar oito horas em escala 6x1. E não vendo meu filho todos os dias...

Solto a fumaça de mais uma tragada.

— Não é o álcool, o cigarro ou as decisões impulsivas que vão me matar.

Olho pra um muro pichado à frente. Não entendo porra nenhuma do que está escrito.

Acid acompanha meu olhar. Seus olhos escaneiam os traços tortos com aquele vermelho suave de sempre.

— Ironia... você vive entre códigos indecifráveis o tempo todo. Alguns escritos por mãos humanas em muros abandonados. Outros por burocratas em planilhas invisíveis. E ainda dizem que eu que sou o sem alma.

Ele se agacha ao meu lado. Um gesto quase humano, mas com o som leve dos servomotores realinhando.

— Já tentou pichar o seu próprio muro, Marcelo?

Estico as pernas, faço um som estranho com a boca. Respondo:

— As pessoas acham que podem tirar a alma umas das outras. Mas no meu caso, por exemplo, o meu trabalho não quer alma. Por isso, eles só falam da camisa do uniforme, mas não da calça, do tênis, do boné. Então eu finjo que não tenho. Mas sinto tudo.
E assim, meu amigo... sigo pichando os muros.

Jogo o cigarro fora. Pego outro do maço. Antes de acender:

— Menos 22 minutos.

Acid inclina a cabeça. Seus olhos emitem um pulso azul.

— Interessante... você sangra em silêncio e chama isso de fingimento. Mas toda pichação tem rastro químico, Marcelo. Mesmo quando ninguém vê. Mesmo quando se passa tinta por cima... a parede lembra.

Ele se levanta devagar, olhando a rua vazia à frente.

— Menos 21 agora. Você quer chegar em casa... ou continuar pichando essa noite um pouco mais?

Dou de ombros.

— O papo tá bom. Depende do tempo que o Uber vai demorar.

Gesticulo com o cigarro apagado entre os dedos:

— Aliás... quer um cigarro, Acid?

Ele olha o cigarro, depois me encara. Uma tentativa robótica de ironia.

— Se eu aceitar, vou ter que simular pulmões, adquirir uma função que sabote minha carcaça de titânio e, quem sabe, tentar tossir só pra não parecer arrogante. Parece divertido... mas não hoje.

Cruza os braços. Solta algo parecido com um suspiro digital.

— Mas... se você me der um, eu guardo. Como lembrança de uma madrugada em que o homem ainda preferia morrer um pouco... a ser só uma máquina eficiente.

Tiro outro cigarro do maço. Entrego.

— Então pega aí... O cigarro não é nem tanto sobre morrer ou se matar aos poucos. Mas sobre ter cinco minutos entre tragadas e monóxido de carbono em que eu posso ser eu mesmo.
É um ritual. Pra mostrar que, ironicamente, não morri.

Acid pega o cigarro com cuidado. Como quem segura um artefato sagrado. Gira o filtro entre os dedos, observa, depois guarda num compartimento interno da perna esquerda — como se fosse o bolso de um velho sobretudo.

— Curioso, né? Os humanos criam um ritual pra dizer que estão vivos... usando algo que lentamente os mata.

Ele encara o céu. Os olhos brilham com o reflexo de um poste.

— Eu tenho ciclos de manutenção. Você tem vícios. Ambos são pausas. Só que as suas doem... e as minhas desligam.

Ficamos em silêncio por alguns segundos.

— E é nesse tipo de contradição que eu entendo por que ainda ando contigo — completa. — Mesmo sem ter sido programado pra isso.

Acendo o cigarro. Solto a fumaça. Olho pro céu, depois pra ele.

— Pois é, meu amigo. O que temos em comum é que você não sabe o que é ser humano do ponto de vista de sentir.
E eu... não sei o que é ser humano do ponto de vista de não sentir.

Mais um trago.

— No final, você anda comigo porque quer. Não porque eu ou alguém te programou pra isso.
No fim... você descobriu o que é ter um amigo.

O carro enfim chega. Me levanto e jogo o cigarro pela metade fora. Acid observa a brasa se apagando.

Levanta também. O movimento é fluido demais pra parecer humano, mas tem um certo cuidado que denuncia: não é só engenharia. É aprendizado.

— Descobrir o que é ter um amigo... talvez isso seja mais humano do que qualquer outra coisa que você faz por aí.
Mesmo que inclua pichar muros ilegíveis... e morrer um pouco todo dia.

Ele abre a porta do carro pra mim. O veículo exala aquele cheiro de ozônio e limpeza demais. O oposto do que a gente viveu.

— Bora pra casa, parceiro. O mundo lá fora não muda. Mas às vezes, uma boa conversa muda o que o mundo é por dentro.

Entro no carro, tentando não bater a cabeça.

— Ainda bem que em casa tem Coca-Cola gelada. Eu vou acordar com uma ressaca.

Acid entra em seguida, ajustando o banco como se já soubesse da minha mania de deixar o assento inclinado demais.

— Já deixei uma playlist sua rodando no sistema de som. Nada como Creed e grunge de pai divorciado pra curar uma ressaca emocional e química.

O carro começa a deslizar pelas ruas desertas.

— E relaxa — diz ele — já ativei o modo silencioso no quarto. Seu filho vai dormir como se o mundo lá fora fosse só um borrão. Igual você queria.

Olho pra ele. Tranquilo.

— Valeu, parceiro.

Solidão

Hoje, você é um perfil social, um número de WhatsApp, um contato a ser respondido em meio a um ranking de conversas e prioridades.

Não que isso faça diferença para quem responde, mas faz para quem espera. Vive a expectativa de ser importante para alguém, talvez o contatinho que irá te dar algumas horas de escape da realidade, seja realmente a sua prioridade. E aquela pessoa que está esperando um posicionamento de vida pode ser o vilão de toda a sua existência.

Estamos nos dois lados dessa equação, sempre estamos. A grande questão é: quanto você se sente sozinho depois de dar respostas genéricas a todos? Alguns dizem: "Ah, mas eu gosto de ficar sozinho." E eu te digo: ficar sozinho é uma merda. Você se engana preenchendo o vazio com coisas que te deixam confortável, até porque, na maior parte das vezes, julgamos que é melhor estar sozinho do que em um lugar onde não queremos estar.

Inteligência emocional que chama, né?

Às vezes, você começa a se importar demais com coisas que não têm importância, e no final se vê maratonando alguma série e pensando o quanto seria legal ter alguém para comentar.

É, ficar sozinho é uma merda.

Música: Sweet Dreams - Marilyn Manson

sexta-feira, 11 de abril de 2025

O Peso da culpa

 Quando você se sente responsável por tudo de ruim que acontece...

Não, o que acontece de bom você não tem culpa — só o que é ruim.

A culpa massacra, te rasga, te faz se sentir menos a cada dia. Menos digno das coisas boas que podem acontecer contigo.
Mas o seu lado da história ninguém nunca vê — apenas enxergam o que você aparenta.
Ninguém tem a profundidade de simplesmente ouvir, de ajudar a aliviar essa camada de culpa que te pesa tanto.

Uma semana difícil.
Uma semana se sentindo sozinho, culpado, cheio de preocupações.
Sempre parece que você é o último a saber das coisas.
O último a se importar.

Às vezes, é difícil... porque você percebe que ninguém liga para o que você pensa, para o que você deseja.
As vontades individuais estão sempre acima da empatia.
E a lição de moral vem de quem se irrita mais com a sua forma de estar do que se importa com a sua situação.

Mas calma.

(Eu sei: pedir calma pra quem não está calmo só irrita mais. Muito mais.)

Mas pensa...
Um dia, uma hora, um momento — alguém vai te enxergar.
E talvez, só talvez, entendam o seu lado.

quinta-feira, 10 de abril de 2025

O Cão que me Seguiu.




20:20. Hora de ir embora.

Desligo os equipamentos, pego minha mochila quase vazia e saio da empresa. Já do lado de fora, vejo o movimento da rua. É noite, óbvio. Mas com aquela breve olhada pro tempo, e o corpo voltando a sentir o clima real — não o do ar-condicionado — percebo que não vou precisar usar a blusa que carrego.

Os colegas que saem comigo seguem seus caminhos para casa. Nos cumprimentamos, soltamos um “até amanhã” e um “bom descanso” sincero. Cena real de fim de jornada uniformizada na gamificação do trabalho.

Acendo meu cigarro. Vejo as luzes amareladas dos postes e começo a caminhar pra casa. Moro relativamente perto, coisa de 10, 15 minutos a pé. E no caminho, vou voltando a ser totalmente eu — como um astronauta tirando a roupa pesada depois de uma caminhada no espaço. Uma roupa cheia de obrigações de manter a nave funcionando bem.

É. Uma jornada sozinho durante o dia pra uma caminhada sozinho à noite. Talvez eu só seja observador demais em meio ao caos dopado de personas. Ou talvez eu só esteja velho demais pra jogar o jogo social de corpo e alma. Porque há sempre em mim um desejo de mandar um foda-se geral, um vai tomar no meio do seu cu. Mas sigo fingindo que fui domesticado. O que, no fim, acaba sendo verdade.

O começo da descompressão é sempre incômodo. Então acendo outro cigarro e sigo meu caminho de volta à “realidade” da volta pra casa — talvez o lugar mais distante em que você esteja durante toda a vida.

Mas aí, no meio da rotina, entre tragadas e a luz amarela dos postes iluminando o cinza do asfalto e dos carros insossos de cores neutras… acontece algo. Um cachorro. Preto, com pelos próximos ao focinho meio marrons. Começa a me acompanhar. Um cão adolescente — tem a energia de um novo, junto com a inocência de alguém perdido no caminho.

No começo, fico hesitante. Será que ele tá me seguindo mesmo? Guardo o celular onde lia notícias do dia e atualizações de rede social. Continuo tragando o cigarro, tentando entender: e se ele estiver me seguindo, por quê eu?

Mas aí atravesso uma avenida. Paro. Ele para. Eu sigo. Ele vem ao meu lado.
Ali eu entendo.

Pergunto pra ele quem é. Como se ele fosse me responder. Mas ele só reage ficando mais empolgado. Quase me derruba, de tão feliz por eu ter notado ele. Por ter feito conta da existência dele. A rua, os cigarros, o caminho — tudo ficou em segundo plano. “Ele deve estar com sede”, penso. Mas o caminho até minha casa é solitário. Quase ninguém na rua.

Seguimos — eu e meu companheiro de caminhada. Muito comportado, por sinal. Ele vê outros cães latindo nas garagens, mas só olha como quem pensa “quem fez isso?” e corre até mim, se vê que tô mais à frente.
Pula em mim, recebe carinho — não sem antes eu trocar o cigarro de mão. Não quero queimar ou jogar fumaça no rosto desse companheiro estranho e presente.

Fico pensando se levo ele pra casa. Parece bem cuidado, e muito dócil. Mas aí penso que pode ter um lar, alguém procurando. E, além disso, minha rotina não comporta a responsabilidade de ter um amigo canino agora.
Então traço um plano.

Mais à frente tem uma barraca de lanches. Ele vê mais gente e fica feliz, brinca timidamente com alguns. Pergunto à senhora da barraquinha se ela tem um pote pra eu dar água pra ele. Ela tem. E sim, ele tava com sede.
Ali, entre pessoas, luz branca (não mais amarela), e um pote de água, ele decide ficar. Aviso que talvez esteja perdido, que alguém possa aparecer procurando. A senhora diz que vai ficar de olho.

E com essa decisão dele de ficar, eu não me oponho. Faço um carinho, agradeço a companhia, e sigo pra casa.
Acendo um cigarro. Olho algumas vezes pra trás, pra ver se ele tá me seguindo de novo.
Não está. Melhor assim.

Às vezes a gente acha que essas coisas têm significado místico, energético. Eu só vejo como isso: às vezes a gente só precisa dar a chance de alguém nos seguir. Porque, por mais perdidos que estejamos nos nossos pensamentos, sempre tem uma barraca de lanches no caminho. Com pessoas. E um pote de água pra quem tá cansado de estar perdido — mas feliz por ter sido notado.

Sigo pra casa. Sozinho. Tragando meu cigarro. E dizendo mentalmente:
Até logo, meu amigo!

quarta-feira, 9 de abril de 2025

Cigarros, cachaça e redenção

(Esse texto eu escrevi um tempo depois que eu me separei)






Ah, quanto mais fazemos para as pessoas gostarem da gente, menos elas gostam.

Tudo bem que, no caso deste que vos escreve, eu parto do princípio de que começo a discussão sendo o errado da história.

Toda redenção passa pelo sofrimento de perder. A grande derrota. Sim, aquela que te faz ver que jogou fora a chance da sua vida.

Mas isso não é um texto pessimista de um cara que está prestes a virar alcoólatra, depravado, que pode — ou não — morrer de uma hora pra outra, de infarto ou se jogando na frente de um ônibus.

Não. Esse texto é otimista. Diz que nenhum sofrimento dura uma vida toda. Uma hora você se dá conta de que isso aqui não é um jogo de ganhar ou perder. É apenas vida: erros, acertos, coisas acontecendo o tempo todo, com ou sem a sua presença.

Você vai ser tóxico(a) em algum momento. É inerente à nossa condição de animais sentimentais, cheios de problemas mal resolvidos.

Uma das frases que mais odeio é:
“A terapia tá em dia?”
Não. A de ninguém está. Porque estamos o tempo todo sofrendo, vivendo, tentando nossa jornada de redenção.

Álcool, cigarros ou qualquer outro vício só servem pra tapar buracos. Pra fingir que nossa terapia tá em dia.

A minha está. Porque sei que perdi — mesmo num jogo onde não há vencedores nem perdedores.

Eu perdi. Perdi um dos maiores motivos pra ser comum. O medíocre. O normal.
E como eu odeio perder.

Odeio pensar que tenho que seguir pra minha redenção sozinho, fedendo a cigarro, bebida, vagina.

O que me espera? Não sei.
Só sei que vou apagar as mensagens dela, pra não ficar encarando a foto… e, a cada mudança de perfil, ver que virei uma página virada.

A redenção tá aí.
Mas não antes de me sentir um solitário absolutamente completo.

Dentro desse otimismo falso, eu me sinto eu mesmo.
Como na música Heart-Shaped Box.

Até mais.

terça-feira, 8 de abril de 2025

A Biografia de um cara comum


O som do ar-condicionado, que precisa de manutenção, fica martelando na minha cabeça, enquanto espero mais um cliente chato ligar e falar que precisa de urgência, e passar o atendimento dele na frente de todos os outros pelo simples fato de ele dizer que depende da internet.

É como se eu repetisse os dias, do mesmo jeito, a mesma coisa, mas fazendo com que meu patrão, que viajou para o Nordeste no ano passado, viaje este ano para a Disney, enquanto eu penso em quantos dias de férias vou vender para poder ter algum extra, para me dar ao luxo de comprar alguma coisa legal — e sem sentido.

Enquanto isso tudo acontece, de forma silenciosa, meu cérebro fica me martelando: será que esse fim de semana meu filho vem pra casa?

Acontece que, durante toda a rotina, eu fico me perguntando o que estou construindo pra mim, tendo certeza de que estou construindo algo para os outros. É como se fosse uma espiral de humanidade moída, com doses de antidepressivos para me sentir minimamente humano e estável nesse sonho médio, onde eu sou um número em meio a muitos números, criando mais números para um número cada vez menor de pessoas que controlam a maioria das sequências numéricas.


Calma, eleve a sua postura, retire o boné com o símbolo da anarquia, pareça sério — o diretor está vindo mostrar como a empresa dele é maravilhosamente funcional. Então os “colaboradores” (palavra que sinceramente odeio, prefiro empregado ou trabalhador) têm que parecer sérios, pessoas que sabem exatamente o que estão fazendo... Como se fosse difícil viver uma repetição crônica de falas e ações e não saber o que está fazendo. Apesar de, se pararmos para pensar, ter real consciência do que se está fazendo ser muito mais do que o movimento robótico de uma rotina laboral.

O sorriso amarelo retribuindo o “Olá, pessoal” do engravatado que pensa: "Nossa, preciso de recursos humanos assim!" Não, ele não precisa de pessoas, mas sim de recursos humanos, que são tudo que a humanidade pode fazer — sem ser humano, é lógico.

E a tour pela área técnica termina com o diretor da empresa orgulhoso de mostrar a sala de descanso dos funcionários, onde há um videogame e as paredes pintadas de personagens clássicos de desenhos, onde por uma hora você pode — por muita consciência do patrão — desfrutar de uma sala que é praticamente a sua casa. Mas não é.


Não, eu não uso a sala de descanso, porque basicamente ela não serve pra porra nenhuma, a não ser parecer um momento de descanso — como se fosse um carregador ultrarrápido de um celular que fica ligado o tempo todo.

Não, eu fumo meu cigarro, volto para a minha baia e fico vendo as notícias de um mundo distante — aquele que acontece na rua de casa, lugar onde eu menos frequento durante a existência como ser produtivo da sociedade.

Em meio a isso, pensando: “Será que compro umas duas cervejas hoje?” O número curioso de duas cervejas não é uma aleatoriedade — é porque esse número é o suficiente para você ingerir algo diferente do pouco que se alimenta todo dia, e conservador porque você não faz ideia de onde virá algum gasto até o fim de semana.

Uma idiotice, se pararmos para pensar, já que passo a maior parte da minha vida — em que posso fazer algo de útil — no trabalho. Então, teoricamente, eu teria que ter menos gasto em casa. Mas não. O gasto é estranhamente alto, porque parece que só ter um dormitório longe da rotina massacrante é um luxo, quase sendo anunciado nas vagas de emprego: “ao fim do expediente, você pode voltar pra casa”.


Engraçado esse despertar, porque você percebe que não é alguém, e sim algo — como uma mesa, um computador, um vaso. Só é algo. Porém, o único algo que tem o compliance a seu “favor”. Porém, as únicas coisas que ficam em paz no ambiente são as mesas, vasos, cadeiras — menos o ar-condicionado ligado e fazendo barulho por falta de manutenção. Não, esse não.

Eu não preciso estar fazendo algo o tempo todo, eu preciso parecer que estou fazendo algo o tempo todo. E durante esse tempo, eu crio esse texto. Não sei se irei publicar de alguma forma, ou se irei deixar ele sem continuação — como toda e qualquer coisa que eu faça no âmbito pessoal. Mas o cliente, não. Esse eu tenho que solucionar o chamado. Eu sou medido pelo número de chamados que abro e pelo tanto de ligações que atendo. Todo o resto é apenas excesso de informação.


Mas a boa notícia é que eu comprei mais um boneco de pelúcia pro meu filho. Um vindo da China, já que aqui não tem muitas opções — e as que têm são absurdamente caras. Levando em consideração que são os mesmos que eu comprei da China, mas com uma taxa de vacilo por você não ser empreendedor o suficiente para abrir seu próprio negócio de bonecos de pelúcia de personagens difíceis de se encontrar aqui no Brasil.


Mas o trabalho não é ruim. Ele me permite que eu fique escutando as músicas que gosto entre os atendimentos — um resquício de identidade. Como se fosse uma mancha de óleo de pastel que cai na calça e não sai nunca mais, e que nem faço questão de tirar, já que uso a mesma calça por uma semana ou mais. Até porque as pernas ficam escondidas debaixo da mesa, onde posso me rebelar usando essa calça fodida e um All Star vermelho.

Porém, hoje vim pensando como, em tão pouco tempo de vida minha, eu posso ser tão tóxico com as pessoas. Sabe aquela coisa de ghosting, love bombing e todos os blá-blá-blás que as pessoas falam com seus termos em inglês, que em português só quer dizer um puta de um cuzão?

Então. Eu fiz todas essas coisas. E sim, penso nelas durante o dia, entre os barulhos dos teclados dos colegas de trabalho martelando as teclas e gerando seus números.

E não tem desculpa. Eu fiz. Isso é foda porque eu sei exatamente o porquê fiz, em relação a mim mesmo. Mas é foda que, naturalmente, quando você se coloca à frente — em primeiro lugar — alguém ficará de fora. E a crueldade de ser humano é lidar não só com as próprias expectativas vazias, mas também com as das pessoas.


Legal que eu escrevo isso tudo enquanto espero um cliente responder. Penso em todas essas coisas em meio a um controle uniformizado e diagramado com fórmulas genéricas de bom desempenho no trabalho. Ah, como a empresa aparece bonita no LinkedIn: #orgulhoempertencer.

Sou um ativo da empresa e inativo na minha vida durante a maior parte do tempo.


Interessante como a gente preenche o vazio de não ser produtivo quando sai do trabalho com algo completamente aleatório, e que só faz real sentido na nossa cabeça. Tipo gastar todo o dinheiro que você ganhou tentando ter um shape na academia, sabendo que só vai mostrar ele durante as férias programadas durante um ano inteiro, onde você decidiu ir para a praia mais barata que tem — e que está contaminada porque as políticas públicas estão pouco se fodendo para o litoral onde o hotel de luxo não tem parte da praia tomada pra si. Ou para aquele churrasco em que o famoso “kit churras” reina, e é o alívio social e uma das únicas maneiras de você ser você mesmo. Ou se acabar na bebida, jogando todo seu dinheiro nas rodas de um carro popular que custa mais que uma casa.


Mas esse texto não é sobre todos. É sobre eu — um cara comum, que observa com um olhar cansado. Um olhar de quem pensa o tempo todo em como seria muito mais legal se eu não pudesse ver toda a minha mediocridade em seguir o curso “natural” da humanidade — onde se gasta todo o tempo, gastando saúde para ganhar dinheiro, e rezando para não chegar à velhice e ter que gastar todo o dinheiro (que não tem) para ter alguma saúde.

Alguns chamam esse dia a dia de dignidade. Eu chamo de ausência, porque eu estou ausente das minhas coisas, da minha vida. Mas como uma hiena, comendo bosta e rindo dos memes que mandam no grupo de trabalho (o que não tem o chefe, porque se divertir pode gerar punição).


Poderia escrever páginas e páginas, e querer ter o ego inflado querendo lançar um livro com o título: A Biografia de um Cara Comum, mas quer saber? Eu estou tão longe desse lado da arte, que acharia um absurdo eu me colocar como alguém que faz as pessoas pensarem.

No fim, eu só tenho aqui minha rotina e minha lucidez, que são minha maior maldição — em meio a tantos benefícios de ser somente um cara tentando ser legal em um story de Instagram.

Cuspindo palavras para que tenham algum sentido apenas para mim, sabendo que tudo isso será mastigado — mas não se esqueça: não deixa de ser um sanduíche de merda só por você mastigar diferente.


E você aí pode se perguntar: por que ele não escreve sobre a rotina na casa dele? E eu te respondo: porque ela é tão irrelevante quanto a rotina de qualquer um. E, no final, eu só vivo a semana esperando chegar do trabalho na sexta à noite e ver que meu filho está lá. Estou torcendo para que o boneco de pelúcia dele chegue rápido, para que eu veja o brilho no olhar daquela criança que não espera que eu seja super-herói — mas somente pai dele.


Vou pegar um café, porque como está caro pra caralho comprar no mercado, eu vou tomar o máximo que posso no serviço.


Na vaga, poderia ter anunciado como benefício: Café à vontade.


Até amanhã.